sábado, 25 de fevereiro de 2012

DAS PUTAS ASSASSINAS PARA AS PUTAS TRISTES


“O sexo é o consolo daqueles que não tiveram a alma tocada pelo amor”


Na esteira de Bolaño, li seu livro de contos “Putas Assassinas”, seguido de outro ícone da literatura latino americana – Gabriel García Márquez com o seu “Memória de Minhas Putas Tristes”. Foi interessante fazer uma leitura logo após a outra, porque pude identificar muito claramente os estilos de ambos os autores e chegar à conclusão que os dois me agradam igualmente :  Enquanto Bolaño me embebeda com seus devaneios descritivos, Márquez me inebria com suas histórias de amor – poucos sabem contar uma história de amor como ele.


Dos 13 contos de “Putas Assassinas” deliciei-me sobretudo com a “Prefiguração de Lalo Cura”- personagem que reaparecerá em 2666 -  e “O Retorno”, um devaneio bizarro e surpreendente sobre “algo” depois da vida. Os contos de “Putas Assassinas” – o nome do livro é referência a um deles – estão muito pouco interligados ao título e muito menos entre si, mas por incrível que pareça, após ler “Memória de Minhas Putas Tristes” de Márquez, fui capaz de encontrar um sentido para que a coletânea de Bolaño levasse esse nome.


“Memória” conta a história dos 90 anos do protagonista, que nunca havia se casado ou se apaixonado vivendo sua sexualidade exclusivamente com putas, e que nas vésperas de se tornar nonagenário, manifestou um desejo incontido de passar a noite com uma virgem. Resolve fazer seu pedido a uma cafetina, velha conhecida, que acaba por arranjar uma adolescente de 14 anos, paupérrima, que sobrevive de pregar botões em roupas numa fábrica. A noite do primeiro encontro dos dois, transcorre de forma inesperada : a menina completamente nua, dormindo sob afeito de um calmante, com o velho igualmente nu, deitado ao seu lado, apenas admirando-a, sem querer acordá-la e retirando-se antes que ela acordasse naturalmente.
Os encontros vão se sucedendo sempre da mesma forma : uma mistura de voyeurismo e fetichismo em que o velho assiste ao sono da menina, toca-a de leve, sem consubstanciar qualquer intercurso que envolvesse seus genitais. Nasce daí uma relação de amor que o velho jamais tivera a  oportunidade de experimentar. Ele diz a Rosa Cabarcas (a cafetina) : “O sexo é o consolo daqueles que não tiveram a alma tocada pelo amor”. O velho chama a menina de “Delgadina” , nome que inventou durante suas noites de observação amorosa.


É uma história de amor inverossímil, mas muito bonita de qualquer forma: Chamou-me a atenção o acolhimento e o carinho com que Rosa Cabarcas trata a questão do velho. A “puta-mor” acaba por ser a grande articuladora de algo que aparentemente se afasta da prostituição: o amor sublime. O velho, apesar de seus 90 anos, não era incapaz de fazer sexo. Apenas descobriu um sentimento que embora sensual, tomava-o inteiramente e com tal intensidade, que prescindia do ato sexual em si.  O exercício da sensualidade daquele amor, se dava pelos cuidados e mimos que o velho deitava sobre sua amada, a observação dos frêmitos de seu corpo nu e adormecido, pela arrumação do quarto onde se encontrava com ela. O velho passou a um exercício diário de galanteio, de conquista e namoro adolescente, que desconhecia em si mesmo. Tão adolescente que as vezes se comporta como tal, em seus acessos de fúria e ciúmes quando sente que pode perder a menina, sua Delgadina.

Refletindo sobre o acolhimento da “puta-mor”, não pude deixar de pensar no papel ancestral do feminino : Receber para a vida e encaminhar para a morte, como uma sentinela presente na passagem entre os dois mundos, entre o ser e não ser – como em Antígona que sacrifica a própria vida pelo direito de enterrar seu irmão e garantir-lhe a paz dos mortos.



As putas são os últimos redutos dos não amados ou dos que não se sentem capazes de amar. São aquelas que a partir da receptação em seus corpos, criam um simulacro do amor e do acolhimento afetivo para aqueles que encontram no sexo o único consolo, o único retorno possível. As putas são, acima de tudo, mulheres e como tais receptadoras das passagens da vida de um homem, grandes mediadores da vida e da morte. Os franceses chamam o gozo sexual de "petit mort", o que talvez reforce o arquétipo da proximidade entre a experiência sexual e a morte -  que para mim, dá mais sentido ao título de Bolaño. 





PUTAS ASSASSINAS - ROBERTO BOLAÑO - COMPANHIA DAS LETRAS - 219 PÁGINAS





MEMÓRIA DE MINHAS PUTAS TRISTES - GABRIEL GARCIA MÁRQUEZ - EDITORA RECORD - 127 PÁGINAS

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

SÓCRATES E A ARTE DE VIVER


Uma vida que não é constantemente examinada, é indigna de ser vivida



Hoje este Blog está fazendo um mês de vida e em comemoração, resolvi prestar uma homenagem àquele a quem considero o maior pensador de todos os tempos, sobretudo porque viveu e morreu rigorosamente de acordo com seus mais profundos ensinamentos que remontam quase 2500 anos : Sócrates.
Não bastasse a genialidade e a atualidade de seus pensamentos, continua absolutamente notável que Sócrates não tenha escrito uma linha sequer durante toda sua existência, transmitindo suas idéias e métodos de forma oral para seus discípulos. Conhecemo-lo a partir da obra de Platão, sobretudo pelos “Diálogos”, em que Sócrates figura praticamente como uma personagem sua, Xenofonte que o glorifica e Aristófanes que o combate e satiriza.

O livro ao qual me refiro neste espaço não dispensa absolutamente a leitura dos diálogos de Platão, da Obra de Xenofonte – “Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates” ou o excelente “O Julgamento de Sócrates” de  I. F. Stone, que dão uma noção bastante clara da dimensão do ateniense, mas considero esta pequena obra de J. C. Ismael – “Sócrates e a Arte de Viver – Um Guia para a Filosofia no Cotidiano”, uma síntese espetacular e absolutamente aplicável no dia-a-dia das pessoas em pleno século XXI.

Não se trata de uma receita – a leitura destas lições deixará isto bem claro - pois tal receita não existe. Se existisse, o maior fundamento do pensamento socrático ruiria. Contudo, cada um destes dez pontos que selecionei da obra, fez-me refletir muitas vezes e tais reflexões me socorreram em muitos momentos em que havia “me esquecido” que era uma tolice levar-me tão a sério ou temer o que quer que fosse.   


Sócrates mostrou que a busca da verdade - e não necessariamente o seu encontro- não passa pelo cosmo ou pela natureza, mas pelo território sagrado da alma de cada pessoa disposta ao difícil enfrentamento da tarefa de transformar-se nela mesma.

AS DEZ LIÇÕES DO SOCRATISMO -

  1. Cuide da Alma – Cuidar da alma, missão suprema e indelegável do homem, é cuidar de si. O cuidado de si implica estar em confluência com o mundo, mas ao mesmo tempo, protegido das tentações que perturbam a intimidade, buscando-se na solução serena, e não na opinião dos outros, a resposta para as dúvidas e a libertação das incertezas. Preocupar-se com a alma sem descuidar-se do corpo, mantendo-o saudável e ágil ; é afastá-lo do perigo dos prazeres mundanos, fáceis e efêmeros que embotam os sentidos. Sendo a vida uma experiência intransferível, só os covardes e os fracos delegam a outros, a condução dos seus atos. A descoberta de si não se realiza num único, mas em contínuos exames, uns mais, outros menos reveladores – nenhum desprezível. Esses exames significam perguntar-se principalmente, se quem o faz está vivendo a vida que deseja, se sua vontade prevalece sobre a dos outros, se seus objetivos estão sendo alcançados, se seus amigos são verdadeiros. Porque quem não examina sua vida com persistência e coragem, modificando-lhe os rumos quando causam mais sofrimento que alegria, está condenado a extinguir-se sem nada a acrescentar à fatalidade da decadência biológica.
  2. Tome conta de sua vida – Tomar conta da própria vida não é uma tarefa fácil : exige eterna vigilância sobre a tentação de delegá-la a outros, de se julgar indigno de ser merecedor das próprias conquistas, enfim, de se diminuir perante si mesmo. A arte de viver passa necessariamente pela incansável missão de ver a vida como uma dádiva preciosa demais para ser descuidada, abandonada aos caprichos do acaso, desprezando a necessidade de aperfeiçoá-la através do estudo e da meditação.  Tomar conta da vida exige também atenção para que a vida do próximo não tenha importância desmedida, o que pode levar ao desinteresse pela própria.
  3. A liturgia da amizade – Amigos verdadeiros cultivam ideais elevados e lutam contra o antagonismo que brota naturalmente da convivência prolongada, lembrando que ela faz parte da natureza humana. Entre amigos, o único interesse que deve prevalecer é a alegria da convivência, sem disputas de qualquer natureza, não permitindo que a inveja e a tolerância cínica, maculem a pureza da relação.
  4. A natureza do amor – O amor é a experiência que mais aproxima o humano do divino. Porém, é preciso examiná-la – eis aí um aparente paradoxo – sem paixão, mas com a objetividade que parece prejudicar o seu verdadeiro entendimento, necessário para fugir de uma retórica vazia que nada define. Ao desejar o amor do outro, deve conhecer-se profundamente e não pretender privá-lo de nada que o impeça de ser ele mesmo, orientando-o, caso esse conhecimento lhe falte, a buscá-lo com determinação. Para que a relação entre os amantes seja longa e verdadeira, eles devem compartilhar com o mesmo delírio a essência traduzida na admiração mútua de seus corpos e na consciência das nobres qualidades das suas almas, alimentando-as na parte virtuosa e derrotando a viciosa.
  5. O que é ser livre – Na busca da liberdade o homem só abandona a ilusão de tê-la encontrado quando se convence de que sem conquistar a si mesmo não a alcançará; e, quando exercer o autodomínio com a mesma naturalidade com que respira, poderá dizer que é verdadeiramente livre e sábio, e não lhe ocorrerá ensinar  a liberdade a quem nunca a possuiu, ou conformou-se em tê-la perdido. A liberdade só é autêntica quando não depende de nada exterior, mas do conhecimento que precisa existir das suas limitações e da autonomia em relação a qualquer influência que possa desviá-las do aperfeiçoamento interior.
  6. Quando transgredir é salvar-se  - Obedecer não é submeter-se cegamente, mas estar em harmonia com a liberdade e vontade interior, lutando com todas as forças para que não sejam usurpadas. Viver bem significa satisfazer-se com as próprias convicções, porém não as considerando imutáveis ou definitivas : sem a prática do exercício da dúvida, nenhum modo de viver é autêntico. O transgressor não necessita justificar seus atos porque, desconhecendo o sentimento de culpa, pratica a mais elevada forma de liberdade – a que brota da fonte principal do direito positivo, que  por sua natureza está além do arbítrio dos homens. Portanto, aquele que transgride o que o impede de viver bem, está no caminho correto da salvação de si mesmo.
  7. O indivíduo e o cidadão – O indivíduo e o cidadão desempenham papéis distintos na sociedade. Desde que nasce, a criança raramente é educada para ser ela mesma, mas mero representante da cidadania, ou seja, alguém cuja vida é pautada pelas convenções da sociedade em que vive. O viver bem consiste pois, no auto-conhecimento que permite em primeiro lugar, discriminar precisamente os dois papéis e no exercício cotidiano de ambos, sabendo-se o que pertence a um ou a outro.
  8. Não se leve a sério – Não se levar a sério significa questionar constantemente os próprios valores, trocando-os por outros sempre que isso possa enriquecer o conhecimento; mas significa principalmente encarar a vida com humor, transmitindo-o as outros que o cercam como antídoto para os inevitáveis sofrimentos do cotidiano. Sabendo que a verdade  última jamais será alcançada, e que levar-se a sério equivale, entre todas as coisas, a ter certeza de ter encontrado tal verdade.
  9. Tenha somente o necessário -  O homem que se conhece verdadeiramente, mediante o exame e a prática da virtude, está livre da tentação de possuir bens materiais além dos estritamente necessários para a vida. Contentar-se com o que possui está entre os mandamentos do viver bem, e, diante das múltiplas ofertas ao seu dispor, alegrar-se por não precisar de nenhuma delas : as coisas indispensáveis são muito poucas.
  10.  Viva a arte de morrer – A vida pode parecer curta para a preparação da morte, mas não o é para aquele que se empenha em viver bem, em praticar a virtude e principalmente em se ocupar da filosofia – porque se ela ensina a viver, ensina também a morrer. A mais bela das mortes é aquela que pode ser chamada de separação heroica da vida, mas só conhece a alegria dessa experiência quem viveu com inquietação e curiosidade. Preparar-se para a morte é o contrário de sua negação : é transformá-la numa companhia, tendo-a sempre presente na vida diária, como se fosse um sagrado aprendizado cujo ápice talvez seja submergir num sono eterno, sem nenhum sonho a perturbá-lo.



A morte de Sócrates é um episódio particularmente importante, pois ele teve todas as chances possíveis para safar-se da sentença que lhe foi atribuída por ser contra a democracia ateniense, atacar os deuses impostos pelo Estado e corromper os jovens. Porém, ele não aceitou quaisquer saídas que o fizessem abjurar de suas idéias, aceitando a morte com a placidez com que sempre a encarou em vida.







SÓCRATES E A ARTE DE VIVER - J. C. ISMAEL - AGORA EDITORA - 2004 - 160 PÁGINAS

sábado, 18 de fevereiro de 2012

A MENINA SEM QUALIDADES – SPIELTRIEB

"O mundo é uma lasanha" -  Juli Zeh

















Juli Zeh foi uma grata surpresa para mim pois, embora ainda muito jovem, produziu neste romance uma história densa, porém com a clareza e a mestria dignas da tradição da grande literatura alemã. Tradição que conta com ninguém menos que Goethe, Schiller, Schlegel, Novalis, Thomas Mann, Rilke, Robert Musil – tão presente nesta obra da jovem autora - entre tantos. Nunca havia ouvido falar sobre ela até “A Menina Sem Qualidades” cair em minhas mãos numa de minhas incursões de exploração em uma livraria e após lê-lo, não me surpreendi que Juli Zeh seja considerada uma das maiores pensadoras da Europa na atualidade, afinal profundidade, erudição e clareza reunidas numa só autora tornou-se uma raridade nos dias que se vão, mesmo no Velho Continente.   




A obra é uma síntese da época de Juli Zeh, que retrata uma Alemanha reunificada e contemporânea, numa era pós-niilista em que a morte da fé e da filosofia torna o mundo um palco vazio de objetivos e objetos nos quais se possa crer e negar (negar é uma forma de reconhecer ao inverso, é tomar uma posição definida). O vazio existencial deixa apenas espaço para o jogo, como um antídoto para o tédio de uma vida sem sentido, cuja direção é prévia e inexoravelmente conhecida. 
Penso que este cenário ganha aspectos diferentes nas diversas partes do mundo : Na velha Europa, com seu imperialismo filosófico, suas guerras, ditadores, conflitos religiosos, morticínios e pensadores brilhantes, cujas chamas imperialistas arderam mais agressivamente nos dois últimos séculos, remanescem os laivos de Nietzsche e seu abismo sem fim, tornando os jogos vazios de sentido, mas repletos de significantes : um verdadeiro enredo do nada, o uso vazio da inteligência, como um animal predador cuja presa é apenas imaginária. 


No Novo Mundo, me parece que a fase pós-niilista é seguida por dois movimentos : um que chafurda no imperialismo burro, sob o poder das armas e do dinheiro, num consumismo exagerado, portanto abjeto e desnecessário - um capitalismo hipertrofiado que iniciou seu desenvolvimento no pós-guerra e parece necessitar sempre de uma nova guerra para alimentá-lo. O outro movimento refere-se aos emergentes. Estes, aparentemente, conseguem reunir o pior dos dois mundos : Fraco de idéias e armas, projeta uma distopia crescente que atinge a política e as religiões e que se desdobra como o canto das sereias sobre as mentes mal preparadas e servis, eivado pelo populismo da palavra fácil e pelo consumo das sobras do "primeiro mundo".  Em todos os casos, o vazio se faz "presente", para ser preenchido pelos tais jogos - no caso europeu rende boa literatura, no americano rende Hollywood e Marvel Comics e nos emergentes rende a violência urbana gratuita, políticos indecentes, caudilhos fanfarrões, narcotraficantes, trabalho escravo, zoológicos humanos na televisão. Igualmente, em todos os casos, os resultados destes jogos apontam para um futuro absolutamente incerto, onde a moral, a ética e a justiça (valores basilares da civilização judaico-cristã) são apenas palavras cujos conceitos se tornam cada vez mais esgazeados pelo relativismo oportunista.


O que me pegou na “Menina Sem Qualidades” em primeiro lugar é que a trama é relativamente simples, porém suas personagens são bastante complexas. Esta característica já traz, a meu ver, o tom realista da obra, pois a trama de nossas vidas é muito mais simples do que nós, suas personagens – a complexidade está intrínseca ao existir da mente humana e não propriamente em seu ciclo vital.
Ada, a protagonista principal, é uma menina de 14 anos, de inteligência brilhante, sem grandes atributos físicos e de um distanciamento afetivo que a leva crer que é desprovida de alma. Tenta ao longo de toda a trama que se passa principalmente na escola Ernst Bloch, utilizar sua mente prodigiosa como uma arma, uma espada sempre em riste para liquidar qualquer um que tente tocá-la emocionalmente. Ao conhecer um colega egípcio (com ¼ de sangue francês) Alev, entrega-se às manipulações deste nos diversos jogos que propõe, sobretudo “O Grande Jogo”, que consistia em seduzir um professor de educação física, levando-o a se apaixonar por Ada. Alev e Ada funcionam como um time durante os ataques que desferem sobre seus oponentes e conduzem “O Grande Jogo” com precisão quase cirúrgica. Ada é mais inteligente que Alev e embora sempre o antecipe, deixa-se ficar na posição de peça de um jogo que apenas aparentemente é dirigido por ele. 
O mega romance do também alemão Robert Musil - "O Homem Sem Qualidades" ( um romance que embora tenha mais de 2000 páginas soberbas, é inacabado) é analisado na escola que Ada frequenta durante toda a trama, o que permite reconhecer que, como a obra de Musil, Juli Zeh faz uma síntese de seu tempo. 



O quadro pintado por Zeh da juventude européia de seu tempo é absolutamente desolador, porém o final do livro revela algo que para mim foi uma surpresa : Algo parecido com o "anacrônico" sentimento de amor entra em cena para dar um fechamento nesta história cheia da erudição do vazio existencial.






















" A MENINA SEM QUALIDADES " - JULI ZEH - EDITORA RECORD - 2009 - 544 PÁGINAS

Penso que para além das obras, temos que valorizar as editoras e a qualidade das edições que colocam no mercado. A editora Record caprichou neste lançamento e entregou a tradução aos cuidados de Marcelo Backes, germanista de primeira linha e que demonstra sua excelência ao oferecer ao leitor um glossário excepcional, que permite compreender as expressões, referencias e até trechos musicais citados na obra, além de um posfácio muito bem elaborado que situa autora e obra dentro do cenário literário europeu e mundial. Há de se notar que o título original SPIELTRIEB tem um significado próximo de "pulsão pelo jogo", mas a opção de nomeá-lo analogamente à obra prima de Musil foi extremamente feliz, por homenagear a onipresença de "O Homem Sem Qualidades" na trama de Zeh e porque é absolutamente compatível com a a trajetória de Ada. 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

KADISH POR UMA CRIANÇA NÃO NASCIDA

O Kadish é um hino de louvor a Deus. Por ser tradicionalmente recitado nos enterros e nos serviços comemorativos dos finados, ele é popularmente considerado como uma oração pelos mortos. Entretanto, o Kadish não faz nenhuma referência à morte ou ao luto. É puramente uma exaltação a Deus e uma súplica por um mundo de paz.(Retirado do site culturahebraica.blogspot,com – escrito e postado por Leonardo Ferreira em 02.10.2008.)



Muito já se escreveu sobre o Holocausto e provavelmente muito ainda será escrito. Trata-se de um tema inesgotável, a meu ver, fundamentalmente por três motivos : 1) Uma iniciativa de manutenção viva da memória deste horror que se abateu sobre o povo judeu, para lembrar a humanidade e evitar que aconteça novamente, embora já tenha acontecido várias vezes depois com outros povos ; 2) O mal é atrativo para o humano, talvez mais do que o bem. O relato do mal vende muitos livros e filmes, porque o humano precisa ver o mal longe dele, como um relato, uma exceção, algo distante e circunscrito no tempo e no espaço e 3) A tentativa de catarse daqueles que viveram de uma forma ou de outra este flagelo.

O livro "Kadish por uma criança não nascida", escrito pelo húngaro Imre Kertész, deportado para Auschwitz aos 15 anos, desafia estes motivos e nos traz um relato radical e surpreendente, absolutamente pessoal e de uma contundência que nos faz trazer esse mal para bem próximo de nós, ainda que totalmente deslocados no espaço e no tempo. Não obstante suas parcas 131 páginas, o Kadish de Kertész me tocou mais do que a farta literatura através da qual já tive contato com o tema - um livro indispensável para a vida possível após o holocausto.


Penso que o Holocausto não pode ser contabilizado com os 6 milhões de judeus mortos. Existem aqueles que permaneceram vivos, e que talvez tenham tido um destino mais cruel do que aqueles que sucumbiram : Tiveram que encarar a morte de todas as ilusões sobre sua própria espécie. Há poucas histórias não genéricas sobre estes sobreviventes e suas vidas após a morte de suas esperanças e ilusões. Não os relatos dos horrores que viveram, pois destes há dezenas de milhares, não dos atos de coragem e superação que descobriram em si mesmo diante da tragédia, mas de suas vidas depois dos campos de concentração e extermínio :  a tentativa de voltarem para uma casa que já não mais existia, para uma família que havia sido toda dizimada,  enfim,  para uma vida que havia sido vaporizada e da qual quase ninguém mais do lado de fora se lembrava.


Muitos sucumbiram depois, anos após a libertação, se é que pode haver uma libertação, porque uma experiência como esta mata-nos no fundo da alma, muito antes de nossos corpos voltarem a ser apenas matéria orgânica. Outros conseguiram significar o que restou de suas vidas e ajudar outras pessoas , como Viktor Frankl, que criou a Logoterapia, cuja matéria prima foi colhida dos campos de concentração e difundida até hoje como um apoio importantíssimo de busca de significado para aqueles que não o encontram. Outros ainda, como Primo Levi ou Bruno Bettelhein não conseguiram através de seus diversos trabalhos publicados e fama conquistada internacionalmente, fazer a catarse do mal que havia se apossado de seus seres : suicidaram-se. Primo Levi em 1987 e Bruno Bettelhein em 1990.

Como se sentiram aqueles que, já do lado de fora, à luz da história que ia sendo desvelada diante do mundo, entenderam que aquilo que viveram aconteceu não apenas pelas ações dos nazistas, mas pelo silêncio medroso e conivente das nações que “não sabiam” da extensão de sua tragédia? O que pensam da humanidade, aqueles que ainda viveram o suficiente para conhecer a realidade dos Gulags Soviéticos, o genocídio na Ucrânia que matou entre 3 a 10 milhões de pessoas, o Camboja onde um quarto da população foi exterminada, Kosovo, Darfour, Timor Leste, Ruanda – holocaustos que se seguiram ao HOLOCAUSTO, ainda com a conivência silenciosa e inação das (i) nações ?



Kadish é um livro pequeno, mas cuja mensagem pesa várias toneladas. Trata-se de um monólogo ininterrupto em que o autor se expõe, na pele de um escritor idoso, chamado apenas de B.,  que foi provocado por uma simples pergunta feita por um amigo num passeio conjunto, muitos anos depois de Auschwitz , sobre se tinha filhos. O “NÃO” que se segue como resposta, não é apenas a negativa simples, binária de um fato, mas uma negação da possibilidade de vida após o Holocausto. Este “não” dado tão enfática e visceralmente por B., o conduz a uma profunda reflexão de sua vida, na busca de entender as origens daquela negativa tão absoluta, o que nos leva ao monólogo copioso, que poderia ser lido ou recitado como uma prece – um Kadish.


Em seu Kadish, B. repassa vários momentos de reflexão sobre seu martírio em Auschwitz e Buchenwald, nos quais o “NÃO” visceral vai se construindo para tudo aquilo que poderia representar uma repetição futura do horror explícito, da maldade impregnada nos corpos cujas peles eram esculpidas de dentro para fora pelos ossos pontiagudos, da reprodução da vida após os campos de concentração, da impossibilidade de proteger as crianças deste mal - primeiro como vítimas e depois, mais tarde quem sabe, como algozes.  Mas diferentemente de tudo aquilo que eu já havia lido a partir dos relatos de sobreviventes do Holocausto, há uma passagem no livro que marcou-me ainda mais profundamente pelo quanto ela extrapola o sofrimento específico deste que é tido como um dos maiores flagelos da humanidade. 


Neste ponto o autor relata um episódio em que estava doente, sendo transportado num dos famosos “trens da morte”, numa viagem cuja duração era completamente ignorada. A ração fria era distribuída em doses milimétricas, uma única vez por dia e ele deitado no chão do vagão estava incapacitado de buscar com os demais , de tigela em punho, a rala beberagem disputada sofregamente por mãos cadavéricas. Foi quando um homem se aproximou, chamando-o sempre de “senhor professor” e ofereceu-se para  buscar seu quinhão ao que ele, enfraquecido que estava, cedeu sem resistência. Enquanto o homem desaparecia naquela turba de semi-cadáveres que lotava o vagão, B. pensava na sua sentença de morte, pois havia cedido a única coisa que poderia lhe garantir a ração, sua tigela vazia, que certa e logicamente seria utilizada pelo homem para ter para si mesmo uma dupla ração, aumentando algumas horas sua própria sobrevivência. Qual não foi sua surpresa, quando o homem se acotovelando entre a turba, retorna com a tigela de ração fria e a deposita sobre seu abdome. Neste momento, B. não consegue disfarçar sua surpresa no rosto, que é captada imediatamente pelo homem, que, de certa forma indignado, lhe diz: “O que tu pensaste ?” . Neste relato, B. pede uma explicação ao leitor sobre este fato, sobre este algo que se esconde de nossos animais selvagens internos e que, por vezes, nos faz ilógicos, insensatos, capazes de comprometer a própria vida em função da vida de outro. Enquanto a história se lamenta com frases do tipo “ Auschwitz não tem explicação”, e se detém na análise da personalidade do Führer e seus seguidores como se fossem um acidente de percurso da humanidade, o autor nos diz: Não ! Esta é a humanidade, a comum, aquela que é normal ! O que precisa ser entendido, é aquilo que fez o homem retornar com a tigela, é a vida dos santos, daqueles que rompem a lógica do humano. A questão de fundo para Imre Kertész, não é “Como pôde acontecer Auschwitz ?” , mas ao contrário : Como poderia não acontecer Auschwitz ? 



Imre Kertész foi jornalista, e desde 1953 escritor e tradutor de expoentes como Hofmannsthal, Freud, Elias Canetti, Nietzsche, Wittgenstein, entre outros. Ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 2002.



" KADISH POR UMA CRIANÇA NÃO NASCIDA"  -  IMRE KERTÉSZ - IMAGO EDITORA - 2002 - 131 PÁGINAS.

  

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O FIM DA INFÂNCIA - A SUPREMACIA DO POSSÍVEL

“O Ministério da Saúde adverte : Liberdade em excesso pode fazer mal à felicidade”



Sempre apreciei muito o gênero de ficção científica e sobretudo em minha adolescência, dediquei grande parte de minhas leituras a Isaac  Asimov e Artur C. Clarke, os grande pais do gênero e criadores de obras maravilhosas como 2001 – Uma Odisseia no Espaço – de Clarke e Eu, Robô – de Asimov, que embalaram a minha geração e foram magistralmente adaptadas para o cinema. Um pouco mais tarde entra em cena Philip K. Dick com seu excepcional Blade Runner, também adaptado para o cinema,  marcando a transição da ficção científica para o cyberpunk, que associa todas as conquistas da informática e da eletrônica às inquietações  de uma nova geração que tem os mesmos dramas históricos e filosóficos das anteriores. William Gibson, Bruce Sterling e John Shirley são os pais desta nova ficção - Neuromancer, Monalisa Overdrive, Count Zero, etc. Gosto de todos eles mas, em minha opinião, Artur C. Clarke está no topo da pirâmide. Foi por esta razão que me surpreendi quando recentemente tive em minhas mãos  o romance “O Fim da Infância” de sua autoria, pois não o conhecia nem de passagem.



O Fim da Infância foi escrito o início da década de 50 e, exceção feita à tecnologia que evoluiu bastante nesses mais de sessenta anos, permanece bastante atual do ponto de vista do drama humano : a luta pela felicidade suprema em oposição à luta pela liberdade suprema.
Isto me faz pensar sobre a predileção que os humanos têm pelo “supremo”, pelo superlativo absoluto, pois nada parece ser o bastante se não atingir a supremacia, ou pelo menos se encaminhar consistentemente para ela. O grande problema, ou o “problema supremo”, como tanto agrada aos humanos, é que "supremo" é apenas uma meta e é inimiga mortal do equilíbrio e portanto, quanto mais próximo do supremo em algo, mais distante do supremo em outro algo que se lhe opõe . Isto não parece um problema, se os “algos” aos quais me refiro não forem igualmente importantes ou se não forem opositores entre si, o que parece ser justamente  caso da felicidade X liberdade. É claro que as definições de felicidade e liberdade são muito amplas, mas parece haver uma relação intrincada entre estes atributos que se colocam como os maiores anseios da humanidade em todos os tempos. O modelo contemporâneo de felicidade é muito semelhante ao retratado no livro de Clarke : acesso a bens materiais, lazer e prazer imediato.  Exceto se você for um asceta ou um monge budista, na maioria das vezes o aumento do nível de um ocorre em detrimento ao nível do outro : a cada objeto que possuímos, a cada relacionamento conquistado, a cada degrau de status alcançado, um pouco de nossa liberdade se esvai.



No romance de Clarke, a humanidade, às portas do século XXI,  está à beira do caos : miséria, violência, corrupção desmedida estão levando a civilização à autodestruição, quando se descobre que não estamos sozinhos e que existe vida inteligente em outros recônditos do Universo. Neste contexto, a Terra recebe a visita de naves espaciais oriundas de uma civilização extremamente mais avançada, que pairam sobre as principais cidades do planeta, sem contudo fazer contato de imediato. Quando resolvem se comunicar, os extraterrestres revelam seu objetivo de ajudar a civilização humana a resolver todos os  problemas que a estão levando à destruição. Contudo, os visitantes não se mostram fisicamente para os humanos, mantendo contato e emanando decisões através de um único humano escolhido para ser o Secretário e que mantém reuniões periódicas com o Supervisor da Raça Humana em uma das espaçonaves, que jamais aterrissam. O Secretário também não  pode ver o Supervisor, apenas fala com ele numa sala especial, onde recebe instruções e dá informações, que oculta a aparência do alienígena, mas permite uma conversa direta entre ambos, sem a mediação de aparelhos.



O que se segue a esta intervenção são décadas de paz absoluta e prosperidade na Terra, onde as guerras são eliminadas, a miséria e a violência são substituídas por abundância e possibilidades ilimitadas de lazer. Durante este período idílico, os alienígenas são chamados pelos humanos de “Senhores Supremos”, pois possuem uma tecnologia e um poder impensáveis para a humanidade, que apenas pode se beneficiar deles. Desnecessário dizer que, não obstante a Era Dourada em que a humanidade está vivendo, surge um grupo de descontentes com a interferência alienígena, alegando a perda da liberdade em troca de simulacros de prosperidade e felicidade e que na verdade, os humanos haviam se tornado escravos dos alienígenas. Instala-se então uma espécie de Talibã anti-alienígena, que lutará, em vão, para que a Terra saia do jugo dos Senhores Supremos.



É neste ponto que a história de Clarke deixa de ser ficção e passa a ser fiel ao “espírito humano”: O humano é incapaz de permanecer em paz por grandes períodos de tempo, assim como é incapaz de se manter estável , equilibrado e feliz. O humano parece preferir a “liberdade vazia” (aquela que segundo Max Stirmer não dá nada ao homem) do que manter-se ligado indefinidamente a algo que não lhe dê a sensação de estar no controle da situação. Refiro-me à sensação porque é exatamente disto que se trata : apenas uma sensação, uma ilusão de poder controlar seu destino, embora este esteja de fato à mercê de um sem número de variáveis que ele sequer conhece. Mesmo quando ligado a estruturas que o ajudam e protegem (como a família, a sociedade, o trabalho, o direito, etc) o humano se transforma sempre numa espécie de sabotador, porque em algum momento não se sentirá plenamente satisfeito. Para o bem da nossa civilização, na maioria dos casos, a reclamação contumaz e os pequenos desvios de conduta dão conta de manter esta insatisfação constante sob controle, evitando males maiores. Igualmente para o bem da nossa civilização, alguns (e apenas alguns) vão além e acabam por promover uma ruptura, um avanço, nem sempre positivo, mas que servirá de guia para os “reclamões”  virem logo atrás, muitas vezes contra a vontade – parece que é mais ou menos  assim que temos construído nossa evolução.



Voltando à história, Clarke acerta em imaginar uma ilha, chamada de Nova Atena, como uma experiência dentro da trama, que só é possível em grupos de no máximo 100.000 pessoas de cada vez, já apontando para o problema que constitui os grandes ajuntamentos humanos e o caos decorrente na vida das grandes metrópoles.   

O final do livro pode ser interessante para alguns, sobretudo aos adeptos da Nova Era, mas confesso que não o julgo como o ponto forte do livro. Enfim, é um livro de ficção ao bom estilo de Artur C. Clarke e foi muito bom tê-lo encontrado, mesmo numa época de minha vida em que o gênero já não me atrai tanto.






"O FIM DA INFÂNCIA" - ARTUR C. CLARKE - EDITORA ALEPH - 319 PÁGINAS
Destaque para esta edição da Aleph, que traz uma revisão feita por Clarke no final dos anos 80 (o livro foi escrito em 1953) do primeiro capítulo, reescrevendo-o. Contudo foi mantido o texto original, por decisão do próprio autor. 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

2666 – A ARTE DE ESCREVER UM ROMANCE INFINITO


"Um oásis de horror em meio a um deserto de tédio" - Charles Baudelaire




Em 2010 tive o prazer de ler excelentes livros, mas o que marcou mais profundamente pela experiência de leitura que me proporcionou, foi o mega romance 2666 de Roberto Bolaño. O livro chama a atenção pelo título obscuro e pelo volume – é daqueles livros que param de pé sozinhos. Contudo, quando se começa a lê-lo, sua grossura e peso desaparecem por encanto e o que resta é a mais saborosa viagem pela mente inesgotável deste autor, que infelizmente, nos deixou tão cedo. Embora seja um tour de force pela imaginação criativa de Bolaño, a sensação que tive é de que ele poderia continuar escrevendo este romance indefinidamente, anexando mais e mais histórias, sem jamais perder o encaixe entre elas ou desandar sua prosa redonda em “alta definição”.



As cinco histórias que se desenrolam, tocam-se de forma mais ou menos sutil (a 1ª, 4ª e 5ª mais do que a 2ª e a 3ª ), mas a riqueza de cada uma delas, deixa a necessidade de “costura” bastante reduzida. Cada uma delas é uma pequena obra prima e terminam sem terminar e mesmo assim, parece que nada deixou de ser dito, ainda que muito mais pudesse ser dito ( aquela sensação de que Bolaño poderia continuar, continuar e continuar...) . Este foi o primeiro livro que li de Bolaño, seu último escrito, e tive a sorte deste ser considerado pela crítica especializada como sua obra prima. Ligo muito pouco para a chamada “crítica especializada”, e diga-se de passagem, o próprio livro acaba por ser uma espécie de crítica aos críticos especializados mas, neste caso, nossas opiniões são absolutamente coincidentes, pois li os outros livros do autor, que são ótimos, mas nada se compara a 2666.




O título enigmático só pode ser desvendado a partir das notas da primeira edição em português (não conheço as demais) que remete ao seu romance anterior “O Amuleto”, que dá a pista de que o número 2666 refere-se a uma data, um ano para ser mais exato – na verdade Bolaño na pele da personagem Auxilio Lacouture, descreve um lugar da trama como se parecesse um cemitério de 2666 – “um cemitério escondido debaixo de uma pálpebra morta ou ainda não nascida, as aquosidades desapaixonadas de um olho, que, por querer esquecer algo, acabou esquecendo tudo”.



2666 é um livro cru, rico mas cru, sem enfeites, sem tergiversações desnecessárias – o que é um prodígio numa obra tão extensa. Bolaño começa por retratar o modus-vivendi de quatro intelectuais europeus obcecados na obra de um escritor de nome Beno Von Arcimboldi, que desapareceu pelo mundo sem deixar vestígios. A busca que estas personagens vazias empreendem pelo escritor é renhida, obsessiva, quase canibal e é descrita por Bolaño com a mesma naturalidade com que descreve  a mediocridade ressentida de um repórter negro norte-americano designado para cobrir uma anódina luta de boxe de quinta categoria, nos confins do deserto de Sonora, onde várias mulheres vêm sendo estupradas e mortas, há anos, sem que se tenha pista do(s) assassino(s). As histórias vão se desdobrando, entremeadas por estes assassinatos na violenta região fronteiriça entre México e Estados Unidos, onde os corpos vão aparecendo como se fossem dejetos abandonados após o uso, diante da impotência das autoridades locais .






A história que conta parte da vida de Amalfitano, um professor de filosofia de origem chilena, que mora com a filha e tem uma relação absurda com sua ex-mulher tem todos os temperos da tragédia de uma vida cujo único sentido identificável é o de derrota. Porém a conduta bizarra de Amalfitano que entre outras coisas, mantém o livro “Testamento Geométrico” de Rafael Dieste, encontrado por acaso em seus pertences e cuja origem ele desconhecia, pendurado no varal de roupas de seu quintal, torna a história absolutamente original e surpreendente.







Minha experiência com este livro, trouxe-me a sensação de caminhar por um extenso corredor com várias portas que, uma vez abertas, revelavam um universo inteiro naqueles compartimentos recém desvelados e que continham outras portas, que por vezes eram abertas (mas nem sempre) revelando conteúdos ainda mais ricos.
Penso que no pano de fundo da narrativa de Bolaño, revela-se uma crítica contundente sobre o vazio platônico do mundo acadêmico, com seus estudiosos e críticos, sua importância auto-consagrada e fisiologicamente alimentada em detrimento à realidade mesma de seu objeto de estudo, neste caso, o escritor desaparecido. Note-se que este vazio, só é vazio no sentido da real interpretação e compreensão do escritor estudado : um vazio daquelas experiências concretas, mas repleto de projeções dos próprios estudiosos que são incapazes de vive-las por si próprios - é realmente incrível como os humanos são muito mais pródigos em significar a vida e as experiências alheias do que as suas próprias. Beno Von Arcimboldi, que temos o prazer de conhecer no último capítulo do livro, é a antítese do que imaginam seus estudiosos. Sua vida foi tão sobressaltada e sua personalidade é tão idiossincrática, que sua literatura vem à luz como uma emergente de seu próprio ser, de sua própria vida. Muito diferente do que seus "perseguidores acadêmicos" tentavam identificar de sua obra, Arcimboldi, longe de ser um erudito, abandonou cedo os estudos e durante a maior parte do tempo, só possuía um único livro ao qual dedicava todo o seu interesse : um tratado sobre algas ! Arcimboldi, ou Hans Reine (seu nome verdadeiro) é ao longo de sua trajetória de vida, aquilo que podemos chamar de “sobrevivente”. Um pragmático que em certos momentos, lembrou-me a figura de Forrest Gump : determinado a fazer o que tinha que ser feito, sem muitos espaços para ilações filosóficas - uma vida rica de ações e minimalista de estudos. Interessante pensar que,de certa forma, os assassinatos das mulheres que pontuam toda a narrativa, são também uma espécie de "obra" , cujo(s) autor(es) também é (são) absolutamente desconhecido(s) por parte daqueles que o(s) procura(m) e que, no final das contas, os policiais encontram-se tão perdidos quanto os intelectuais que procuram Arcimboldi.
As descrições de 2666 são excelentes e nos remetem para os lugares, fazendo-nos sentir a poeira , o cheiro da gordura dos botecos, as roupas coladas ao corpo, o gelado das cervejas, o impacto da aparência dos cadáveres encontrados, o calor modorrento do deserto e o sentimento de impotência diante das buscas infrutíferas e dos mistérios não revelados.







O final do livro é interessante e não decepciona e como já disse, poderia continuar indefinidamente. Sendo o último romance de Roberto Bolaño, que já estava doente e faleceu pouco depois de entregar os últimos originais, foi planejado por ele para ser dividido em cinco partes a serem lançadas independentemente. Este plano foi elaborado, aparentemente, para que sua família pudesse obter uma renda melhor com os lançamentos em separado. Contudo, o editor, com a concordância da própria família, achou melhor lançá-lo em um único volume. A meu ver e de outros tantos que apreciaram muito este livro, a decisão foi acertadíssima.   



























2666 - ROBERTO BOLAÑO - EDITORA COMPANHIA DAS LETRAS - 852 PÁGINAS





segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A NASCENTE (FONTAINHEAD) – PORQUE ALGUNS PODEM E OUTROS NÃO.

“Há milhares de anos, o primeiro homem descobriu como fazer o fogo. Ele provavelmente foi queimado na fogueira que ensinara seus irmãos a acender.” – Ayn Rand






A Nascente é a história de Howard Roark, um arquiteto que desde a faculdade se rebela contra os modelos vigentes na arquitetura clássica e inicia uma trajetória única desafiando a tudo e a todos, não importando o custo a pagar por sua rebeldia. Embora seus projetos sejam valorizados e de certa forma invejados, sua intransigência com o estilo oficial o leva a grandes dificuldades, onde precisa abrir mão de fama e dinheiro, além de conseguir inimigos poderosos. Roark é um homem duro, sem sentimentalismos nem para consigo mesmo nem para com os outros e conduz sua vida amorosa da mesma maneira que conduz sua profissão : sem qualquer tipo de concessão. Ao longo de sua trajetória no romance, seu destino se cruzará com outro “egoísta duro de roer” – Gail Wynand – empresário, milionário e dono de um importante jornal. Wynand construiu seu império sob os mesmo princípios de Roark, e por isso o admira e o apóia.  Os discursos usados por estas duas personagens, resumem a essência do pensamento randiano , como por exemplo - Roark : 

“Nenhum criador foi motivado pelo desejo de servir aos seus irmãos, porque seus irmãos rejeitavam a dádiva que destruía a rotina preguiçosa de suas vidas. A verdade do criador era a sua única motivação. A sua própria verdade e seu próprio esforço para alcançá-la da sua própria maneira. Uma sinfonia, um motor, uma filosofia, um avião ou um prédio – a sua criação era seu objetivo de vida. Não aqueles que ouviam, liam, operavam, acreditavam, pilotavam, ou moravam em sua criação. A criação, não seus usuários. A criação e não o benefício que ela trazia para os outros. A criação que dava forma à sua verdade. Ele colocava sua verdade acima de tudo e a defendia contra todos.”  

E assim vai, ao longo de mais de 800 páginas, numa verdadeira guerra que “o mundo todo” faz contra esses dois, fazendo-os destruir suas próprias obras para não terem que ceder ao “espírito comunitário”.  O discurso de Gail Wynand também impressiona : 

“Se fosse verdade aquela velha lenda sobre aparecer diante de um juiz supremo e relatar seus próprios atos do passado, eu ofereceria, com todo o meu orgulho, não nenhum ato que cometi, mas uma coisa que eu nunca fiz neste mundo : nunca busquei a aprovação alheia. Eu me levantaria e diria : Eu sou Gail Wynand, o homem que cometeu todos os crimes, exceto o principal – o de atribuir futilidade ao maravilhoso fato da existência e buscar justificativa externa. Este é o meu orgulho – que agora, pensando no fim, eu não choro como os homens de minha idade. Mas quais foram a utilidade e o significado ? Eu fui a utilidade e o significado, eu, Gail Wynand. O fato de eu ter existido e agido.”






Há quem diga que Ayn Rand é um boa escritora. Há também aqueles que a definem como filósofa e finalmente os que acham que ela não é nem bem uma coisa e muito menos a outra. De qualquer modo, ainda conta com leitores fiéis e vários institutos que, ou levam seu nome ou utilizam seus ensinamentos como se fossem alicerces que lastreiam qualquer proposta libertária de valorização do indivíduo em detrimento à massa, ao coletivo. Em tempos em que o movimento mundial aponta para o contrário disso, Ayn Rand ainda provoca muitas reflexões naqueles que valorizam o individualismo e o liberalismo. Contudo, existem furos evidentes na lógica de Rand, inclusive corroborados pela sua própria conduta, à frente de seu instituto : ela criou um conceito moral para sua “filosofia” sob o qual todos os seus colaboradores deveriam se submeter... exceto ela ! Ela própria rompeu com sua racionalidade por causa de ciúmes num caso passional com um de seus mais próximos assessores (Nathaniel Branden). Sua lógica ruiu diante daquilo que ela mesma não conseguia controlar e para se justificar, alçou-se à condição de líder suprema e de ser o “maior intelecto do planeta”, para a qual o tal conceito moral, criado por ela mesma, era apenas relativo. Resultado : errou duas vezes e a partir disso, sua credibilidade foi bastante abalada, porém subsistiu até os dias de hoje, como mostram as reedições mais recentes de suas principais obras. De fato, Rand representa a cara dos Estados Unidos nos anos iniciais da guerra fria : Nascida em São Petersburgo como  Alissa Zinovevna Rosenbaum imigrou para os Estados Unidos e representou a dissidência completa do sistema comunista soviético criando as bases de seu “Objetivismo” (termo que ela mesma não gostava), num momento em que os Estados Unidos firmava diante do mundo sua posição absolutamente capitalista e individualista.





Penso que, já de princípio, Rand, embora no sentido inverso, comete o mesmo erro básico que Karl Marx: Propõe um racionalismo absoluto por parte dos humanos, como se isso fosse realmente possível. Enquanto Marx tenta fazer ciência, absolutamente racional, em que o determinismo histórico da sociedade humana caminha inexoravelmente para o comunismo, sendo este o sucessor inequívoco, lógico e natural do esgotamento do capitalismo, Rand usa do mesmo ardil racionalista para defender o oposto : que a história é feita por indivíduos e não pelas massas e que é o gênio individual que move as maiores conquistas da humanidade.
O Objetivismo de Rand tem idéias fortes, cativantes e provocativas, porém a comparação licenciosa que fiz com Marx é apenas no que diz respeito à crença da possibilidade de um ser humano ser absolutamente racional e construir uma sociedade racional a partir de um modelo “correto”, erro aliás muito comum de pensadores de diversos calibres. De resto, ambos se afastam anos luz em talento e obra : Marx produziu uma obra densa, bem estruturada e que é objeto de estudos profundos ainda nos dias de hoje e continuará sendo por muito tempo, independente da qualidade intrínseca que ela comporta. Já quanto a Rand, podemos coletar sua filosofia em um punhado de frases e discursos fortes que foram divulgados basicamente em dois grandes romances : Fontainhead (A Nascente, que ganhou um filme no final dos anos 40) e Atlas Shrugged (Quem é John Galt? ou A Revolta de Atlas) , sendo o restante de sua obra conhecida mais pelos seus asseclas do que pelo grande público. A essência de sua “filosofia” pode ser descrita como :
  •         Metafísica : Realidade Objetiva
  •     Epistemologia :  Razão 
  •     Ética : Autointeresse
  •     Política : Capitalismo 






Na minha opinião, a história real mostra que tanto Rand quanto Marx estão errados pelas mesmas razões – esqueceram de considerar justamente aquilo que torna o humano o que é : suas emoções, motivações inconscientes, necessidade de poder, enfim a imponderabilidade da "alma" humana que acaba por colocar por terra qualquer modelo “correto”, destino histórico e até mesmo o conceito de evolução num sentido sempre positivo. Diga-se de passagem, penso que é um erro grosseiro dar muito peso a qualquer teoria social, antes de se conhecer mais profundamente  o funcionamento da mente humana, o que está de fato acontecendo mais proficuamente apenas nas ultimas duas ou três décadas.






Penso que ainda temos muito o que evoluir em termos de uma boa “Teoria da Mente”, antes de tentarmos acreditar demais nas teorias que esta mente produz e cujo empirismo é questionável. As neurociências estão aí para ajudar, e muito, nesta compreensão, desmistificando o funcionamento do cérebro, encontrando os “fantasmas escondidos por trás da máquina” e  resgatando o papel funcional das “emoções” como recursos da inteligência humana, indispensáveis para sua boa performance.





Praticamente até quase o final do século vinte, as ciências médicas e neurológicas deixaram de lado as emoções humanas, como se, por sua imponderabilidade, não pudessem ser objeto de pesquisa séria, com metodologia científica e resultados mensuráveis e reproduzíveis. O psiquismo e as emoções eram encarados como temáticas para serem abordadas pela psicanálise, filosofia, religião ou qualquer outra via, mas estavam integradas ao conhecimento fisiológico do corpo humano e ao conhecimento neurológico, apenas através das patologias : o diferente era esmiuçado e a partir da diferença, tentava-se estabelecer a topologia estrutural correspondente no cérebro. A Psicologia Experimental fez um excelente trabalho com o único material observável disponível : o comportamento manifesto, o que obviamente não podia dizer nada de concreto sobre as emoções ligadas a estes comportamentos. Atualmente conseguimos ver o cérebro e suas estruturas em pleno funcionamento, a ponto de praticamente se poder dizer o que um indivíduo está sentindo através de exames sofisticados como a ressonância magnética funcional, para citar apenas um exemplo. Pesquisas mais recentes dão conta de um “inconsciente cognitivo”, que coloca aquilo que chamamos de “razão” como apenas uma testemunha de algo que já se processou em nossa mente, sem que acompanhássemos tal processo e desconhecendo a miríade de motivações que nos guiam. Nas próximas duas décadas, provavelmente descobriremos mais sobre nós mesmos do que toda a história da humanidade até aqui. Para quem quiser saber mais sobre isso, recomendo :
































Como já deixei claro, penso que as idéias de Rand são frágeis para serem encaradas como uma filosofia ou que vaticinem a Verdade sobre o ser humano. Contudo, liberal que sou, não descarto a análise de suas idéias como uma reflexão que pode nos fazer dar mais valor ao autodomínio e a nos responsabilizar pela construção de nossos próprios caminhos, prescindindo, na medida do possível, não dos outros ou da civilização, mas do Estado-Pai . O perigo, a meu ver, na abordagem de Rand é que pode ser usada, na pior das hipóteses, como uma ótima justificativa para a canalhice.





"A NASCENTE"  - FONTAINHEAD - AYN RAND - Editora Landscape - 814 págs