segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

KADISH POR UMA CRIANÇA NÃO NASCIDA

O Kadish é um hino de louvor a Deus. Por ser tradicionalmente recitado nos enterros e nos serviços comemorativos dos finados, ele é popularmente considerado como uma oração pelos mortos. Entretanto, o Kadish não faz nenhuma referência à morte ou ao luto. É puramente uma exaltação a Deus e uma súplica por um mundo de paz.(Retirado do site culturahebraica.blogspot,com – escrito e postado por Leonardo Ferreira em 02.10.2008.)



Muito já se escreveu sobre o Holocausto e provavelmente muito ainda será escrito. Trata-se de um tema inesgotável, a meu ver, fundamentalmente por três motivos : 1) Uma iniciativa de manutenção viva da memória deste horror que se abateu sobre o povo judeu, para lembrar a humanidade e evitar que aconteça novamente, embora já tenha acontecido várias vezes depois com outros povos ; 2) O mal é atrativo para o humano, talvez mais do que o bem. O relato do mal vende muitos livros e filmes, porque o humano precisa ver o mal longe dele, como um relato, uma exceção, algo distante e circunscrito no tempo e no espaço e 3) A tentativa de catarse daqueles que viveram de uma forma ou de outra este flagelo.

O livro "Kadish por uma criança não nascida", escrito pelo húngaro Imre Kertész, deportado para Auschwitz aos 15 anos, desafia estes motivos e nos traz um relato radical e surpreendente, absolutamente pessoal e de uma contundência que nos faz trazer esse mal para bem próximo de nós, ainda que totalmente deslocados no espaço e no tempo. Não obstante suas parcas 131 páginas, o Kadish de Kertész me tocou mais do que a farta literatura através da qual já tive contato com o tema - um livro indispensável para a vida possível após o holocausto.


Penso que o Holocausto não pode ser contabilizado com os 6 milhões de judeus mortos. Existem aqueles que permaneceram vivos, e que talvez tenham tido um destino mais cruel do que aqueles que sucumbiram : Tiveram que encarar a morte de todas as ilusões sobre sua própria espécie. Há poucas histórias não genéricas sobre estes sobreviventes e suas vidas após a morte de suas esperanças e ilusões. Não os relatos dos horrores que viveram, pois destes há dezenas de milhares, não dos atos de coragem e superação que descobriram em si mesmo diante da tragédia, mas de suas vidas depois dos campos de concentração e extermínio :  a tentativa de voltarem para uma casa que já não mais existia, para uma família que havia sido toda dizimada,  enfim,  para uma vida que havia sido vaporizada e da qual quase ninguém mais do lado de fora se lembrava.


Muitos sucumbiram depois, anos após a libertação, se é que pode haver uma libertação, porque uma experiência como esta mata-nos no fundo da alma, muito antes de nossos corpos voltarem a ser apenas matéria orgânica. Outros conseguiram significar o que restou de suas vidas e ajudar outras pessoas , como Viktor Frankl, que criou a Logoterapia, cuja matéria prima foi colhida dos campos de concentração e difundida até hoje como um apoio importantíssimo de busca de significado para aqueles que não o encontram. Outros ainda, como Primo Levi ou Bruno Bettelhein não conseguiram através de seus diversos trabalhos publicados e fama conquistada internacionalmente, fazer a catarse do mal que havia se apossado de seus seres : suicidaram-se. Primo Levi em 1987 e Bruno Bettelhein em 1990.

Como se sentiram aqueles que, já do lado de fora, à luz da história que ia sendo desvelada diante do mundo, entenderam que aquilo que viveram aconteceu não apenas pelas ações dos nazistas, mas pelo silêncio medroso e conivente das nações que “não sabiam” da extensão de sua tragédia? O que pensam da humanidade, aqueles que ainda viveram o suficiente para conhecer a realidade dos Gulags Soviéticos, o genocídio na Ucrânia que matou entre 3 a 10 milhões de pessoas, o Camboja onde um quarto da população foi exterminada, Kosovo, Darfour, Timor Leste, Ruanda – holocaustos que se seguiram ao HOLOCAUSTO, ainda com a conivência silenciosa e inação das (i) nações ?



Kadish é um livro pequeno, mas cuja mensagem pesa várias toneladas. Trata-se de um monólogo ininterrupto em que o autor se expõe, na pele de um escritor idoso, chamado apenas de B.,  que foi provocado por uma simples pergunta feita por um amigo num passeio conjunto, muitos anos depois de Auschwitz , sobre se tinha filhos. O “NÃO” que se segue como resposta, não é apenas a negativa simples, binária de um fato, mas uma negação da possibilidade de vida após o Holocausto. Este “não” dado tão enfática e visceralmente por B., o conduz a uma profunda reflexão de sua vida, na busca de entender as origens daquela negativa tão absoluta, o que nos leva ao monólogo copioso, que poderia ser lido ou recitado como uma prece – um Kadish.


Em seu Kadish, B. repassa vários momentos de reflexão sobre seu martírio em Auschwitz e Buchenwald, nos quais o “NÃO” visceral vai se construindo para tudo aquilo que poderia representar uma repetição futura do horror explícito, da maldade impregnada nos corpos cujas peles eram esculpidas de dentro para fora pelos ossos pontiagudos, da reprodução da vida após os campos de concentração, da impossibilidade de proteger as crianças deste mal - primeiro como vítimas e depois, mais tarde quem sabe, como algozes.  Mas diferentemente de tudo aquilo que eu já havia lido a partir dos relatos de sobreviventes do Holocausto, há uma passagem no livro que marcou-me ainda mais profundamente pelo quanto ela extrapola o sofrimento específico deste que é tido como um dos maiores flagelos da humanidade. 


Neste ponto o autor relata um episódio em que estava doente, sendo transportado num dos famosos “trens da morte”, numa viagem cuja duração era completamente ignorada. A ração fria era distribuída em doses milimétricas, uma única vez por dia e ele deitado no chão do vagão estava incapacitado de buscar com os demais , de tigela em punho, a rala beberagem disputada sofregamente por mãos cadavéricas. Foi quando um homem se aproximou, chamando-o sempre de “senhor professor” e ofereceu-se para  buscar seu quinhão ao que ele, enfraquecido que estava, cedeu sem resistência. Enquanto o homem desaparecia naquela turba de semi-cadáveres que lotava o vagão, B. pensava na sua sentença de morte, pois havia cedido a única coisa que poderia lhe garantir a ração, sua tigela vazia, que certa e logicamente seria utilizada pelo homem para ter para si mesmo uma dupla ração, aumentando algumas horas sua própria sobrevivência. Qual não foi sua surpresa, quando o homem se acotovelando entre a turba, retorna com a tigela de ração fria e a deposita sobre seu abdome. Neste momento, B. não consegue disfarçar sua surpresa no rosto, que é captada imediatamente pelo homem, que, de certa forma indignado, lhe diz: “O que tu pensaste ?” . Neste relato, B. pede uma explicação ao leitor sobre este fato, sobre este algo que se esconde de nossos animais selvagens internos e que, por vezes, nos faz ilógicos, insensatos, capazes de comprometer a própria vida em função da vida de outro. Enquanto a história se lamenta com frases do tipo “ Auschwitz não tem explicação”, e se detém na análise da personalidade do Führer e seus seguidores como se fossem um acidente de percurso da humanidade, o autor nos diz: Não ! Esta é a humanidade, a comum, aquela que é normal ! O que precisa ser entendido, é aquilo que fez o homem retornar com a tigela, é a vida dos santos, daqueles que rompem a lógica do humano. A questão de fundo para Imre Kertész, não é “Como pôde acontecer Auschwitz ?” , mas ao contrário : Como poderia não acontecer Auschwitz ? 



Imre Kertész foi jornalista, e desde 1953 escritor e tradutor de expoentes como Hofmannsthal, Freud, Elias Canetti, Nietzsche, Wittgenstein, entre outros. Ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 2002.



" KADISH POR UMA CRIANÇA NÃO NASCIDA"  -  IMRE KERTÉSZ - IMAGO EDITORA - 2002 - 131 PÁGINAS.

  

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O FIM DA INFÂNCIA - A SUPREMACIA DO POSSÍVEL

“O Ministério da Saúde adverte : Liberdade em excesso pode fazer mal à felicidade”



Sempre apreciei muito o gênero de ficção científica e sobretudo em minha adolescência, dediquei grande parte de minhas leituras a Isaac  Asimov e Artur C. Clarke, os grande pais do gênero e criadores de obras maravilhosas como 2001 – Uma Odisseia no Espaço – de Clarke e Eu, Robô – de Asimov, que embalaram a minha geração e foram magistralmente adaptadas para o cinema. Um pouco mais tarde entra em cena Philip K. Dick com seu excepcional Blade Runner, também adaptado para o cinema,  marcando a transição da ficção científica para o cyberpunk, que associa todas as conquistas da informática e da eletrônica às inquietações  de uma nova geração que tem os mesmos dramas históricos e filosóficos das anteriores. William Gibson, Bruce Sterling e John Shirley são os pais desta nova ficção - Neuromancer, Monalisa Overdrive, Count Zero, etc. Gosto de todos eles mas, em minha opinião, Artur C. Clarke está no topo da pirâmide. Foi por esta razão que me surpreendi quando recentemente tive em minhas mãos  o romance “O Fim da Infância” de sua autoria, pois não o conhecia nem de passagem.



O Fim da Infância foi escrito o início da década de 50 e, exceção feita à tecnologia que evoluiu bastante nesses mais de sessenta anos, permanece bastante atual do ponto de vista do drama humano : a luta pela felicidade suprema em oposição à luta pela liberdade suprema.
Isto me faz pensar sobre a predileção que os humanos têm pelo “supremo”, pelo superlativo absoluto, pois nada parece ser o bastante se não atingir a supremacia, ou pelo menos se encaminhar consistentemente para ela. O grande problema, ou o “problema supremo”, como tanto agrada aos humanos, é que "supremo" é apenas uma meta e é inimiga mortal do equilíbrio e portanto, quanto mais próximo do supremo em algo, mais distante do supremo em outro algo que se lhe opõe . Isto não parece um problema, se os “algos” aos quais me refiro não forem igualmente importantes ou se não forem opositores entre si, o que parece ser justamente  caso da felicidade X liberdade. É claro que as definições de felicidade e liberdade são muito amplas, mas parece haver uma relação intrincada entre estes atributos que se colocam como os maiores anseios da humanidade em todos os tempos. O modelo contemporâneo de felicidade é muito semelhante ao retratado no livro de Clarke : acesso a bens materiais, lazer e prazer imediato.  Exceto se você for um asceta ou um monge budista, na maioria das vezes o aumento do nível de um ocorre em detrimento ao nível do outro : a cada objeto que possuímos, a cada relacionamento conquistado, a cada degrau de status alcançado, um pouco de nossa liberdade se esvai.



No romance de Clarke, a humanidade, às portas do século XXI,  está à beira do caos : miséria, violência, corrupção desmedida estão levando a civilização à autodestruição, quando se descobre que não estamos sozinhos e que existe vida inteligente em outros recônditos do Universo. Neste contexto, a Terra recebe a visita de naves espaciais oriundas de uma civilização extremamente mais avançada, que pairam sobre as principais cidades do planeta, sem contudo fazer contato de imediato. Quando resolvem se comunicar, os extraterrestres revelam seu objetivo de ajudar a civilização humana a resolver todos os  problemas que a estão levando à destruição. Contudo, os visitantes não se mostram fisicamente para os humanos, mantendo contato e emanando decisões através de um único humano escolhido para ser o Secretário e que mantém reuniões periódicas com o Supervisor da Raça Humana em uma das espaçonaves, que jamais aterrissam. O Secretário também não  pode ver o Supervisor, apenas fala com ele numa sala especial, onde recebe instruções e dá informações, que oculta a aparência do alienígena, mas permite uma conversa direta entre ambos, sem a mediação de aparelhos.



O que se segue a esta intervenção são décadas de paz absoluta e prosperidade na Terra, onde as guerras são eliminadas, a miséria e a violência são substituídas por abundância e possibilidades ilimitadas de lazer. Durante este período idílico, os alienígenas são chamados pelos humanos de “Senhores Supremos”, pois possuem uma tecnologia e um poder impensáveis para a humanidade, que apenas pode se beneficiar deles. Desnecessário dizer que, não obstante a Era Dourada em que a humanidade está vivendo, surge um grupo de descontentes com a interferência alienígena, alegando a perda da liberdade em troca de simulacros de prosperidade e felicidade e que na verdade, os humanos haviam se tornado escravos dos alienígenas. Instala-se então uma espécie de Talibã anti-alienígena, que lutará, em vão, para que a Terra saia do jugo dos Senhores Supremos.



É neste ponto que a história de Clarke deixa de ser ficção e passa a ser fiel ao “espírito humano”: O humano é incapaz de permanecer em paz por grandes períodos de tempo, assim como é incapaz de se manter estável , equilibrado e feliz. O humano parece preferir a “liberdade vazia” (aquela que segundo Max Stirmer não dá nada ao homem) do que manter-se ligado indefinidamente a algo que não lhe dê a sensação de estar no controle da situação. Refiro-me à sensação porque é exatamente disto que se trata : apenas uma sensação, uma ilusão de poder controlar seu destino, embora este esteja de fato à mercê de um sem número de variáveis que ele sequer conhece. Mesmo quando ligado a estruturas que o ajudam e protegem (como a família, a sociedade, o trabalho, o direito, etc) o humano se transforma sempre numa espécie de sabotador, porque em algum momento não se sentirá plenamente satisfeito. Para o bem da nossa civilização, na maioria dos casos, a reclamação contumaz e os pequenos desvios de conduta dão conta de manter esta insatisfação constante sob controle, evitando males maiores. Igualmente para o bem da nossa civilização, alguns (e apenas alguns) vão além e acabam por promover uma ruptura, um avanço, nem sempre positivo, mas que servirá de guia para os “reclamões”  virem logo atrás, muitas vezes contra a vontade – parece que é mais ou menos  assim que temos construído nossa evolução.



Voltando à história, Clarke acerta em imaginar uma ilha, chamada de Nova Atena, como uma experiência dentro da trama, que só é possível em grupos de no máximo 100.000 pessoas de cada vez, já apontando para o problema que constitui os grandes ajuntamentos humanos e o caos decorrente na vida das grandes metrópoles.   

O final do livro pode ser interessante para alguns, sobretudo aos adeptos da Nova Era, mas confesso que não o julgo como o ponto forte do livro. Enfim, é um livro de ficção ao bom estilo de Artur C. Clarke e foi muito bom tê-lo encontrado, mesmo numa época de minha vida em que o gênero já não me atrai tanto.






"O FIM DA INFÂNCIA" - ARTUR C. CLARKE - EDITORA ALEPH - 319 PÁGINAS
Destaque para esta edição da Aleph, que traz uma revisão feita por Clarke no final dos anos 80 (o livro foi escrito em 1953) do primeiro capítulo, reescrevendo-o. Contudo foi mantido o texto original, por decisão do próprio autor. 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

2666 – A ARTE DE ESCREVER UM ROMANCE INFINITO


"Um oásis de horror em meio a um deserto de tédio" - Charles Baudelaire




Em 2010 tive o prazer de ler excelentes livros, mas o que marcou mais profundamente pela experiência de leitura que me proporcionou, foi o mega romance 2666 de Roberto Bolaño. O livro chama a atenção pelo título obscuro e pelo volume – é daqueles livros que param de pé sozinhos. Contudo, quando se começa a lê-lo, sua grossura e peso desaparecem por encanto e o que resta é a mais saborosa viagem pela mente inesgotável deste autor, que infelizmente, nos deixou tão cedo. Embora seja um tour de force pela imaginação criativa de Bolaño, a sensação que tive é de que ele poderia continuar escrevendo este romance indefinidamente, anexando mais e mais histórias, sem jamais perder o encaixe entre elas ou desandar sua prosa redonda em “alta definição”.



As cinco histórias que se desenrolam, tocam-se de forma mais ou menos sutil (a 1ª, 4ª e 5ª mais do que a 2ª e a 3ª ), mas a riqueza de cada uma delas, deixa a necessidade de “costura” bastante reduzida. Cada uma delas é uma pequena obra prima e terminam sem terminar e mesmo assim, parece que nada deixou de ser dito, ainda que muito mais pudesse ser dito ( aquela sensação de que Bolaño poderia continuar, continuar e continuar...) . Este foi o primeiro livro que li de Bolaño, seu último escrito, e tive a sorte deste ser considerado pela crítica especializada como sua obra prima. Ligo muito pouco para a chamada “crítica especializada”, e diga-se de passagem, o próprio livro acaba por ser uma espécie de crítica aos críticos especializados mas, neste caso, nossas opiniões são absolutamente coincidentes, pois li os outros livros do autor, que são ótimos, mas nada se compara a 2666.




O título enigmático só pode ser desvendado a partir das notas da primeira edição em português (não conheço as demais) que remete ao seu romance anterior “O Amuleto”, que dá a pista de que o número 2666 refere-se a uma data, um ano para ser mais exato – na verdade Bolaño na pele da personagem Auxilio Lacouture, descreve um lugar da trama como se parecesse um cemitério de 2666 – “um cemitério escondido debaixo de uma pálpebra morta ou ainda não nascida, as aquosidades desapaixonadas de um olho, que, por querer esquecer algo, acabou esquecendo tudo”.



2666 é um livro cru, rico mas cru, sem enfeites, sem tergiversações desnecessárias – o que é um prodígio numa obra tão extensa. Bolaño começa por retratar o modus-vivendi de quatro intelectuais europeus obcecados na obra de um escritor de nome Beno Von Arcimboldi, que desapareceu pelo mundo sem deixar vestígios. A busca que estas personagens vazias empreendem pelo escritor é renhida, obsessiva, quase canibal e é descrita por Bolaño com a mesma naturalidade com que descreve  a mediocridade ressentida de um repórter negro norte-americano designado para cobrir uma anódina luta de boxe de quinta categoria, nos confins do deserto de Sonora, onde várias mulheres vêm sendo estupradas e mortas, há anos, sem que se tenha pista do(s) assassino(s). As histórias vão se desdobrando, entremeadas por estes assassinatos na violenta região fronteiriça entre México e Estados Unidos, onde os corpos vão aparecendo como se fossem dejetos abandonados após o uso, diante da impotência das autoridades locais .






A história que conta parte da vida de Amalfitano, um professor de filosofia de origem chilena, que mora com a filha e tem uma relação absurda com sua ex-mulher tem todos os temperos da tragédia de uma vida cujo único sentido identificável é o de derrota. Porém a conduta bizarra de Amalfitano que entre outras coisas, mantém o livro “Testamento Geométrico” de Rafael Dieste, encontrado por acaso em seus pertences e cuja origem ele desconhecia, pendurado no varal de roupas de seu quintal, torna a história absolutamente original e surpreendente.







Minha experiência com este livro, trouxe-me a sensação de caminhar por um extenso corredor com várias portas que, uma vez abertas, revelavam um universo inteiro naqueles compartimentos recém desvelados e que continham outras portas, que por vezes eram abertas (mas nem sempre) revelando conteúdos ainda mais ricos.
Penso que no pano de fundo da narrativa de Bolaño, revela-se uma crítica contundente sobre o vazio platônico do mundo acadêmico, com seus estudiosos e críticos, sua importância auto-consagrada e fisiologicamente alimentada em detrimento à realidade mesma de seu objeto de estudo, neste caso, o escritor desaparecido. Note-se que este vazio, só é vazio no sentido da real interpretação e compreensão do escritor estudado : um vazio daquelas experiências concretas, mas repleto de projeções dos próprios estudiosos que são incapazes de vive-las por si próprios - é realmente incrível como os humanos são muito mais pródigos em significar a vida e as experiências alheias do que as suas próprias. Beno Von Arcimboldi, que temos o prazer de conhecer no último capítulo do livro, é a antítese do que imaginam seus estudiosos. Sua vida foi tão sobressaltada e sua personalidade é tão idiossincrática, que sua literatura vem à luz como uma emergente de seu próprio ser, de sua própria vida. Muito diferente do que seus "perseguidores acadêmicos" tentavam identificar de sua obra, Arcimboldi, longe de ser um erudito, abandonou cedo os estudos e durante a maior parte do tempo, só possuía um único livro ao qual dedicava todo o seu interesse : um tratado sobre algas ! Arcimboldi, ou Hans Reine (seu nome verdadeiro) é ao longo de sua trajetória de vida, aquilo que podemos chamar de “sobrevivente”. Um pragmático que em certos momentos, lembrou-me a figura de Forrest Gump : determinado a fazer o que tinha que ser feito, sem muitos espaços para ilações filosóficas - uma vida rica de ações e minimalista de estudos. Interessante pensar que,de certa forma, os assassinatos das mulheres que pontuam toda a narrativa, são também uma espécie de "obra" , cujo(s) autor(es) também é (são) absolutamente desconhecido(s) por parte daqueles que o(s) procura(m) e que, no final das contas, os policiais encontram-se tão perdidos quanto os intelectuais que procuram Arcimboldi.
As descrições de 2666 são excelentes e nos remetem para os lugares, fazendo-nos sentir a poeira , o cheiro da gordura dos botecos, as roupas coladas ao corpo, o gelado das cervejas, o impacto da aparência dos cadáveres encontrados, o calor modorrento do deserto e o sentimento de impotência diante das buscas infrutíferas e dos mistérios não revelados.







O final do livro é interessante e não decepciona e como já disse, poderia continuar indefinidamente. Sendo o último romance de Roberto Bolaño, que já estava doente e faleceu pouco depois de entregar os últimos originais, foi planejado por ele para ser dividido em cinco partes a serem lançadas independentemente. Este plano foi elaborado, aparentemente, para que sua família pudesse obter uma renda melhor com os lançamentos em separado. Contudo, o editor, com a concordância da própria família, achou melhor lançá-lo em um único volume. A meu ver e de outros tantos que apreciaram muito este livro, a decisão foi acertadíssima.   



























2666 - ROBERTO BOLAÑO - EDITORA COMPANHIA DAS LETRAS - 852 PÁGINAS





segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A NASCENTE (FONTAINHEAD) – PORQUE ALGUNS PODEM E OUTROS NÃO.

“Há milhares de anos, o primeiro homem descobriu como fazer o fogo. Ele provavelmente foi queimado na fogueira que ensinara seus irmãos a acender.” – Ayn Rand






A Nascente é a história de Howard Roark, um arquiteto que desde a faculdade se rebela contra os modelos vigentes na arquitetura clássica e inicia uma trajetória única desafiando a tudo e a todos, não importando o custo a pagar por sua rebeldia. Embora seus projetos sejam valorizados e de certa forma invejados, sua intransigência com o estilo oficial o leva a grandes dificuldades, onde precisa abrir mão de fama e dinheiro, além de conseguir inimigos poderosos. Roark é um homem duro, sem sentimentalismos nem para consigo mesmo nem para com os outros e conduz sua vida amorosa da mesma maneira que conduz sua profissão : sem qualquer tipo de concessão. Ao longo de sua trajetória no romance, seu destino se cruzará com outro “egoísta duro de roer” – Gail Wynand – empresário, milionário e dono de um importante jornal. Wynand construiu seu império sob os mesmo princípios de Roark, e por isso o admira e o apóia.  Os discursos usados por estas duas personagens, resumem a essência do pensamento randiano , como por exemplo - Roark : 

“Nenhum criador foi motivado pelo desejo de servir aos seus irmãos, porque seus irmãos rejeitavam a dádiva que destruía a rotina preguiçosa de suas vidas. A verdade do criador era a sua única motivação. A sua própria verdade e seu próprio esforço para alcançá-la da sua própria maneira. Uma sinfonia, um motor, uma filosofia, um avião ou um prédio – a sua criação era seu objetivo de vida. Não aqueles que ouviam, liam, operavam, acreditavam, pilotavam, ou moravam em sua criação. A criação, não seus usuários. A criação e não o benefício que ela trazia para os outros. A criação que dava forma à sua verdade. Ele colocava sua verdade acima de tudo e a defendia contra todos.”  

E assim vai, ao longo de mais de 800 páginas, numa verdadeira guerra que “o mundo todo” faz contra esses dois, fazendo-os destruir suas próprias obras para não terem que ceder ao “espírito comunitário”.  O discurso de Gail Wynand também impressiona : 

“Se fosse verdade aquela velha lenda sobre aparecer diante de um juiz supremo e relatar seus próprios atos do passado, eu ofereceria, com todo o meu orgulho, não nenhum ato que cometi, mas uma coisa que eu nunca fiz neste mundo : nunca busquei a aprovação alheia. Eu me levantaria e diria : Eu sou Gail Wynand, o homem que cometeu todos os crimes, exceto o principal – o de atribuir futilidade ao maravilhoso fato da existência e buscar justificativa externa. Este é o meu orgulho – que agora, pensando no fim, eu não choro como os homens de minha idade. Mas quais foram a utilidade e o significado ? Eu fui a utilidade e o significado, eu, Gail Wynand. O fato de eu ter existido e agido.”






Há quem diga que Ayn Rand é um boa escritora. Há também aqueles que a definem como filósofa e finalmente os que acham que ela não é nem bem uma coisa e muito menos a outra. De qualquer modo, ainda conta com leitores fiéis e vários institutos que, ou levam seu nome ou utilizam seus ensinamentos como se fossem alicerces que lastreiam qualquer proposta libertária de valorização do indivíduo em detrimento à massa, ao coletivo. Em tempos em que o movimento mundial aponta para o contrário disso, Ayn Rand ainda provoca muitas reflexões naqueles que valorizam o individualismo e o liberalismo. Contudo, existem furos evidentes na lógica de Rand, inclusive corroborados pela sua própria conduta, à frente de seu instituto : ela criou um conceito moral para sua “filosofia” sob o qual todos os seus colaboradores deveriam se submeter... exceto ela ! Ela própria rompeu com sua racionalidade por causa de ciúmes num caso passional com um de seus mais próximos assessores (Nathaniel Branden). Sua lógica ruiu diante daquilo que ela mesma não conseguia controlar e para se justificar, alçou-se à condição de líder suprema e de ser o “maior intelecto do planeta”, para a qual o tal conceito moral, criado por ela mesma, era apenas relativo. Resultado : errou duas vezes e a partir disso, sua credibilidade foi bastante abalada, porém subsistiu até os dias de hoje, como mostram as reedições mais recentes de suas principais obras. De fato, Rand representa a cara dos Estados Unidos nos anos iniciais da guerra fria : Nascida em São Petersburgo como  Alissa Zinovevna Rosenbaum imigrou para os Estados Unidos e representou a dissidência completa do sistema comunista soviético criando as bases de seu “Objetivismo” (termo que ela mesma não gostava), num momento em que os Estados Unidos firmava diante do mundo sua posição absolutamente capitalista e individualista.





Penso que, já de princípio, Rand, embora no sentido inverso, comete o mesmo erro básico que Karl Marx: Propõe um racionalismo absoluto por parte dos humanos, como se isso fosse realmente possível. Enquanto Marx tenta fazer ciência, absolutamente racional, em que o determinismo histórico da sociedade humana caminha inexoravelmente para o comunismo, sendo este o sucessor inequívoco, lógico e natural do esgotamento do capitalismo, Rand usa do mesmo ardil racionalista para defender o oposto : que a história é feita por indivíduos e não pelas massas e que é o gênio individual que move as maiores conquistas da humanidade.
O Objetivismo de Rand tem idéias fortes, cativantes e provocativas, porém a comparação licenciosa que fiz com Marx é apenas no que diz respeito à crença da possibilidade de um ser humano ser absolutamente racional e construir uma sociedade racional a partir de um modelo “correto”, erro aliás muito comum de pensadores de diversos calibres. De resto, ambos se afastam anos luz em talento e obra : Marx produziu uma obra densa, bem estruturada e que é objeto de estudos profundos ainda nos dias de hoje e continuará sendo por muito tempo, independente da qualidade intrínseca que ela comporta. Já quanto a Rand, podemos coletar sua filosofia em um punhado de frases e discursos fortes que foram divulgados basicamente em dois grandes romances : Fontainhead (A Nascente, que ganhou um filme no final dos anos 40) e Atlas Shrugged (Quem é John Galt? ou A Revolta de Atlas) , sendo o restante de sua obra conhecida mais pelos seus asseclas do que pelo grande público. A essência de sua “filosofia” pode ser descrita como :
  •         Metafísica : Realidade Objetiva
  •     Epistemologia :  Razão 
  •     Ética : Autointeresse
  •     Política : Capitalismo 






Na minha opinião, a história real mostra que tanto Rand quanto Marx estão errados pelas mesmas razões – esqueceram de considerar justamente aquilo que torna o humano o que é : suas emoções, motivações inconscientes, necessidade de poder, enfim a imponderabilidade da "alma" humana que acaba por colocar por terra qualquer modelo “correto”, destino histórico e até mesmo o conceito de evolução num sentido sempre positivo. Diga-se de passagem, penso que é um erro grosseiro dar muito peso a qualquer teoria social, antes de se conhecer mais profundamente  o funcionamento da mente humana, o que está de fato acontecendo mais proficuamente apenas nas ultimas duas ou três décadas.






Penso que ainda temos muito o que evoluir em termos de uma boa “Teoria da Mente”, antes de tentarmos acreditar demais nas teorias que esta mente produz e cujo empirismo é questionável. As neurociências estão aí para ajudar, e muito, nesta compreensão, desmistificando o funcionamento do cérebro, encontrando os “fantasmas escondidos por trás da máquina” e  resgatando o papel funcional das “emoções” como recursos da inteligência humana, indispensáveis para sua boa performance.





Praticamente até quase o final do século vinte, as ciências médicas e neurológicas deixaram de lado as emoções humanas, como se, por sua imponderabilidade, não pudessem ser objeto de pesquisa séria, com metodologia científica e resultados mensuráveis e reproduzíveis. O psiquismo e as emoções eram encarados como temáticas para serem abordadas pela psicanálise, filosofia, religião ou qualquer outra via, mas estavam integradas ao conhecimento fisiológico do corpo humano e ao conhecimento neurológico, apenas através das patologias : o diferente era esmiuçado e a partir da diferença, tentava-se estabelecer a topologia estrutural correspondente no cérebro. A Psicologia Experimental fez um excelente trabalho com o único material observável disponível : o comportamento manifesto, o que obviamente não podia dizer nada de concreto sobre as emoções ligadas a estes comportamentos. Atualmente conseguimos ver o cérebro e suas estruturas em pleno funcionamento, a ponto de praticamente se poder dizer o que um indivíduo está sentindo através de exames sofisticados como a ressonância magnética funcional, para citar apenas um exemplo. Pesquisas mais recentes dão conta de um “inconsciente cognitivo”, que coloca aquilo que chamamos de “razão” como apenas uma testemunha de algo que já se processou em nossa mente, sem que acompanhássemos tal processo e desconhecendo a miríade de motivações que nos guiam. Nas próximas duas décadas, provavelmente descobriremos mais sobre nós mesmos do que toda a história da humanidade até aqui. Para quem quiser saber mais sobre isso, recomendo :
































Como já deixei claro, penso que as idéias de Rand são frágeis para serem encaradas como uma filosofia ou que vaticinem a Verdade sobre o ser humano. Contudo, liberal que sou, não descarto a análise de suas idéias como uma reflexão que pode nos fazer dar mais valor ao autodomínio e a nos responsabilizar pela construção de nossos próprios caminhos, prescindindo, na medida do possível, não dos outros ou da civilização, mas do Estado-Pai . O perigo, a meu ver, na abordagem de Rand é que pode ser usada, na pior das hipóteses, como uma ótima justificativa para a canalhice.





"A NASCENTE"  - FONTAINHEAD - AYN RAND - Editora Landscape - 814 págs























sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

ESTADO DE MEDO – O HORROR NOSSO DE CADA DIA






Já comentei sobre os grandes contadores de histórias e o quanto eles são importantes, sobretudo para os leitores amantes. Talvez Shakespeare tenha sido o autor cujos textos mais foram adaptados para teatro, cinema e mini-séries ao longo dos séculos, com versões e releituras no mundo inteiro, como no último filme que vi sobre Hamlet, totalmente adaptado aos dias atuais. Tolstoi, Dostoiévski, Balzac, Wilde, Zola, Hemingway, Capote e uma infinidade de autores de grandes clássicos tem suas melhores histórias, verdadeiros clássicos, reproduzidas em inúmeros formatos. São autores que em seu tempo contaram como ninguém, histórias que envolviam a essência do humano e justamente pela universalidade e atemporalidade dessa essência, são recontadas até os dias de hoje e talvez nunca deixem de ser contadas enquanto houver humanos sobre a Terra.
Resolvi dedicar este post a um escritor contemporâneo, que certamente é mais conhecido mundialmente por sua obra do que por sua personalidade, e que  em minha opinião, arrastou multidões às livrarias e salas de cinema pela qualidade de suas histórias : Michael Crichton. Médico formado em Harvard, Crichton sempre se dedicou à literatura e a roteiros cinematográficos - é dele a série Plantão Médico, que tanto sucesso fez antes do Dr. House e que catapultou George Clooney no panteão de estrelas de Hollywood.



Suas obras mais conhecidas são, sem dúvida: Jurassic Park, O Grande Roubo do Trem,  Sol Nascente, Revelação, Linha do Tempo , todos eles adaptados para o cinema com grande sucesso. O que distingue Crichton de outros autores, é a versatilidade de transitar sobre os mais diversos assuntos, todos ligados à questões atuais, mesclando uma pesquisa extremamente bem feita com sua capacidade imaginativa, que combinados, geram um romance lúdico e didático – o que não é muito comum.  Penso que se pode gostar ou não de seus romances, mas dificilmente se sai de um deles sem ter aprendido algo sobre um tema relevante ou no mínimo ficar instigado a conhecer mais sobre o mesmo. Li todos os seus romances publicados no Brasil e o classifico como um ótimo contador de histórias.






Como qualquer autor, Crichton produziu obras que obtiveram menor repercussão, mas nem por isso deixam de ser extremamente interessantes e  provocativas : “Estado de Medo”, publicada 4 anos antes de sua morte (2008 aos 66 anos), é uma destas obras e pela abordagem que faz, é compreensível não ter recebido muito destaque. O tema central do livro é a Indústria do Ambientalismo Radical, e de como a ciência, mais do que nunca, está a serviço de interesses políticos, que servem de filtro na seleção das verdades científicas que serão apresentadas ao grande público. A partir do fantasma do Aquecimento Global, Crichton desenvolve uma trama envolvente que traz a público dados reais (eu verifiquei estes dados nos sites oficiais da NASA e vários outros que contém arquivos de medições de temperatura de várias partes do globo, nos últimos 100 anos e eles são verdadeiros segundo estas fontes) e que coloca em causa, dois aspectos importantes desta questão :

1) É verdade que a Terra está aquecendo ? Os dados GLOBAIS corroboram esta tese ao longo de uma série histórica relevante  ?

 2) Qual o papel da ação humana neste cenário ? Sendo este cenário verdadeiro, é possível ser evitado ou faz parte de ciclos terrestres que independem da vontade humana ?

Apenas como exemplo, na pesquisa do autor, para as primeiras questões colocadas, podemos verificar que a Terra está aquecendo em algumas regiões e esfriando em outras, na média está esfriando. A segunda questão é mais surpreendente : um dos fatores que mais contribuem para o aquecimento da atmosfera, de longe, são as chamadas “ilhas de calor ”, produzidas pelos aglomerados de pessoas vivendo de forma concentrada em cidades cada vez mais apertadas, com maiores áreas de construção : sim, o bom e velho “calor humano”, aquece também a atmosfera! Os combustíveis fósseis e seus derivados (inclusive as sacolinhas plásticas), são responsáveis por uma parte infinitesimal do processo de aquecimento atmosférico. A quantidade de gente é o maior problema : quanto mais gente, mais plantações, mais vacas (que produzem 25% do metano na atmosfera do planeta), mais consumo, mais dejetos. Daí vem a pergunta : Se o problema maior é a quantidade crescente e a concentração de pessoas, porque não existem políticas e metas para redução da natalidade, através da educação e conscientização em escala global, bem como uma melhor distribuição regional e consumo mais equilibrado? Por que mal se fala nisso, ao passo que os combustíveis e os plásticos são manchetes diárias? A quantidade de entidades, ONGs, autarquias, ministérios, empresas que se dedicam à sustentabilidade são elas próprias consumidoras de recursos preciosos, geradoras de dejetos e inúteis por sua própria natureza.  : não possuem força para frear países como China e Estados Unidos, mesmo naquilo que alegam ser os vilões ambientais.


O livro mostra como os temas são escolhidos politicamente para depois serem “comprovados” por cientistas através do controle de verbas para pesquisa. Em resumo, a ciência deixa de ser um instrumento de busca da verdade para ser um “aval crível” para uma afirmação política, com interesses exclusivamente econômicos e de controle das massas através da constante MEDO :  O humano vive sob constante ameaça, 24 horas por dia e, amedrontado por sua vulnerabilidade, necessita e anseia por um governo que o proteja, que tome decisões por ele. Por outro lado, indústrias altamente poluidoras continuam sua trajetória, sob a égide do crescimento econômico contínuo. Nunca se vê um país que, sensibilizado pela “crise ambiental” promova um Programa de Desaceleração do Crescimento – talvez o único remédio eficaz para preservar o meio ambiente por um pouco mais de tempo.  Digo “um pouco mais de tempo”, pois é uma infantilidade pensar que a Terra foi criada para satisfazer as necessidades humanas – os grandes terremotos e tsunamis, as erupções vulcânicas e as eras glaciais já provaram isto muito antes do homem imaginar o que era combustível. Enfim, o alerta que o livro lança e faz refletir, não se esgota no ambientalismo mas no mal uso da ciência, cujo critério único deveria ser a busca da verdade. 




"ESTADO DE MEDO" - Michael Crichton - Editora Rocco - 623 páginas. 

Destaque para os comentários do autor no final do livro e das fontes de referência que consultou em sua pesquisa.




















terça-feira, 31 de janeiro de 2012

FIRMIN – SOBRE RATOS E HOMENS



"Um rato culto é um rato solitário" - Firmin




Já comentei sobre o processo de encantamento que tive com os livros e a leitura e penso que muita gente compartilha um histórico semelhante. Contudo, não posso deixar de lado o fato de que tive a sorte de encontrar os “livros certos” que me ajudaram a encontrar um prazer indescritível neste hábito, porque foram livros inspiradores – livros escritos por quem gosta de contar uma boa história. Os “livros certos” são aqueles que fazem você querer mais, se aventurar por outros livros, embora não seja possível amar a todos da mesma maneira. Certa vez tive uma experiência incrível com o excelente “Como a Mente Funciona” do neuropsicólogo norte-americano  Steven Pinker : por causa dele, de suas citações caprichadas e suas fartas exegeses, li mais 22 livros que eram de alguma forma mencionados em seu texto. É claro que alguns desses 22 livros, mas não todos, me levaram a outros tantos e, para resumir, até hoje não consegui esgotar as referências importantes da bibliografia utilizada por Pinker. Nenhum destes livros, como já deve ter ficado claro, se trata de um romance, mas pode-se contar excelentes histórias a partir da ciência – quem teve o prazer de conhecer a obra de Carl Sagan e sua série “Cosmos” sabe bem do que estou falando. 
       
A  literatura universal dispõe de clássicos considerados indispensáveis para quem quer ter um mínimo de cultura, mas nem todos eles são de fato bons do ponto de vista do leitor amante, aquele para quem a cultura advinda dos livros é secundária ao prazer de lê-los. O leitor amante não deixa de ler, independente do quão atarefada seja sua vida – a história de José Mindlin comprova isso – e até por isso, lê ainda mais, sempre que consegue um momento. O leitor amante não lê porque é preciso, mas porque ele precisa.

Descobri grandes contadores de histórias, quase todos famosos, mas surpreendi-me enormemente quando tive em minhas mãos a obra “Firmin” de Sam Savage. Não conhecia este autor, nascido na Carolina do Sul – EUA e que publicou Firmin, seu primeiro romance, fora dos grandes círculos editoriais e talvez por este motivo, tenha demorado um pouco mais para se tornar um sucesso absoluto sobretudo entre os leitores amantes. Quando olhei sua capa e o folheei, pensei que se tratava de um romance infantil. Contudo na primeira página, já me dirigi ao caixa da livraria ! Ela começa exatamente falando das primeiras linhas dos livros, das aberturas espetaculares com as quais um autor agrilhoa seu leitor por toda a história. Savage cita algumas, realmente espetaculares, e já ganha o leitor amante de saída : “Lolita, luz da minha vida, fogo de minhas entranhas” – de Nabokov ; “Todas as famílias felizes se parecem, mas cada família infeliz é infeliz à sua maneira” de Tolstoi, ou ainda, a preferida dele – “Esta é a história mais triste que já ouvi” – que abre a obra “O bom soldado” de Ford Madox Ford. Tenho que concordar que das três aberturas escolhidas por ele, a de Ford Madox Ford é a mais instigadora, tanto que fui atrás da obra, li-a e não me decepcionei : é excelente.

                                                                       



Mas continuando a narrativa de Savage, descobrimos nas páginas seguintes que ele fala como Firmin, um rato que nasceu sobre as folhas picadas do Finnegans Wake de James Joyce e mora no forro de uma velha livraria e que se torna um leitor voraz, literalmente, pois além de ler avidamente o tesouro que a livraria abriga, ele também o come. A história de como sua mãe prenha conseguiu se refugiar na livraria para ter sua ninhada e sua luta diária em busca de alimentos é belíssima, cheia do drama que aproxima a espécie humana de todas as demais. 




Erudito, sonhador, esnobe, voyeur, mentiroso, enfim um rato que bem poderia ser  um Oscar Wilde se fosse humano, Firmin nos leva para seu mundo e seus devaneios com “sua” Ginger Rogers, que assistia diariamente num cinema próximo, em seus musicais com Fred Astaire. Firmin acompanha o dia-a-dia da livraria que habita observando do mezanino, o livreiro, um escritor fracassado, que se torna seu herói, por não mais se identificar com seu próprio mundo, pois no mundo dos ratos, um rato culto é um rato solitário. A humanização de Firmin é construída brilhantemente por Savage e esta mistura de rato e homem nos arrasta para momentos de alegoria, tristeza ou de humor deliciosos pelo paralelismo evidente com nossas próprias vidas. É um livro que um leitor amante devora, no sentido figurado - exceto para Firmin - numa sentada e que pode ser um ótimo começo para quem quer se apaixonar por livros. 


"FIRMIN"- Sam Savage - Editora Planeta - 2008 - 244 págs.

Destaque para as ilustrações de Fernando Krahn que tornam o livro ainda melhor.