"Nascemos com o incrível dom de conhecer a realidade, a despeito do que nos contam sobre ela. Não são os livros nem as versões oficiais que nos mostram como as coisas são, mas nossa própria inteligência, desde que aprendamos a confiar nela." - Eliseu Gonçalves
O século XX não foi bom para o
povo chinês – guerras, revoluções e fome ceifaram milhões de vidas, tingindo de
vermelho para sempre as lanternas que iluminam o futuro da China. Desde a
revolução de 1911 que acabou com mais de 4 mil anos de dominação das dinastias,
o povo chinês viveu toda a sorte de dificuldades na tentativa de se erguer como
nação. Guerra civil, invasão japonesa em 1937 e a Revolução Comunista a partir
de 1949 e Mao – um capítulo à parte na história da China que trouxe grandes
esperanças antes de se transformar num verdadeiro terrorismo de estado a partir
da segunda metade do século passado.

Admiro muito o povo chinês
sobretudo pela sua capacidade de superação da adversidade, sua resistência à
fome, ao desconforto e à falta de privacidade mínima. Conheci na atualidade
vários chineses que vivem no Brasil, sem conhecer o idioma, trabalhando vinte horas por dia e se
aglutinando de dez a quinze pessoas num apartamento de 70 m2. Adotam um nome
“brasileiro” e conseguem se comunicar apesar de toda a dificuldade. Vivem numa
condição muito ruim, mesmo pelos nossos padrões terceiro-mundistas, e isto nos
faz pensar que eles estão tentando fugir de algo bem pior. Outro dia por acaso,
estava navegando na internet e encontrei uma notícia que me deixou chocado :
que o destino ou paradeiro do rapaz que, no final dos anos 80, se postou na
frente de uma fileira de tanques na praça da paz celestial, impedindo-os de
prosseguir apenas com seu corpo, sem qualquer tipo de arma ou atitude
agressiva, continua sendo um mistério,
depois de mais de vinte anos ! Era apenas um movimento estudantil, pacífico que
se rebelava contra a tirania comunista e que foi covardemente massacrado por
tanques e pelo exército. Há quem diga que o mesmo foi fuzilado, outros que foi
preso e outros ainda que dizem que ele está vivo, bem e morando em Taiwan. A falta de informação confiável continua sendo uma arma poderosa do regime. Interessante pesquisar que na época, um eminente professor de relações internacionais da USP - a mesma universidade que combate a PM em seu campus e que repudia qualquer ação policial sob qualquer justificativa - defendeu a ação do governo chinês, como sendo "essencial" para a manutenção do controle social do país. A foto deste episódio está listada como uma das mais importantes do século XX.

A arte chinesa é absolutamente
encantadora e a literatura certamente faz parte deste contexto. Yu Hua nasceu em Zhejiang,
em 1960. É contista, ensaísta, e autor de romances. Em 2002, tornou-se o
primeiro escritor chinês a receber o James Joyce Foundation Award. “Viver”, publicado em treze países,
foi agraciado na Itália com o prêmio Grinzane Cavour, em 1998. Sucesso de
crítica e público no mundo todo, ganhou versão cinematográfica dirigida por
Zhang Yimou, premiada em Cannes e no Globo de Ouro. Filho de pai e mãe médicos,
Hua passou sua infância em hospitais, onde assistia diariamente as enormes
filas de camponeses que se formavam diante dos bancos de sangue para aumentarem
sua escassa renda em pleno vigor da Revolução Cultural Maoísta. Foi nesta
experiência que se inspirou para escrever “Crônica de um Vendedor de Sangue”,
traduzido e publicado no Brasil pela Companhia das Letras no ano passado.
O livro acaba por ser um retrato de um
povo, de uma época onde a fome, a escassez, a falta de trabalho e o despotismo
do exército vermelho sob comando do Grande Timoneiro, despertavam o pior e o
melhor do humano.
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O
romance conta a história de Xu Sanguan, um operário de uma fábrica de seda,
cujo trabalho era empurrar um carrinho com casulos de bicho da seda para as
operárias fiandeiras, durante todo o expediente. Neste período, conhece dois camponeses que
revelam uma atividade extra que praticam, totalmente estranha para Xu Sanguan :
vendem sangue de tempos em tempos para o banco de sangue do condado, comandado
pelo chefe de sangue Li, um funcionário público nojento e inescrupuloso que faz
da doação de sangue um negócio para tirar vantagens pessoais. Para tanto, os
dois revelam a Xu Sanguan, todos os macetes desta atividade, no intuito de
receber o máximo possível, preservando suas vidas. Eles bebem várias tigelas de
água antes da doação, para afinarem o sangue e terem mais para doar, o que lhes
rendem o equivalente a seis meses de trabalho no campo. Depois da doação, vão
ao restaurante Vitória comer um prato de fígado de porco frito e duas doses de
vinho de arroz amarelo para se recomporem. Xu Sanguan aprende que esta
atividade pode salvá-lo nos tempos difíceis e que o que ganhava com a doação
era dinheiro de sangue e não dinheiro de suor, e que deveria ser gasto apenas
com coisas muito importantes. Xu Sanguan conhece Xu Yulan, uma moça da vizinhança que era conhecida por
fritar roscas pela manhã, e decide se casar com ela, embora ela já estivesse
comprometida com outro rapaz, He Xiaoyong, que lhe fazia a corte cobrindo seu
pai de favores. Ainda assim, Xu Sanguan consegue seu intento e acaba
constituindo com ela sua família, com três filhos homens.
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A
descrição da vida das pessoas daquele vilarejo é prosaica, revelando a
simplicidade de suas vidas, seus parcos pertences, seus casebres cujas mobílias
enchiam um triciclo. A vida de Xu Sanguan e Xu Yulan é marcada por desavenças e
turras de ambos e se agrava quando Xu Sanguan desconfia que seu primeiro filho,
Yile, não se parece nada com ele, mas com He Xiaoyong, o que mais tarde será
confirmado : He Xiaoyong é o verdadeiro pai de Yile. Não obstante a
infidelidade da esposa, a família continua em sua luta diária pela a
sobrevivência e os acontecimentos vão fortalecendo as relações de Xu Sanguan
com Yile, tornando-o seu filho predileto. Xu Sanguan acaba sendo obrigado a
vender seu sangue inúmeras vezes para tentar salvar sua família da miséria e do
desastre financeiro que parece não ter fim.
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As coisas pioram ainda mais quando advém a
Revolução Cultural, perseguindo qualquer pessoa que tivesse qualquer
propriedade tornando-as inimigas do
povo, a justiça oficial e os magistrados foram defenestrados e substituídos
pela justiça popular, onde qualquer pessoa do povo podia escrever suas
acusações sobre qualquer outra pessoa, colá-las nas paredes e nos postes e
exigir que fossem justiçadas por tribunais populares. A família de Xu Sanguan é atingida duplamente
: Xu Yulan é acusada de prostituição (por causa de seu primeiro filho com He
Xiaoyong) e obrigada a ficar de pé,
diariamente, em praça pública com uma tabuleta escrita “Prostituta”, pendurada
no pescoço à disposição de seus “juízes”. Além disso, o Grande Timoneiro exige
que as famílias enviem suas crianças para trabalhar no campo, podendo ficar com
apenas uma delas em casa. São estes momentos em que fazem aflorar o melhor do
humano – Xu Sanguan e Xu Yulan se apoiam, se ajudam e se unem para salvar a
vida de Yile, que acaba por ficar doente, após alguns anos da vida impiedosa
dos campos. Apesar da dureza da vida das personagens e das misérias humanas
expostas em todas as suas dimensões, e talvez por esta razão, “Crônica de um Vendedor
de Sangue” é um livro sutil, cuja construção das relações se dá sem lampejos de
revolta ou indignação, mas como fruto da necessidade imperiosa de apoiar um ao
outro pelo simples prêmio de continuar vivendo. Um pote de arroz se transforma
no maior bem que uma família pode almejar e a capacidade de superar as crises
pessoais em favor da vida, a maior força que um simples camponês pode arrancar
não da terra crestada, mas de suas próprias vísceras.
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Esta época retratada por Yu Hua, final
dos anos 50, foi o “Grande Salto Adiante” de Mao e cujo legado deixou nada
menos do que 30 milhões de mortos na China.
Na atualidade, a China assumiu uma
posição chave na economia mundial, através de seu processo de industrialização
que barateou a fabricação de bens de consumo enormemente. Confesso que temo que
o século XXI também não seja bom para a China, com uma diferença: não é só
Iphones e Ipads baratinhos que a China tem exportado. Muitos países parecem
encantados com a possibilidade de uma economia capitalista ou como gostam de chamar de “Capitalismo de Estado”,
mas com um regime autoritário comunista, de controle e intervenção na vida
privada pelo bem do povo, controle da mídia e da internet, sob a égide de
proteger a verdade e a liberdade, câmeras para todos os lados que só servem
para fabricar filmes de horror em tempo real e leis de restrição que não
diminuem em nada a violência e a degradação da qualidade de vida das pessoas.

O
que as pessoas menos afoitas, menos hipnotizadas pela ganância e pelo
consumismo podem observar na China é que sua economia se torna cada vez mais
robusta, mas que isto não tem se traduzido em qualidade de vida para a maioria
de seu povo – o número de suicídios de jovens no topo de fábricas de alta
produtividade revelam isso, assim como as cidades fantasmas construídas
anualmente, que tornam o PIB chinês um fenômeno mundial, mas que estão
abandonadas ao tempo, por falta de compradores. A classe emergente chinesa abrange
um Brasil : quase 300 milhões de pessoas, porém existem mais de um bilhão de
pessoas que vivem com muita dificuldade e a liberdade de pensamento e expressão não estão entre os itens produzidos pela pujante economia chinesa.
"CRÔNICA DE UM VENDEDOR DE SANGUE" - YU HUA - COMPANHIA DAS LETRAS - 270 PÁGINAS.