terça-feira, 20 de março de 2012

EU FUI VERMEER – A lenda do falsário que enganou os nazistas - FRANK WYNNE

"O QUE FAZ UMA PESSOA EXTREMAMENTE TALENTOSA QUERER SER OUTRA PESSOA ?"



No atual mundo do entretenimento, o que conta é o público, o consumo imediato pela massa ávida de diversão abrangendo vários tipos de arte.  Música, Literatura, Cinema, Teatro (bem menos) são consumidos e descartados rapidamente, enquanto vários talentos são absolutamente desprezados: Instrumentistas espetaculares, vozes esplendidas, escritores sensacionais vagam pelo mundo sem jamais saírem da obscuridade, enquanto artistas bem menos dotados alcançam fama e fortunas estratosféricas : o mercado é medido pelo público disposto a pagar pela arte em forma de diversão. Contudo, alguns tipos de arte têm um consumo mais restrito e não podem ser valorizados pelo público que os querem desfrutar : é o caso da pintura e da escultura, para citar dois exemplos mais comuns. Este tipo de arte requer pura e simplesmente contemplação e é sempre refém de um museu ou colecionador que detém a sua posse.



É muito difícil entender porque o mercado de arte da pintura tem um processo de valorização tão obscuro e complexo, capaz de precificar obras na casa das dezenas de milhões de dólares, quando seu autor viveu e morreu na mais negra penúria. Na verdade, poucos são os talentos da pintura que são agraciados pelo reconhecimento do mercado de arte e raramente isto se dá durante a vida do artista e mesmo quando ocorre, certamente valerá muito mais depois que o mesmo se for, sobretudo porque não poderá produzir nenhuma outra obra, tornando as existentes mais raras. Mas isto não é um vaticínio : alguns pintores conseguiram muito reconhecimento em vida, mas até que ponto uma obra é valorizada pela sua qualidade intrínseca e o quanto é valorizada pelo mito de seu autor ? Como esse mito é construído, como é alimentado ?
O que torna uma obra tão valorizada num momento em detrimento a outro quando foi produzida?  Rembrandt tinha o hábito de repintar suas telas, cobrindo pinturas antigas, por falta de dinheiro para comprar material, morreu na mais completa miséria – Em 2000, teve seu “Retrato de uma dama de 62 anos” arrebatado por US$ 28.700.000 ! Porque Van Gogh só conseguiu vender um único quadro durante toda sua vida, ainda assim para seu irmão, e alcançou em 1990 a espantosa soma de US$ 82.500.000 com seu “Retrato do Dr. Gachet” ?  




Mark Rothko não teve o mesmo destino dos velhos mestres, foi muito bem sucedido e aclamado em vida, mas o que dizer de sua obra “White Center” (abaixo) ter sido vendida por nada menos que US$ 72.800.000 ?


Por mais que Rothko tenha sido um intelectual, por mais que a escola moderna possa criar um milhão de teses e conceitos, por mais que eu mesmo aprecie as cores e a sensação que esta obra desperta, a pergunta que não cala em mim, é : O que há nesta obra que valha esta quantidade de dinheiro ? Qual o critério de avaliação ? Não é possível se pagar pela pintura pura e simples, visto que em termos de técnica não ultrapassa as habilidades de uma criança de seis anos. Pelo que então se paga ?
Outro exemplo : gosto muito da obra de Jackson Pollock, certamente bem mais elaborada do que as de Rothko, mas o que leva esta obra (abaixo) valer US$ 140.000.000 ?





A questão é : Se fosse pela qualidade intrínseca, pela perfeição ou imperfeição, pela personalidade da escolha das cores ou pelo talhe da pincelada, certamente Han Van Meegeren, nascido em 1889 em Deventer, teria suas obras avaliadas no mesmo nível de Johannes Vermeer, o grande mestre de mesma nacionalidade, nascido 250 anos antes. Porém, na época de Van Meegeren , a arte moderna já havia solapado todas as técnicas da antiga escola clássica, nas quais os holandeses tanto se destacavam, inclusive ele. Sua solução foi absolutamente brilhante : Já que com sua técnica não poderia ser um mestre no presente, resolveu tornar-se um mestre do passado - a reencarnação de Johannes Vermeer.




Quem teve o prazer de assistir ao filme “Moça com brinco de pérola” pode ter uma idéia bastante razoável de como foi a vida daquele que é considerado um dos grandes gênios da "Era Dourada" da escola holandesa – Johannes Vermeer . Uma vida recheada de dificuldades financeiras que eram parcamente atendidas por um mecenas, em troca de suas pinturas de cenas familiares. Vermeer preparava seu próprio material e suas tintas e pigmentos saiam de seu atelier a partir de matérias primas como o lápis-lazúli, cinábrio, chumbo branco, índigo, criando tonalidades que marcaram toda a sua obra. Era obcecado pela luz de tal forma, que impedia que as janelas de seu estúdio fossem limpas quando estava em meio a uma pintura, para não distorcer a iluminação que ele captara. 





Este livro é sobre obras primas e também pode ser considerado uma obra prima de seu autor, pois por mais talentoso que Frank Wynne seja, penso que será difícil escrever outra obra tão interessante e bem narrada sobre um personagem tão peculiar : A vida de Han Van Meegeren, o maior falsário de todos os tempos, que conseguiu enganar museus, marchands, e o poderoso Hermann Goering - marechal do Reich alemão, vendendo reproduções feitas por ele das telas de Vermeer com tamanha perfeição, que até hoje pairam dúvidas sobre a autenticidade de alguns trabalhos atribuídos à Vermeer. A descrição do trabalho de Meegeren na busca da perfeição de suas falsificações impressionam pelo detalhismo, pelo gênio na reprodução dos materiais existentes na época de Vermeer e nas técnicas desenvolvidas por ele para o envelhecimento preciso das telas. Em outras palavras, pode-se dizer que Meegeren não apenas tinha a mesma habilidade de Vermeer para a pintura, mas outras tantas que o velho mestre nem sonhava que existiam. Meegeren conhecia além de tudo, a alma dos especialistas, dos marchands, do "mercado do mito", que fê-lo fazer uma fortuna tão robusta que por melhor que desfrutasse sua vida - e ele o fez em grande estilo - não conseguiu dar cabo de todo dinheiro auferido com suas cópias. O livro conta em detalhes suas peripécias e sua ousadia maior - conseguiu vender a tela "Cristo com a Mulher Adúltera" para Goering pelo equivalente atual de US$ 7 milhões. 




Voltamos então à questão : O que se paga quando se adquire uma obra de arte ? Van Meegeren tinha os dotes para ser um grande artista, produzindo obras com sua própria assinatura, mas desde cedo entendeu que estaria condenado à miséria se o tentasse. O mercado do mito estabelece o preço através de critérios duvidosos como também são duvidosos a autoridade e os conhecimentos dos especialistas para atribuir autenticidade a uma obra. Penso que uma vez estabelecido o mito, entra a fartura e concentração de dinheiro do mundo nas mãos daqueles que, na absoluta impossibilidade de adquirir mais objetos que satisfaçam os mais sofisticados e bizarros desejos humanos, aspiram a utopia maior : EXCLUSIVIDADE, propriedade do que é único.




Com o fim da 2a. Guerra, Meegeren foi descoberto e acusado... de entregar o tesouro holandês para os nazistas ! Em outras palavras : foi difícil provar que não se tratava de um quadro original de Vermeer. Uma vez revelada a verdade - tratava-se de uma falsificação e não de traição, foi condenado a apenas um ano de prisão, pena que não chegou cumprir, pois morreu de ataque cardíaco dias antes de ser encarcerado, aos 58 anos. Desnecessário dizer que após a revelação das peripécias de Meegeren, e após sua morte, suas cópias e alguns trabalhos originais também tiveram seus preços bastante inflacionados.

"EU FUI VERMEER" - FRANK WYNNE - Companhia das Letras - 295 páginas.


Destaque para os apêndices do autor que esclarece bastante sobre as técnicas de autenticação atuais, as falsificações (conhecidas) de Meegeren e onde estão os Vermeers verdadeiros (supostamente).

















sábado, 17 de março de 2012

A PAZ QUE EU NÃO QUERO - CINCO VERSOS EM UM SÓ FÔLEGO


"Pior do que qualquer guerra explícita, é quando seus efeitos nefastos são travestidos de paz" - EG



A PAZ QUE EU NÃO QUERO
É AQUELA TRAVESTIDA DE LIBERDADE
QUE PERMITE QUE A VOZ ECOE ESVAZIANDO-LHE O CONTEÚDO TORNANDO-A MAIS UM GRUNHIDO SEM SENTIDO EM MEIO À TURBA BARULHENTA


A PAZ QUE EU NÃO QUERO
É A DO CONFORMISMO MIMÉTICO DAS MAIORIAS
QUE SEMPRE SE ADAPTAM AO PIOR
E ACEITAM AS MUDANÇAS PARA NADA MUDAR

A PAZ QUE EU NÃO QUERO
É AQUELA DO TÚMULO ONDE NÃO HÁ SENTIMENTO OU COMPAIXÃO
 QUE TRAZ A FRIALDADE EM VIDA
 QUE FAZ COM QUE SEJAMOS INTOLERANTES COM O OUTRO OU AINDA PIOR : INDIFERENTES

A PAZ QUE EU NÃO QUERO
É A MAQUÍNICA QUE NOS REDUZ À FUNCIONALIDADES PRECISAS
NOS CLASSIFICA UTILITARIAMENTE
NEGANDO-NOS A EXISTÊNCIA PARA  ALÉM DESTA FRONTEIRA

A PAZ QUE EU NÃO QUERO
É A DA FALTA DE MEMÓRIA
DOS JOVENS :
QUE OS FAZ ESQUECER QUE FICARÃO VELHOS
DOS VELHOS :
QUE SE ESQUECEM QUE JÁ FORAM JOVENS
E A DOS ADULTOS :
QUE SE ESQUECEM DAS DUAS COISAS.

domingo, 11 de março de 2012

CRÔNICA DE UM VENDEDOR DE SANGUE – YU HUA



"Nascemos com o incrível dom de conhecer a realidade, a despeito do que nos contam sobre ela. Não são os livros nem as versões oficiais que nos mostram como as coisas são, mas nossa própria inteligência, desde que aprendamos a confiar nela." - Eliseu Gonçalves


O século XX não foi bom para o povo chinês – guerras, revoluções e fome ceifaram milhões de vidas, tingindo de vermelho para sempre as lanternas que iluminam o futuro da China. Desde a revolução de 1911 que acabou com mais de 4 mil anos de dominação das dinastias, o povo chinês viveu toda a sorte de dificuldades na tentativa de se erguer como nação. Guerra civil, invasão japonesa em 1937 e a Revolução Comunista a partir de 1949 e Mao – um capítulo à parte na história da China que trouxe grandes esperanças antes de se transformar num verdadeiro terrorismo de estado a partir da segunda metade do século passado.


Admiro muito o povo chinês sobretudo pela sua capacidade de superação da adversidade, sua resistência à fome, ao desconforto e à falta de privacidade mínima. Conheci na atualidade vários chineses que vivem no Brasil, sem conhecer o  idioma, trabalhando vinte horas por dia e se aglutinando de dez a quinze pessoas num apartamento de 70 m2. Adotam um nome “brasileiro” e conseguem se comunicar apesar de toda a dificuldade. Vivem numa condição muito ruim, mesmo pelos nossos padrões terceiro-mundistas, e isto nos faz pensar que eles estão tentando fugir de algo bem pior. Outro dia por acaso, estava navegando na internet e encontrei uma notícia que me deixou chocado : que o destino ou paradeiro do rapaz que, no final dos anos 80, se postou na frente de uma fileira de tanques na praça da paz celestial, impedindo-os de prosseguir apenas com seu corpo, sem qualquer tipo de arma ou atitude agressiva,  continua sendo um mistério, depois de mais de vinte anos ! Era apenas um movimento estudantil, pacífico que se rebelava contra a tirania comunista e que foi covardemente massacrado por tanques e pelo exército. Há quem diga que o mesmo foi fuzilado, outros que foi preso e outros ainda que dizem que ele está vivo, bem e morando em Taiwan. A falta de informação confiável continua sendo uma arma poderosa do regime. Interessante pesquisar que na época, um eminente professor de relações internacionais da USP - a mesma universidade que combate a PM em seu campus e que repudia qualquer ação policial sob qualquer justificativa - defendeu a ação do governo chinês, como sendo "essencial" para a manutenção do controle social do país. A foto deste episódio está listada como uma das mais importantes do século XX.


A arte chinesa é absolutamente encantadora e a literatura certamente faz parte deste contexto. Yu Hua nasceu em Zhejiang, em 1960. É contista, ensaísta, e autor de romances. Em 2002, tornou-se o primeiro escritor chinês a receber o James Joyce Foundation Award. “Viver”, publicado em treze países, foi agraciado na Itália com o prêmio Grinzane Cavour, em 1998. Sucesso de crítica e público no mundo todo, ganhou versão cinematográfica dirigida por Zhang Yimou, premiada em Cannes e no Globo de Ouro. Filho de pai e mãe médicos, Hua passou sua infância em hospitais, onde assistia diariamente as enormes filas de camponeses que se formavam diante dos bancos de sangue para aumentarem sua escassa renda em pleno vigor da Revolução Cultural Maoísta. Foi nesta experiência que se inspirou para escrever “Crônica de um Vendedor de Sangue”, traduzido e publicado no Brasil pela Companhia das Letras no ano passado.
O livro acaba por ser um retrato de um povo, de uma época onde a fome, a escassez, a falta de trabalho e o despotismo do exército vermelho sob comando do Grande Timoneiro, despertavam o pior e o melhor do humano.


O romance conta a história de Xu Sanguan, um operário de uma fábrica de seda, cujo trabalho era empurrar um carrinho com casulos de bicho da seda para as operárias fiandeiras, durante todo o expediente.  Neste período, conhece dois camponeses que revelam uma atividade extra que praticam, totalmente estranha para Xu Sanguan : vendem sangue de tempos em tempos para o banco de sangue do condado, comandado pelo chefe de sangue Li, um funcionário público nojento e inescrupuloso que faz da doação de sangue um negócio para tirar vantagens pessoais. Para tanto, os dois revelam a Xu Sanguan, todos os macetes desta atividade, no intuito de receber o máximo possível, preservando suas vidas. Eles bebem várias tigelas de água antes da doação, para afinarem o sangue e terem mais para doar, o que lhes rendem o equivalente a seis meses de trabalho no campo. Depois da doação, vão ao restaurante Vitória comer um prato de fígado de porco frito e duas doses de vinho de arroz amarelo para se recomporem. Xu Sanguan aprende que esta atividade pode salvá-lo nos tempos difíceis e que o que ganhava com a doação era dinheiro de sangue e não dinheiro de suor, e que deveria ser gasto apenas com coisas muito importantes. Xu Sanguan conhece Xu Yulan,  uma moça da vizinhança que era conhecida por fritar roscas pela manhã, e decide se casar com ela, embora ela já estivesse comprometida com outro rapaz, He Xiaoyong, que lhe fazia a corte cobrindo seu pai de favores. Ainda assim, Xu Sanguan consegue seu intento e acaba constituindo com ela sua família, com três filhos homens.


A descrição da vida das pessoas daquele vilarejo é prosaica, revelando a simplicidade de suas vidas, seus parcos pertences, seus casebres cujas mobílias enchiam um triciclo. A vida de Xu Sanguan e Xu Yulan é marcada por desavenças e turras de ambos e se agrava quando Xu Sanguan desconfia que seu primeiro filho, Yile, não se parece nada com ele, mas com He Xiaoyong, o que mais tarde será confirmado : He Xiaoyong é o verdadeiro pai de Yile. Não obstante a infidelidade da esposa, a família continua em sua luta diária pela a sobrevivência e os acontecimentos vão fortalecendo as relações de Xu Sanguan com Yile, tornando-o seu filho predileto. Xu Sanguan acaba sendo obrigado a vender seu sangue inúmeras vezes para tentar salvar sua família da miséria e do desastre financeiro que parece não ter fim.


As coisas pioram ainda mais quando advém a Revolução Cultural, perseguindo qualquer pessoa que tivesse qualquer propriedade tornando-as  inimigas do povo, a justiça oficial e os magistrados foram defenestrados e substituídos pela justiça popular, onde qualquer pessoa do povo podia escrever suas acusações sobre qualquer outra pessoa, colá-las nas paredes e nos postes e exigir que fossem justiçadas por tribunais populares.  A família de Xu Sanguan é atingida duplamente : Xu Yulan é acusada de prostituição (por causa de seu primeiro filho com He Xiaoyong)   e obrigada a ficar de pé, diariamente, em praça pública com uma tabuleta escrita “Prostituta”, pendurada no pescoço à disposição de seus “juízes”. Além disso, o Grande Timoneiro exige que as famílias enviem suas crianças para trabalhar no campo, podendo ficar com apenas uma delas em casa. São estes momentos em que fazem aflorar o melhor do humano – Xu Sanguan e Xu Yulan se apoiam, se ajudam e se unem para salvar a vida de Yile, que acaba por ficar doente, após alguns anos da vida impiedosa dos campos. Apesar da dureza da vida das personagens e das misérias humanas expostas em todas as suas dimensões, e talvez por esta razão, “Crônica de um Vendedor de Sangue” é um livro sutil, cuja construção das relações se dá sem lampejos de revolta ou indignação, mas como fruto da necessidade imperiosa de apoiar um ao outro pelo simples prêmio de continuar vivendo. Um pote de arroz se transforma no maior bem que uma família pode almejar e a capacidade de superar as crises pessoais em favor da vida, a maior força que um simples camponês pode arrancar não da terra crestada, mas de suas próprias vísceras.


Esta época retratada por Yu Hua, final dos anos 50, foi o “Grande Salto Adiante” de Mao e cujo legado deixou nada menos do que 30 milhões de mortos na China.
Na atualidade, a China assumiu uma posição chave na economia mundial, através de seu processo de industrialização que barateou a fabricação de bens de consumo enormemente. Confesso que temo que o século XXI também não seja bom para a China, com uma diferença: não é só Iphones e Ipads baratinhos que a China tem exportado. Muitos países parecem encantados com a possibilidade de uma economia capitalista ou como  gostam de chamar de “Capitalismo de Estado”, mas com um regime autoritário comunista, de controle e intervenção na vida privada pelo bem do povo, controle da mídia e da internet, sob a égide de proteger a verdade e a liberdade, câmeras para todos os lados que só servem para fabricar filmes de horror em tempo real e leis de restrição que não diminuem em nada a violência e a degradação da qualidade de vida das pessoas. 


O que as pessoas menos afoitas, menos hipnotizadas pela ganância e pelo consumismo podem observar na China é que sua economia se torna cada vez mais robusta, mas que isto não tem se traduzido em qualidade de vida para a maioria de seu povo – o número de suicídios de jovens no topo de fábricas de alta produtividade revelam isso, assim como as cidades fantasmas construídas anualmente, que tornam o PIB chinês um fenômeno mundial, mas que estão abandonadas ao tempo, por falta de compradores. A classe emergente chinesa abrange um Brasil : quase 300 milhões de pessoas, porém existem mais de um bilhão de pessoas que vivem com muita dificuldade e a liberdade de pensamento e expressão não estão entre os itens produzidos pela pujante economia chinesa.




"CRÔNICA DE UM VENDEDOR DE SANGUE" - YU HUA - COMPANHIA DAS LETRAS -  270 PÁGINAS.


quinta-feira, 1 de março de 2012

BARTLEBY, O ESCRIVÃO – UMA HISTÓRIA DE WALL STREET

" E SE O MELHOR A FAZER É NÃO FAZER ?" - Eliseu Gonçalves


Este conto escrito por Herman Melville me deixou de cabelos em pé, pois me deu a noção de quanto uma atitude, uma simples e única atitude pode subverter toda a ordem do "Universo Conhecido" !! A comparação feita por Modesto Carone desta obra às de Kafka, sobretudo “O Castelo”, “O Processo” e “O Artista da Fome” se justifica não apenas pelas coincidências ou analogias que podem ser feitas a partir das passagens destas obras, mas sobretudo pela a capacidade que elas têm de deixar o leitor angustiado, meio que sufocado ao se projetar em suas personagens. Uma situação limite que clama por uma catarse, uma explicação, uma saída que não chega nunca. O que mais me impressiona que de certa forma, Melville traz de seu esplêndido Moby Dick  o mesmo retrato alucinado da obstinação levada às raias da auto-aniquilação, só que numa história aparentemente prosaica, sem mares revoltos, baleeiros, marujos e todo o clima de aventura em que vive o capitão Ahab, cuja obsessão é caçar a gigantesca baleia branca Moby Dick que lhe arrancara uma perna no seu primeiro encontro. A diferença a meu ver, é que se em Moby Dick, toda a tensão e obstinação estão voltadas para a ação desenfreada, uma mistura de heroísmo e vingança urdida nas labaredas do amor e ódio do velho marujo com aquele animal espetacular – uma ligação pessoal que arrisca a embarcação e todos que estão dentro dela – no caso de Bartleby a tensão e a obstinação estão focadas  na NÃO AÇÃO, na escolha simples e deliberada de não fazer.

















Infelizmente, como  muitos, Herman Melville só foi alçado ao panteão dos grandes escritores universais, depois de sua morte. Seu sucesso em vida foi muito modesto e não chegou a desfrutar do impacto que Moby Dick teria a partir do século XX. Bartleby foi escrito e publicado anonimamente em 1853, em duas partes, numa revista americana, mas assim como Moby Dick, acabou por receber enorme reconhecimento no século seguinte : teve duas versões para cinema (1970 e 2001), além de adaptações para teatro – aqui no Brasil, a impagável e única Denise Stocklos fez recentemente uma apresentação do texto por ela mesma adaptado. 

  
Bartleby é um escrivão contratado por um escritório de advocacia situado em Wall Street, centro financeiro de Nova York, e que tem como função a copiagem e arquivamento de documentos, serviço que desempenha, a princípio, com afinco. O narrador da história é um velho advogado, dono do escritório, que tem um negócio rentável na assessoria de hipotecas e títulos de propriedade de homens ricos. Seu escritório possui uma equipe de dois escrivães e um office boy cujas peculiaridades lhe instaram a contratar mais um escrivão na esperança de equilibrar o quadro com uma pessoa calma e tranquila: Bartleby !
O que ocorre é que num dado momento, sem qualquer explicação, sendo solicitado a realização de uma tarefa de rotina, Bartleby simplesmente responde : “Eu preferiria não fazer”.  Para seu desespero, e dos leitores, o advogado não consegue arrancar mais nada de Bartleby , além da repetição crescente desta frase : “Eu preferiria não fazer” . Bartleby vai piorando a cada dia, fazendo cada vez menos o trabalho que deveria executar e deixando-se estar sentado numa mesa de fronte a uma janela, que dava para uma parede de tijolos, completamente alheio aos pedidos do chefe ou de seus colegas.  O velho advogado tenta de tudo para entendê-lo e propor alguma ajuda, mas Bartleby continua hermético, respondendo com seu mantra a toda e qualquer indagação. Ao ser despedido, sua resposta foi a mesma e não só se recusou a abandonar o escritório como também passou a morar lá, passando todas as noites entre móveis e documentos. Numa última e desesperada tentativa, o advogado convida Bartleby para morar provisoriamente em sua residência, sair do escritório e ir com ele para casa, para depois acharem uma solução melhor – “Eu preferiria não fazer”. Esgotadas todas as tentativas, e sob ameaça de arruinar a reputação do escritório com aquele morador bizarro, o advogado opta por uma alternativa radical : muda o escritório de endereço, deixando Bartleby sozinho no imóvel antigo, agora vazio.


O final da história é dramático e causa bastante impacto, pois embora o caso de Bartleby revele algum tipo de transtorno mental, fica também evidente como nosso mundo é organizado de tal forma, que quando um ato totalmente não planejado e resistente ocorre, faz desmoronar todo o edifício sob o qual construímos nossa realidade.
A resistência doentia da não ação de Bartleby na vida do advogado tem um paralelo muito interessante na história da humanidade, que ocorreria quase um século depois, também envolvendo um advogado, que de doentio não tinha nada : o fenômeno Mahtma Gandhi para os colonizadores ingleses na Índia. Num mundo atropelado pela velocidade da ação, onde ser rápido é melhor do que ser bom ou ter qualidade, o conto de Melville traz algumas reflexões importantes : E SE DISSERMOS NÃO ? E SE PREFERIRMOS NÃO FAZER ALGO QUE JULGAMOS INADEQUADO, INDEPENDENTE DO CÓDIGO SOCIAL VIGENTE ?  E SE RESISTIRMOS ? E SE O MELHOR A FAZER É NÃO FAZER ?
  
Esta é uma das facetas encantadoras da literatura : Mesmo as histórias mais bizarras, dizem muito sobre os humanos e muitas vezes, abrem perspectivas que nosso automatismo diário é incapaz de enxergar.

Destaque para a edição sensacional da Editora Cosac Naify – a qual admiro a cada lançamento – cujo exemplar resiste a ser lido : “Eu preferiria não fazer” -  vem com a capa costurada e as folhas dobradas e impressas por dentro de tal maneira que é preciso primeiro descosturar a capa e depois separar as folhas para se ter acesso ao conteúdo. A editora incluiu uma “faca” plástica para fazermos este trabalho antes de iniciarmos a leitura. Nunca tinha visto uma edição que fosse uma espécie de “poesia concreta” da obra. Note-se que na tradução de Irene Hirsch , ela prefere usar “Acho melhor não” no lugar de “Eu preferiria não fazer”, mas isso não compromete em nada a excelente tradução. Modesto Carone assina o posfácio desta edição, que a meu ver enriquece-a muito. 


BARTLEBY, O ESCRIVÃO - UMA HISTÓRIA DE WALL STREET - HERMAN MELVILLE - EDITORA COSAC NAIFY  - 46 PÁGINAS.






CAPAS DOS FILMES DE 1970 E 2001 

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ – A FRAUDE DAS URNAS

"Estamos afundados na merda do mundo e não se pode ser otimista. O otimista, ou é estúpido, ou insensível ou milionário" – José Saramago


Ateu, cético, pessimista, e sobretudo polêmico, amado e odiado por muitos, Saramago instituiu uma nova maneira de escrever, com seu texto cursivo, caudaloso, parágrafos imensos que pedem mais vírgulas e quase clamam por um ponto final. Para mim não foi fácil lê-lo pela primeira vez, mas depois que a gente pega o  jeito, não consegue parar. São muitas as suas obras de ótima qualidade que o tornaram famoso no mundo inteiro e acabou por render-lhe um prêmio Nobel de Literatura em 1998, e aqui no Brasil ele ficou mais popularmente conhecido, pelo “Ensaio sobre a Cegueira”, pois este livro ganhou uma versão cinematográfica homônima que teve algumas cenas rodadas  na cidade de São Paulo. Alguns anos antes disso, seu “O Evangelho segundo Jesus Cristo” ganhou uma excelente montagem teatral que teve bastante sucesso por aqui, embora tenha alimentado ainda mais a ira da Igreja Católica contra o autor.  Aliás já ouvi tantos impropérios acerca de sua figura, e não podemos dizer que é sem motivo : Ele teve a desfaçatez de chamar a Bíblia de um “Manual de Maus Costumes”  e se autodescrevia como “Comunista Libertário” ! Ele também não conheceu fãs entre os judeus ou em qualquer outra religião.
Não concordo com todas as suas idéias ou vocações políticas, mas reconheço a honestidade de seu pensamento (às vezes ingênuo) e seu gênio literário (contestado por reacionários e pseudo-intelectuais)

Lembrei-me imediatamente dele, quando li recentemente um artigo no jornal que dava conta de que na atual pré-disputa pela prefeitura da cidade de São Paulo, não havia uma única proposta ou preocupação manifesta pelos problemas da cidade, as causas de sua deterioração ou por soluções, ainda que parciais, para os cidadãos que têm suas vidas pioradas pelo dia-a-dia de transporte ruim, trânsito caótico, lixo nas ruas, enchentes que matam e destroem dentro das próprias casas, atendimento de saúde precário, falta se segurança, má iluminação, buracos por todos os lados, isto para citar apenas o que é mais visível. O artigo citava que as grandes preocupações dos candidatos são as articulações políticas e os níveis de rejeição para as campanhas de maior peso, como a presidencial. Para tanto, oposição se junta com situação, inimigos “mortais” de ontem se unem em fotos e falas, como se os eleitores fossem absolutos imbecis que devem guardar apenas a última imagem, que a que interessa no momento. Aquilo que os partidos chamam de “aliança política”, apenas dá uma idéia do quanto valem suas palavras e propostas: nada. Nada na política atual é crível e o voto transformou-se numa fraude, num cheque em branco que a população assina, dando plenos poderes por quatro longos anos, para que o político faça o que bem entender, sem jamais poder ser cobrado ou instado a pelo menos cumprir suas promessas de campanha. O voto transformou-se numa espécie de “amansa corno” para a população, pois sempre que há algum princípio de insurreição, ainda que apenas de protesto, a velha Democracia é tirada do baú, através de sua pseudo-representante máxima : a eleição. Este é um fenômeno mundial, basta analisar a baixa presença às urnas nos países em que o voto é livre. Aqui, a democracia já começa a capengar pela obrigatoriedade do voto mas, apesar dos problemas, o cidadão comum acaba por ficar contente por viver num país onde a democracia de fachada tremula na ponta do mastro do Tribunal Eleitoral.


Não temos equipamentos médicos suficientes para tratar a população, mas temos urnas eletrônicas de última geração; não temos escolas públicas de qualidade, algumas não tem sequer teto, mas todas elas tem computador; não temos professores bem formados ou pagos para viverem com o mínimo de dignidade, mas temos o congresso e o parlamento mais caros do mundo; o transporte público funciona pessimamente no país inteiro, mas a Receita Federal é uma das mais modernas do planeta. O Brasil vive em função dos políticos e suas benesses, seus cargos garantidos pelo voto popular. Não está indo bem ? Sem problemas, tentem na próxima daqui a quatro anos! Estamos há muito tempo vivendo a crise da Democracia de Representação, pois os políticos e partidos não representam nada mais do que seus interesses privados e econômicos. Estamos emparedados por um sistema político cuja única opção é procrastinar por mais quatro anos, na expectativa de que um programa televisivo ou o futebol revele um “bom candidato”. Popularidade é igual a “votabilidade”. 


Saramago foi capaz de imaginar e contar histórias sobre situações inusitadas, como no caso em que uma espécie de cegueira “branca” tomou conta de todos os habitantes de uma cidade, como uma epidemia e as conseqüências da desestruturação social decorrente (Ensaio sobre a Cegueira) ou do homem que descobre que existe um outro igual a ele através de um filme que alugou aleatoriamente (O Homem Duplicado), ou de um país em que as pessoas repentinamente param de morrer (Intermitências da Morte), mas o romance que mais me chamou a atenção foi Ensaio sobre a Lucidez. Penso que chamou minha atenção, porque a idéia não é uma simples alegoria : é danada de boa ! – Pelo menos para marcar a insatisfação popular com o sistema político vigente, que se autoprotege e se legitima através do voto pseudo-democrático.



Num país imaginário, onde impera a democracia representativa pelo voto, as autoridades se vêem diante de um fato inusitado em pleno dia de eleições : ninguém compareceu às urnas para realização do escrutínio. Após certo alvoroço, resolvem adiar o dia de votação e no novo evento, para alívio das autoridades constituídas, a presença é maciça. Contudo, nova surpresa estava reservada : Quase 80 % dos votos eram em branco.  A partir daí, as estruturas de poder começam a ficar preocupadas e a se reunir freneticamente para encontrar uma solução para o impasse, posto que os finais de mandato estavam próximos e ninguém poderia ser empossado com aquele percentual de votos nulos. Novas eleições são marcadas e o fenômeno se repete com intensidade ainda maior : mais de 80 % dos votos são brancos.
O que se segue é uma crise institucional sem precedentes, em que os governantes tentam pressionar a população de todas as formas, deixando de fornecer serviços básicos de transporte, limpeza e segurança, mas para o espanto de todos (aí aparecem as tendências anarquistas de Saramago), o povo começa a se ajudar e realizar por conta própria aquilo que antes dependiam da administração pública : começam a limpar as próprias calçadas, a organizar caronas entre os populares, revezarem-se na vigilância. Os antigos administradores, desesperados planejam se retirar do país na calada da noite, quando todos estivessem dormindo, para decretarem Estado de Sítio e fecharem as fronteiras impedindo que os insurretos recebessem qualquer ajuda externa, na tentativa de sufocar o movimento.


Os desdobramentos da história são cômicos, porém trágicos (como manda o pessimismo de Saramago), mostrando que a sede de poder dos humanos, uma vez desbancada de seu trono, adapta-se rapidamente e utiliza-se de qualquer ardil para retomar a relação de dominância. Assim acontece com a política, com a corrupção, com as lutas entre facções criminosas ou disputas empresariais.


Este é um romance que vale a pena ser lido, mesmo por aqueles que não apreciam Saramago e sua vasta obra, pois trata de um assunto que é um verdadeiro tabu nos dias correntes : a validade do voto e a possibilidade de mudança através de um sistema viciado e de cartas sempre marcadas. 
     




ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ - JOSÉ SARAMAGO - COMPANHIA DAS LETRAS - 325 PÁGINAS

sábado, 25 de fevereiro de 2012

DAS PUTAS ASSASSINAS PARA AS PUTAS TRISTES


“O sexo é o consolo daqueles que não tiveram a alma tocada pelo amor”


Na esteira de Bolaño, li seu livro de contos “Putas Assassinas”, seguido de outro ícone da literatura latino americana – Gabriel García Márquez com o seu “Memória de Minhas Putas Tristes”. Foi interessante fazer uma leitura logo após a outra, porque pude identificar muito claramente os estilos de ambos os autores e chegar à conclusão que os dois me agradam igualmente :  Enquanto Bolaño me embebeda com seus devaneios descritivos, Márquez me inebria com suas histórias de amor – poucos sabem contar uma história de amor como ele.


Dos 13 contos de “Putas Assassinas” deliciei-me sobretudo com a “Prefiguração de Lalo Cura”- personagem que reaparecerá em 2666 -  e “O Retorno”, um devaneio bizarro e surpreendente sobre “algo” depois da vida. Os contos de “Putas Assassinas” – o nome do livro é referência a um deles – estão muito pouco interligados ao título e muito menos entre si, mas por incrível que pareça, após ler “Memória de Minhas Putas Tristes” de Márquez, fui capaz de encontrar um sentido para que a coletânea de Bolaño levasse esse nome.


“Memória” conta a história dos 90 anos do protagonista, que nunca havia se casado ou se apaixonado vivendo sua sexualidade exclusivamente com putas, e que nas vésperas de se tornar nonagenário, manifestou um desejo incontido de passar a noite com uma virgem. Resolve fazer seu pedido a uma cafetina, velha conhecida, que acaba por arranjar uma adolescente de 14 anos, paupérrima, que sobrevive de pregar botões em roupas numa fábrica. A noite do primeiro encontro dos dois, transcorre de forma inesperada : a menina completamente nua, dormindo sob afeito de um calmante, com o velho igualmente nu, deitado ao seu lado, apenas admirando-a, sem querer acordá-la e retirando-se antes que ela acordasse naturalmente.
Os encontros vão se sucedendo sempre da mesma forma : uma mistura de voyeurismo e fetichismo em que o velho assiste ao sono da menina, toca-a de leve, sem consubstanciar qualquer intercurso que envolvesse seus genitais. Nasce daí uma relação de amor que o velho jamais tivera a  oportunidade de experimentar. Ele diz a Rosa Cabarcas (a cafetina) : “O sexo é o consolo daqueles que não tiveram a alma tocada pelo amor”. O velho chama a menina de “Delgadina” , nome que inventou durante suas noites de observação amorosa.


É uma história de amor inverossímil, mas muito bonita de qualquer forma: Chamou-me a atenção o acolhimento e o carinho com que Rosa Cabarcas trata a questão do velho. A “puta-mor” acaba por ser a grande articuladora de algo que aparentemente se afasta da prostituição: o amor sublime. O velho, apesar de seus 90 anos, não era incapaz de fazer sexo. Apenas descobriu um sentimento que embora sensual, tomava-o inteiramente e com tal intensidade, que prescindia do ato sexual em si.  O exercício da sensualidade daquele amor, se dava pelos cuidados e mimos que o velho deitava sobre sua amada, a observação dos frêmitos de seu corpo nu e adormecido, pela arrumação do quarto onde se encontrava com ela. O velho passou a um exercício diário de galanteio, de conquista e namoro adolescente, que desconhecia em si mesmo. Tão adolescente que as vezes se comporta como tal, em seus acessos de fúria e ciúmes quando sente que pode perder a menina, sua Delgadina.

Refletindo sobre o acolhimento da “puta-mor”, não pude deixar de pensar no papel ancestral do feminino : Receber para a vida e encaminhar para a morte, como uma sentinela presente na passagem entre os dois mundos, entre o ser e não ser – como em Antígona que sacrifica a própria vida pelo direito de enterrar seu irmão e garantir-lhe a paz dos mortos.



As putas são os últimos redutos dos não amados ou dos que não se sentem capazes de amar. São aquelas que a partir da receptação em seus corpos, criam um simulacro do amor e do acolhimento afetivo para aqueles que encontram no sexo o único consolo, o único retorno possível. As putas são, acima de tudo, mulheres e como tais receptadoras das passagens da vida de um homem, grandes mediadores da vida e da morte. Os franceses chamam o gozo sexual de "petit mort", o que talvez reforce o arquétipo da proximidade entre a experiência sexual e a morte -  que para mim, dá mais sentido ao título de Bolaño. 





PUTAS ASSASSINAS - ROBERTO BOLAÑO - COMPANHIA DAS LETRAS - 219 PÁGINAS





MEMÓRIA DE MINHAS PUTAS TRISTES - GABRIEL GARCIA MÁRQUEZ - EDITORA RECORD - 127 PÁGINAS

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

SÓCRATES E A ARTE DE VIVER


Uma vida que não é constantemente examinada, é indigna de ser vivida



Hoje este Blog está fazendo um mês de vida e em comemoração, resolvi prestar uma homenagem àquele a quem considero o maior pensador de todos os tempos, sobretudo porque viveu e morreu rigorosamente de acordo com seus mais profundos ensinamentos que remontam quase 2500 anos : Sócrates.
Não bastasse a genialidade e a atualidade de seus pensamentos, continua absolutamente notável que Sócrates não tenha escrito uma linha sequer durante toda sua existência, transmitindo suas idéias e métodos de forma oral para seus discípulos. Conhecemo-lo a partir da obra de Platão, sobretudo pelos “Diálogos”, em que Sócrates figura praticamente como uma personagem sua, Xenofonte que o glorifica e Aristófanes que o combate e satiriza.

O livro ao qual me refiro neste espaço não dispensa absolutamente a leitura dos diálogos de Platão, da Obra de Xenofonte – “Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates” ou o excelente “O Julgamento de Sócrates” de  I. F. Stone, que dão uma noção bastante clara da dimensão do ateniense, mas considero esta pequena obra de J. C. Ismael – “Sócrates e a Arte de Viver – Um Guia para a Filosofia no Cotidiano”, uma síntese espetacular e absolutamente aplicável no dia-a-dia das pessoas em pleno século XXI.

Não se trata de uma receita – a leitura destas lições deixará isto bem claro - pois tal receita não existe. Se existisse, o maior fundamento do pensamento socrático ruiria. Contudo, cada um destes dez pontos que selecionei da obra, fez-me refletir muitas vezes e tais reflexões me socorreram em muitos momentos em que havia “me esquecido” que era uma tolice levar-me tão a sério ou temer o que quer que fosse.   


Sócrates mostrou que a busca da verdade - e não necessariamente o seu encontro- não passa pelo cosmo ou pela natureza, mas pelo território sagrado da alma de cada pessoa disposta ao difícil enfrentamento da tarefa de transformar-se nela mesma.

AS DEZ LIÇÕES DO SOCRATISMO -

  1. Cuide da Alma – Cuidar da alma, missão suprema e indelegável do homem, é cuidar de si. O cuidado de si implica estar em confluência com o mundo, mas ao mesmo tempo, protegido das tentações que perturbam a intimidade, buscando-se na solução serena, e não na opinião dos outros, a resposta para as dúvidas e a libertação das incertezas. Preocupar-se com a alma sem descuidar-se do corpo, mantendo-o saudável e ágil ; é afastá-lo do perigo dos prazeres mundanos, fáceis e efêmeros que embotam os sentidos. Sendo a vida uma experiência intransferível, só os covardes e os fracos delegam a outros, a condução dos seus atos. A descoberta de si não se realiza num único, mas em contínuos exames, uns mais, outros menos reveladores – nenhum desprezível. Esses exames significam perguntar-se principalmente, se quem o faz está vivendo a vida que deseja, se sua vontade prevalece sobre a dos outros, se seus objetivos estão sendo alcançados, se seus amigos são verdadeiros. Porque quem não examina sua vida com persistência e coragem, modificando-lhe os rumos quando causam mais sofrimento que alegria, está condenado a extinguir-se sem nada a acrescentar à fatalidade da decadência biológica.
  2. Tome conta de sua vida – Tomar conta da própria vida não é uma tarefa fácil : exige eterna vigilância sobre a tentação de delegá-la a outros, de se julgar indigno de ser merecedor das próprias conquistas, enfim, de se diminuir perante si mesmo. A arte de viver passa necessariamente pela incansável missão de ver a vida como uma dádiva preciosa demais para ser descuidada, abandonada aos caprichos do acaso, desprezando a necessidade de aperfeiçoá-la através do estudo e da meditação.  Tomar conta da vida exige também atenção para que a vida do próximo não tenha importância desmedida, o que pode levar ao desinteresse pela própria.
  3. A liturgia da amizade – Amigos verdadeiros cultivam ideais elevados e lutam contra o antagonismo que brota naturalmente da convivência prolongada, lembrando que ela faz parte da natureza humana. Entre amigos, o único interesse que deve prevalecer é a alegria da convivência, sem disputas de qualquer natureza, não permitindo que a inveja e a tolerância cínica, maculem a pureza da relação.
  4. A natureza do amor – O amor é a experiência que mais aproxima o humano do divino. Porém, é preciso examiná-la – eis aí um aparente paradoxo – sem paixão, mas com a objetividade que parece prejudicar o seu verdadeiro entendimento, necessário para fugir de uma retórica vazia que nada define. Ao desejar o amor do outro, deve conhecer-se profundamente e não pretender privá-lo de nada que o impeça de ser ele mesmo, orientando-o, caso esse conhecimento lhe falte, a buscá-lo com determinação. Para que a relação entre os amantes seja longa e verdadeira, eles devem compartilhar com o mesmo delírio a essência traduzida na admiração mútua de seus corpos e na consciência das nobres qualidades das suas almas, alimentando-as na parte virtuosa e derrotando a viciosa.
  5. O que é ser livre – Na busca da liberdade o homem só abandona a ilusão de tê-la encontrado quando se convence de que sem conquistar a si mesmo não a alcançará; e, quando exercer o autodomínio com a mesma naturalidade com que respira, poderá dizer que é verdadeiramente livre e sábio, e não lhe ocorrerá ensinar  a liberdade a quem nunca a possuiu, ou conformou-se em tê-la perdido. A liberdade só é autêntica quando não depende de nada exterior, mas do conhecimento que precisa existir das suas limitações e da autonomia em relação a qualquer influência que possa desviá-las do aperfeiçoamento interior.
  6. Quando transgredir é salvar-se  - Obedecer não é submeter-se cegamente, mas estar em harmonia com a liberdade e vontade interior, lutando com todas as forças para que não sejam usurpadas. Viver bem significa satisfazer-se com as próprias convicções, porém não as considerando imutáveis ou definitivas : sem a prática do exercício da dúvida, nenhum modo de viver é autêntico. O transgressor não necessita justificar seus atos porque, desconhecendo o sentimento de culpa, pratica a mais elevada forma de liberdade – a que brota da fonte principal do direito positivo, que  por sua natureza está além do arbítrio dos homens. Portanto, aquele que transgride o que o impede de viver bem, está no caminho correto da salvação de si mesmo.
  7. O indivíduo e o cidadão – O indivíduo e o cidadão desempenham papéis distintos na sociedade. Desde que nasce, a criança raramente é educada para ser ela mesma, mas mero representante da cidadania, ou seja, alguém cuja vida é pautada pelas convenções da sociedade em que vive. O viver bem consiste pois, no auto-conhecimento que permite em primeiro lugar, discriminar precisamente os dois papéis e no exercício cotidiano de ambos, sabendo-se o que pertence a um ou a outro.
  8. Não se leve a sério – Não se levar a sério significa questionar constantemente os próprios valores, trocando-os por outros sempre que isso possa enriquecer o conhecimento; mas significa principalmente encarar a vida com humor, transmitindo-o as outros que o cercam como antídoto para os inevitáveis sofrimentos do cotidiano. Sabendo que a verdade  última jamais será alcançada, e que levar-se a sério equivale, entre todas as coisas, a ter certeza de ter encontrado tal verdade.
  9. Tenha somente o necessário -  O homem que se conhece verdadeiramente, mediante o exame e a prática da virtude, está livre da tentação de possuir bens materiais além dos estritamente necessários para a vida. Contentar-se com o que possui está entre os mandamentos do viver bem, e, diante das múltiplas ofertas ao seu dispor, alegrar-se por não precisar de nenhuma delas : as coisas indispensáveis são muito poucas.
  10.  Viva a arte de morrer – A vida pode parecer curta para a preparação da morte, mas não o é para aquele que se empenha em viver bem, em praticar a virtude e principalmente em se ocupar da filosofia – porque se ela ensina a viver, ensina também a morrer. A mais bela das mortes é aquela que pode ser chamada de separação heroica da vida, mas só conhece a alegria dessa experiência quem viveu com inquietação e curiosidade. Preparar-se para a morte é o contrário de sua negação : é transformá-la numa companhia, tendo-a sempre presente na vida diária, como se fosse um sagrado aprendizado cujo ápice talvez seja submergir num sono eterno, sem nenhum sonho a perturbá-lo.



A morte de Sócrates é um episódio particularmente importante, pois ele teve todas as chances possíveis para safar-se da sentença que lhe foi atribuída por ser contra a democracia ateniense, atacar os deuses impostos pelo Estado e corromper os jovens. Porém, ele não aceitou quaisquer saídas que o fizessem abjurar de suas idéias, aceitando a morte com a placidez com que sempre a encarou em vida.







SÓCRATES E A ARTE DE VIVER - J. C. ISMAEL - AGORA EDITORA - 2004 - 160 PÁGINAS