"O HOMEM É UMA CORDA ESTICADA ENTRE O ANIMAL E O SUPER-HOMEM, UMA CORDA ESTICADA POR CIMA DO ABISMO" - FRIEDRICH NIETZSCHE
Diz-se que um verdadeiro filósofo
é aquele capaz de refletir com toda a honestidade que lhe é possível, acerca de
seu próprio fenômeno ou seja, sua vida e suas experiências pessoais, sendo que
tudo o mais não passa de História da Filosofia ou de História do Pensamento Humano. Ao
filósofo cabe refletir sobre a verdade, sabendo ser impossível encontrá-la fora de si
mesmo, daí seu percurso quase solipsista numa empreitada cujo o resultado é o
próprio percurso e não o ponto de chegada. A famosa frase de Sócrates – “Uma
vida que não é refletida, não vale a pena ser vivida” – nos dá uma idéia de
que, segundo o ateniense, o homem que merece viver ou que possui uma vida digna
é necessariamente um filósofo. Equivale dizer que não obstante a vastidão das
correntes filosóficas e das obras decorrentes delas, não é possível ser um
filósofo apenas estudando o que outros homens pensaram, por mais brilhantes que
sejam suas considerações e por mais que a alta cultura e o academicismo,
formados pelos intelectuais de um determinado momento histórico, os prestigie.
É exatamente neste contexto que
situo a trama do excelente livro de Irvin Yalon, que fez muito sucesso e chegou
a render um ótimo filme com Armand Assante no “papel da sua vida”, em minha
opinião, como Friedrich Nietzsche.
Yalon, que além de escritor é psiquiatra
e psicanalista, se vale das infinitas possibilidades da criação literária para juntar
num único cenário, pessoas que jamais se encontraram de fato e situações que
não aconteceram, mas que poderiam muito bem ter acontecido, caso estas
personagens tivessem seus caminhos cruzados pelo destino. Sua tessitura entre
realidade e ficção é perfeita tornando toda a trama que envolve personagens
altamente complexos, extremamente verossímil.
Nos final do século XIX, Josef
Breuer, um médico austríaco de quem Sigmund Freud foi discípulo, goza de imenso
prestígio decorrente do sucesso de seu novo método de tratamento baseado na “cura
pela fala” ou “terapia através da conversa”, aplicado em uma paciente de nome
Bertha Pappenhein (codinome - Ana O.) . Esta paciente já havia sido tratada originariamente por Charcot e foi o primeiro diagnóstico de histeria, basilar na teoria psicanalítica que seria desenvolvida posteriormente. Já avançado nos quarenta anos, Breuer
sente-se realizado por suas conquistas enquanto médico, cientista, chefe de
família e figura ilustre do cenário cultural austríaco, embora sinta-se
incomodado pelas freqüentes fantasias sexuais que desenvolve em relação à sua
bela paciente.
Por outro lado, temos Friedrich Nietzsche, um filólogo que se tornou um dos filósofos mais contundentes de
todos os tempos, referindo-se a si mesmo como o “filósofo do martelo”, posto a
crueza e violência de seu filosofar. Com um temperamento e orgulho superados apenas
por sua genialidade, agravado por uma saúde débil decorrente de uma sífilis
contraída ainda na juventude, Nietzsche encontra-se a beira de um colapso, sofrendo
de enxaquecas excruciantes e isolando-se cada vez mais em sua solidão auto
imposta.
Lou Salomé, uma jovem russa que
além de rica e encantadora, circulava pelas mais altas esferas intelectuais da
Europa, é a ponte que Yalon constrói para reunir Josef Breuer e Nietzsche, na
tentativa de que o médico austríaco se utilizasse de seus métodos para ajudar
Nietzsche.
O primeiro contato entre ambos
não corre bem e Breuer não encontra possibilidade de seguir com seu tratamento
diante da muralha empedernida da personalidade de Nietzsche. A trama se desenrola
deliciosamente na aura vienense do final do século, sua cultura, seus cafés e a
alta intelectualidade, nos contatos freqüentes de Breuer e seu então discípulo
Freud, a sedução de Lou Salomé tanto em relação a Nietzsche quanto a Breuer,
até que uma crise mais forte faz com que o filósofo aceite a ajuda de Breuer.
Estabelece-se assim um pacto entre ambos, onde Breuer tentará livrar Nietzsche
de sua enxaqueca e este irá analisar Breuer, através de sua “marreta filosófica”.
O que decorre daí é, em minha opinião, um desenrolar brilhante que além de
absolutamente verossímil, nos faz refletir sobre vários ângulos para além da psicanálise
e da própria filosofia.
Os papéis de médico e paciente se
confundem e quem se beneficia da verdadeira terapia pela conversa é Breuer,
pois Nietzsche o faz ver que toda sua vida foi construída sobre alicerces
ditados pelo seu entorno : sua careira, seu belo casamento com Mathilde, sua posição e prestígio não lhe davam sequer a
paz de espírito que era facilmente roubada pelos seus desejos inconfessos por
Bertha. Nada em sua vida fora escolhido por ele próprio.
Em contrapartida, podemos perceber que Breuer só faz bem a Nietzsche enquanto um amigo, uma companhia inteligente que ao espelhar sua própria filosofia, faz com que Nietzsche afunde mais ainda dentro de seu abismo : NIETZSCHE JÁ VIVIA O MAIS PRÓXIMO POSSÍVEL DO IRRESGATÁVEL FENÔMENO DE SUA VIDA !
Em contrapartida, podemos perceber que Breuer só faz bem a Nietzsche enquanto um amigo, uma companhia inteligente que ao espelhar sua própria filosofia, faz com que Nietzsche afunde mais ainda dentro de seu abismo : NIETZSCHE JÁ VIVIA O MAIS PRÓXIMO POSSÍVEL DO IRRESGATÁVEL FENÔMENO DE SUA VIDA !
É neste ponto que retomo o
filósofo socrático. Nietzsche provoca ainda nos dias de hoje, uma forte
perturbação em quem se aproxima de sua filosofia. Há quem diga que sua
filosofia é negativista, que carece de uma espinha dorsal consistente e que
tudo o que ele fez foi cunhar uma série de aforismos e de textos que desconstroem
a alma humana, mata Deus e seu super homem já foi considerado o modelo no qual
os nazistas erigiram sua saga de terror. Por outro lado, Breuer foi
praticamente o criador do método que iria fundamentar a psicanálise e, nas mãos
de Freud, impactar toda a cultura do século XX. Tanto Breuer quanto Freud,
apesar do brilhantismo de suas mentes e de suas carreiras, foram reféns daquilo
que construíram – o que na ficção de Yalon, Nietzsche apontou para Breuer,
caberia muito bem a Freud nos anos seguintes. Freud continuou por toda sua vida
como guardião daquilo que o alçou a sua condição inexpugnável de pai da
psicanálise, mesmo reconhecendo mais tardiamente suas limitações. A meu ver, esta é uma diferença que deve ser
refletida : Nietzsche pagou caríssimo sua busca pela verdade – sua vida foi
pouco melhor do que miserável, solitária, cheia de sofrimentos físicos e
psíquicos que culminou com a perda de sua sanidade. A mim
parece que Nietzsche não buscava a cura do humano pois, ao contrário, como
humano vivenciou na pele, que a condição humana não é passível de cura, mas de aceitação e adaptação (que é o que a psicanálise buscaria ao fim e ao cabo). A adaptação
nunca foi uma opção para ele. Isto não faz da filosofia de Nietzsche uma verdade, mas a meu ver faz de Nietzsche um filósofo de verdade.
E para além da aprovação do velho Sócrates qual é a vantagem de ser um filósofo ? Confesso que não tenho a resposta a esta pergunta, porque talvez a pergunta seja em si descabida - não se trata de uma opção !
Tanto o livro quanto o filme merecem a visita de quem se interessa minimamente pelo assunto, pois ambos são muito bem feitos, sendo o roteiro do filme muito bem adaptado.
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E para além da aprovação do velho Sócrates qual é a vantagem de ser um filósofo ? Confesso que não tenho a resposta a esta pergunta, porque talvez a pergunta seja em si descabida - não se trata de uma opção !
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