quarta-feira, 25 de abril de 2012

O ABISMO DE NIETZSCHE

“ Se olhares demoradamente para dentro do abismo, o abismo olhará para dentro de ti”. - FRIEDRICH NIETZSCHE




Escrever sobre "Quando Nietzsche Chorou", trouxe-me os velhos questionamentos da marreta do filósofo, presente em sua obra, que tive o prazer de desfrutar ainda na juventude. Lembrei-me de duas idéias de Nietzsche que sempre me perturbaram : a do abismo e a do eterno retorno. Resolvi dedicar este post como uma extensão daquele último sobre o tema, muito mais como uma reflexão despretensiosa, fruto de uma experiência própria contemplando o fundo do abismo.  Nietzsche não diz apenas “olhar para dentro do abismo”, mas “olhar demoradamente para dentro do abismo”, ou seja olhar o tempo suficiente para que nossos sentidos se quedem diante da inutilidade de tentar divisar e referenciar o nada. Frente à cessação da busca do referencial externo, nos tornamos o próprio abismo, cuja visão retorna no sentido oposto, livre dos ruídos dos sentidos, para nos darmos conta daquilo que habita nosso interior : não as coisas conscientes, que estão disponíveis a um simples chamado da memória, nem aquelas das quais nem sequer suspeitamos da presença a maior parte do tempo, mas daquilo que ainda as antecede, uma não linguagem, uma harmonia com o não ser.



Ao olharmos demoradamente para dentro de um abismo, deparamo-nos com o nada, com o rompimento da gestalt que permite nossas percepções  : não temos mais uma figura e o fundo nos engole, se apossa de nosso entorno para em seguida invadir-nos até a alma. Depois de remoer um pouco esta ideia, cheguei a um pensamento derivado que é “ A consciência é o ponto de estrangulamento de um único abismo”.





O estrangulamento advém pois desta injunção que nos dá ilusão de um limite real de algo que é contínuo. Este estrangulamento é temporário, leva o tempo de uma vida, antes do retorno ao contínuo, àquilo que não tem limite nem presença. Este olhar para dentro de si começa como numa espiral, onde primeiro tentamos entender, dar significado, para lentamente ir perdendo completamente os referenciais lingüísticos, simbólicos, ficando expostos a um sentir sem palavras, sem imagens sem conceitos. Não conseguimos pensar o impensável e sem uma linguagem que nos faça sentido, que tenha significado, encontramos o nada absoluto. Estamos irremediavelmente presos aos limites de nossa linguagem e o que possa haver além dela, para nós se apresenta apenas como o nada. Talvez este seja o princípio do Eterno Retorno de Nietzsche : Encontramo-nos no nó de uma ampulheta, que é nossa consciência, condenados a assistir a passagem dos mesmos grãos de areia (aquilo que nossa linguagem pode significar) de um lado para outro da ampulheta, sem jamais podermos divisar o que há fora da ampulheta, que apenas intuímos (mas só    conseguimos imaginar como se também fossem outros arranjos de grãos semelhantes aos grãos de areia disponíveis na ampulheta).




Se demorarmos o tempo suficiente olhando para o fundo do abismo, o sentir conhecido, os ecos corporais vão se tornando distantes, abrindo espaço para sentires cada vez mais estranhos, como se estivéssemos nos projetando no vazio... o mesmo vazio sem referencial que insistíamos em tentar divisar no fundo sem fundo do abismo. 




É como se de alguma forma, retornássemos ao ponto de partida. Um ponto de partida que é tão de partida quanto é de chegada, portanto um contínuo... Um plano contínuo onde a única coisa que se interpõe entre o dentro e fora é a nossa consciência, nossa noção de corpo físico contemplante. A sensação decorrente pode ser chamada de "sentido de presença", numinosidade ou qualquer outro nome que se queira dar, inclusive pura e simplesmente "consciência". Parece-me que o limite de nossa consciência está vinculado ao quão estrangulado é este ponto onde moram nossas percepções : se for por demais apertado, perdemos a conexão com aquilo que somos, interrompemos o simples fluxo do fora e dentro, vendo-os como coisas absolutamente separadas. Se por outro lado, for por demais frouxo, nos aproximamos dos ascetas que buscam o Nirvana e perdemos igualmente a conexão com qualquer coisa que tenha significado. Sobre esta busca dos ascetas... penso que há uma pressa injustificada : o rompimento de nosso elo de consciência é líquido e certo. É apenas uma questão de tempo. Talvez devêssemos apreciar e conhecer os grãos de areia de nossa ampulheta, sabendo que são os mesmos, de um lado e de outro e que basta estarmos atentos para vê-los passar diante de nossos olhos.



sexta-feira, 20 de abril de 2012

BOA NOITE SR. WINDOWS ! - PARTE 2

"O QUE SERÁ DE NÓS QUANDO SUA LUZ APAGAR A NOSSA?"



Boa noite Sr. Windows ! Eis-me aqui de volta. Então, como eu ia lhe dizendo, venho me tornando um ser cada vez mais virtual, na medida em que aquilo que realmente penso e sinto só ganha alguma materialidade ou noção de conjunto, se é que posso dizer isso, por seu intermédio. Meu corpo físico está imbuído praticamente apenas à repetição infinda (enquanto ele durar) de ações e comportamentos determinados pelo espectro permitido a gente como eu, que ocupa um determinado extrato ou camada da realidade, em que esta me permite certas coisas e não outras. 


Explico : Há algum tempo já percebi que o mais importante para os meus semelhantes não é saber exatamente o que penso ou sinto ou mesmo o que sou verdadeiramente (esta palavra tem um tom de dramaticidade que eu muito aprecio). Não, absolutamente ! Meus semelhantes não querem saber disso, mas querem saber minha posição na tessitura da vidinha social e cotidiana, o meu rótulo, aquilo que me concede um lugar social e que, este sim, já diz tudo o que precisam saber sobre mim. Este é o máximo de interesse que um humano tem diretamente pelo outro humano, o que significa que a comunicação entre humanos não se dá senão por troca de identificadores de posição.  Sou o lugar que ocupo e este lugar que ocupo é ocupado por todos a quem, como eu, vêem depositados sobre si um conjunto prévio de características que nos definem.


Qualquer coisa que eu diga ou qualquer ato meu que contradiga este lugar ou rótulo ao qual estou vinculado, é visto com estranheza e pode ser condenado ou simplesmente, como a maioria das vezes acontece, ignorado. Ao ser ignorado ou repudiado  entre meus semelhantes, humano que sou, tenho a tendência de tentar me reintegrar àquilo que me define e acabo me esquecendo daquelas coisas que me diferenciam deste lugar que ocupo, sem tê-lo escolhido – pelo menos não conscientemente.


Como já declinei antes, é nesta hora que o Sr. vem em minha salvação através de seu filho mais querido ! Generoso que é, registra minhas impressões e sentimentos apócrifos e permite-me relembrá-los a qualquer hora, editá-los, copiá-los, recortá-los, colá-los, enfim, permite-me brincar com as milhares de peças de meu puzzle interno, como se eu tivesse todo o espaço do mundo : Uma mesa gigantesca para abrigar minhas montagens da forma que eu quiser e por quanto tempo eu quiser    (minha filha que era fanática por montar puzzles  de todos os tipos certamente sabe a importância disto).  Hoje, se alguém me perguntar quem eu sou, irei responder confiantemente – “Pergunte ao Dr. Word, filho do Sr. Windows”.  Isto me leva a pensar numa evolução interessante : Há apenas duas décadas, quando alguém não sabia o significado de uma palavra ou a sua grafia, falava-se – “Pergunte ao Aurélio". Mais recentemente o Sr. incorporou esta e tantas outras funcionalidades que quando alguém quer saber sobre qualquer coisa, da qual não sabe sequer o nome, diz-se – “Pergunte ao Google”.


Ok, eu sei que esta é uma ferida narcísica para o Sr., mas também sei o quanto  é benevolente e não guarda rancores, afinal é sempre o Sr. que tudo inspirou, que criou a necessidade que os filhos alheios viessem ao mundo. Além disso, seu outro filho dileto, o aventureiro Explorer, esteve muito perdido e aquém de suas capacidades, antes das bussolas virtuais. 




Mas o Sr. faz mais ! Muito mais. George Orwell imaginou muitas coisas, mas não imaginou que o Sr. pudesse gerar um filho para conter e nos oferecer diariamente os Ministérios do Amor e do Ódio juntos, numa experiência alternada de “frio-quente” que torna nossas vidas confortavelmente tépidas . O Sr. me orienta logo pela manhã e continua, ao longo do dia, a me alimentar de informações para que eu “decida” como devo reagir ao que está acontecendo no mundo real. Me informa quais são os inimigos do dia, quais são as novas ameaças e os estudos que provaram que as anteriores eram infundadas.




É o Sr. quem primeiro me informa em que pé as coisas estão pelo mundo – as catástrofes, os acidentes, os crimes, os roubos, os massacres, as corrupções e toda a sorte de ameaças que pairam sobre nossas cabeças, como a espada de Dâimocles, e que pode nos conduzir, de uma hora para outra, para a morte, a perda ou a miséria (não necessariamente nesta ordem). Falando em Orwell, o Sr. também nos possibilita a oportunidade diária de aprender a “novilíngua”  dos jornalistas e webwriters dos provedores do mundo inteiro ! É verdade que basta ler um para se saber o que todos irão escrever, inclusive os que irão escrever o contrário,  mas este poder de síntese hegemônica do pensamento mundial também tem é fruto da força que o Sr. criou e distribuiu entre nós mortais.



Mas não posso ser negativo, isto seria injusto: Entre uma tragédia e uma catástrofe, o Sr. me informa também a saborosíssima receita  de um bolo de laranja "light" (porque ninguém é de ferro), os fatos e as fotos mais importantes que envolveram os famosos, as notícias do futebol e outras tantas coisas que tornam o meu dia feliz. Fico estimulado ao acompanhar diariamente simplesmente TUDO o que acontece na vida do Neymar, seus hobbies, baladas, aquisições e as tintas usadas em seu penteado estilo “punk broxado”, bem como os passeios de Suri com seus pais Tom e Katie pela praia. Por mais tudo isso, é que só posso mais uma vez lhe dizer : Obrigado Sr. Windows !

quinta-feira, 19 de abril de 2012

QUANDO NIETZSCHE CHOROU - IRVIN D. YALOM

"O HOMEM É UMA CORDA ESTICADA ENTRE O ANIMAL E O SUPER-HOMEM, UMA CORDA ESTICADA POR CIMA DO ABISMO" -  FRIEDRICH NIETZSCHE



Diz-se que um verdadeiro filósofo é aquele capaz de refletir com toda a honestidade que lhe é possível, acerca de seu próprio fenômeno ou seja, sua vida e suas experiências pessoais, sendo que tudo o mais não passa de História da Filosofia ou de História do Pensamento Humano. Ao filósofo cabe refletir sobre a verdade,  sabendo ser impossível encontrá-la fora de si mesmo, daí seu percurso quase solipsista numa empreitada cujo o resultado é o próprio percurso e não o ponto de chegada. A famosa frase de Sócrates – “Uma vida que não é refletida, não vale a pena ser vivida” – nos dá uma idéia de que, segundo o ateniense, o homem que merece viver ou que possui uma vida digna é necessariamente um filósofo. Equivale dizer que não obstante a vastidão das correntes filosóficas e das obras decorrentes delas, não é possível ser um filósofo apenas estudando o que outros homens pensaram, por mais brilhantes que sejam suas considerações e por mais que a alta cultura e o academicismo, formados pelos intelectuais de um determinado momento histórico, os prestigie.



É exatamente neste contexto que situo a trama do excelente livro de Irvin Yalon, que fez muito sucesso e chegou a render um ótimo filme com Armand Assante no “papel da sua vida”, em minha opinião, como Friedrich Nietzsche.
Yalon, que além de escritor é psiquiatra e psicanalista, se vale das infinitas possibilidades da criação literária para juntar num único cenário, pessoas que jamais se encontraram de fato e situações que não aconteceram, mas que poderiam muito bem ter acontecido, caso estas personagens tivessem seus caminhos cruzados pelo destino. Sua tessitura entre realidade e ficção é perfeita tornando toda a trama que envolve personagens altamente complexos, extremamente verossímil.


Nos final do século XIX, Josef Breuer, um médico austríaco de quem Sigmund Freud foi discípulo, goza de imenso prestígio decorrente do sucesso de seu novo método de tratamento baseado na “cura pela fala” ou “terapia através da conversa”, aplicado em uma paciente de nome Bertha Pappenhein (codinome - Ana O.) . Esta paciente já havia sido tratada originariamente por Charcot e foi o primeiro diagnóstico de histeria, basilar na teoria psicanalítica que seria desenvolvida posteriormente. Já avançado nos quarenta anos, Breuer sente-se realizado por suas conquistas enquanto médico, cientista, chefe de família e figura ilustre do cenário cultural austríaco, embora sinta-se incomodado pelas freqüentes fantasias sexuais que desenvolve em relação à sua bela paciente.


Por outro lado, temos Friedrich Nietzsche, um filólogo que se tornou um dos filósofos mais contundentes de todos os tempos, referindo-se a si mesmo como o “filósofo do martelo”, posto a crueza e violência de seu filosofar. Com um temperamento e orgulho superados apenas por sua genialidade, agravado por uma saúde débil decorrente de uma sífilis contraída ainda na juventude, Nietzsche encontra-se a beira de um colapso, sofrendo de enxaquecas excruciantes e isolando-se cada vez mais em sua solidão auto imposta.


Lou Salomé, uma jovem russa que além de rica e encantadora, circulava pelas mais altas esferas intelectuais da Europa, é a ponte que Yalon constrói para reunir Josef Breuer e Nietzsche, na tentativa de que o médico austríaco se utilizasse de seus métodos para ajudar Nietzsche.
O primeiro contato entre ambos não corre bem e Breuer não encontra possibilidade de seguir com seu tratamento diante da muralha empedernida da personalidade de Nietzsche. A trama se desenrola deliciosamente na aura vienense do final do século, sua cultura, seus cafés e a alta intelectualidade, nos contatos freqüentes de Breuer e seu então discípulo Freud, a sedução de Lou Salomé tanto em relação a Nietzsche quanto a Breuer, até que uma crise mais forte faz com que o filósofo aceite a ajuda de Breuer. Estabelece-se assim um pacto entre ambos, onde Breuer tentará livrar Nietzsche de sua enxaqueca e este irá analisar Breuer, através de sua “marreta filosófica”. O que decorre daí é, em minha opinião, um desenrolar brilhante que além de absolutamente verossímil, nos faz refletir sobre vários ângulos para além da psicanálise e da própria filosofia.
Os papéis de médico e paciente se confundem e quem se beneficia da verdadeira terapia pela conversa é Breuer, pois Nietzsche o faz ver que toda sua vida foi construída sobre alicerces ditados pelo seu entorno : sua careira, seu belo casamento com Mathilde,  sua posição e prestígio não lhe davam sequer a paz de espírito que era facilmente roubada pelos seus desejos inconfessos por Bertha. Nada em sua vida fora escolhido por ele próprio.



Em contrapartida, podemos perceber que Breuer só faz bem a Nietzsche enquanto um amigo, uma companhia inteligente que ao espelhar sua própria filosofia, faz com que Nietzsche afunde mais ainda dentro de seu abismo : NIETZSCHE JÁ VIVIA O MAIS PRÓXIMO POSSÍVEL DO IRRESGATÁVEL FENÔMENO DE SUA VIDA !



É neste ponto que retomo o filósofo socrático. Nietzsche provoca ainda nos dias de hoje, uma forte perturbação em quem se aproxima de sua filosofia. Há quem diga que sua filosofia é negativista, que carece de uma espinha dorsal consistente e que tudo o que ele fez foi cunhar uma série de aforismos e de textos que desconstroem a alma humana, mata Deus e seu super homem já foi considerado o modelo no qual os nazistas erigiram sua saga de terror. Por outro lado, Breuer foi praticamente o criador do método que iria fundamentar a psicanálise e, nas mãos de Freud, impactar toda a cultura do século XX. Tanto Breuer quanto Freud, apesar do brilhantismo de suas mentes e de suas carreiras, foram reféns daquilo que construíram – o que na ficção de Yalon, Nietzsche apontou para Breuer, caberia muito bem a Freud nos anos seguintes. Freud continuou por toda sua vida como guardião daquilo que o alçou a sua condição inexpugnável de pai da psicanálise, mesmo reconhecendo mais tardiamente suas limitações.  A meu ver, esta é uma diferença que deve ser refletida : Nietzsche pagou caríssimo sua busca pela verdade – sua vida foi pouco melhor do que miserável, solitária, cheia de sofrimentos físicos e psíquicos que culminou com a perda de sua sanidade.   A mim parece que Nietzsche não buscava a cura do humano pois, ao contrário, como humano vivenciou na pele, que a condição humana não é passível de cura, mas de aceitação e adaptação (que é o que a psicanálise buscaria ao fim e ao cabo). A adaptação nunca foi uma opção para ele. Isto não faz da filosofia de Nietzsche uma verdade, mas a meu ver faz de Nietzsche um filósofo de verdade. 
E para além da aprovação do velho Sócrates qual é a vantagem de ser um filósofo ? Confesso que não tenho a resposta a esta pergunta, porque talvez a pergunta seja em si descabida - não se trata de uma opção ! 


Tanto o livro quanto o filme merecem a visita de quem se interessa minimamente pelo assunto, pois ambos são muito bem feitos, sendo o roteiro do filme muito bem adaptado.






















"QUANDO NIETZSCHE CHOROU" - IRVIN YALON - 407 PÁGINAS - EDIOURO
EXISTE AINDA UMA VERSÃO EM AUDIOLIVRO, NARRADA PELO JOSÉ WILKER.





segunda-feira, 2 de abril de 2012

BOA NOITE SR. WINDOWS ! - PARTE 1


"UM GRANDE PSICANALISTA CHAMADO WORD "




Em primeiro lugar gostaria de lhe prestar uma homenagem. Aquele tipo de homenagem que não tem a menor importância, porque o homenageado já é tão absoluta e mundialmente consagrado que sinto-me até constrangido. Sinto-me como aquele garotinho chinês, no início dos anos 60, a balançar uma bandeirinha da China diante da portentosa figura de Mao, e cuja mãe alça-o aos ombros, segura de que o grande timoneiro iria discriminá-lo em meio à multidão e preservar na memória sua fisionomia para todo o sempre. Minha modesta, porém justa, homenagem é na verdade um sincero agradecimento, com genuína humildade de devoto : Agradeço-lhe por existir e possibilitar-me companhia incondicional em quase todos os momentos. Deus somente ofereceu Jesus aos homens, o seu filho encarnado, enquanto o Sr., em sua generosidade magnânima,  nos oferece vários filhos simultaneamente. Na época, meia dúzia de romanos deram fim ao filho encarnado, enquanto os seus filhos resistem bravamente a toda sorte de ataques e concorrências e nem mesmo o Congresso Americano pode com sua onipresença. 


Deus nos ofereceu apenas dois testamentos, o Antigo e o Novo, enquanto o Sr. é muito mais pródigo em seus desígnios : já vamos para sua enésima versão, charmosa e cabalisticamente chamada de 8, que irá suceder o 7, embora este tenha sucedido outra enigmaticamente chamada de Vista (uma pequena redundância) que sucedeu outro que não tinha um nome nem um número, mas apenas as letras XP – pura criatividade. Estou neste momento me relacionando com várias de suas epifanias para me atualizar sobre as mentiras fabricadas no mundo inteiro - as bobagens elevadas ao status de coisa séria e que embalam nossa vidinha cotidiana, pagando contas, trocando mensagens com outros seres humanos e sobretudo expressando meus pensamentos junto ao seu filho mais afamado e menos difamado. 


Este último só é menor que o Sr., que o possibilita !  Mesmo sendo um escrevinhador contumaz de papéis, não consigo mais imaginar-me sem ele e a condescendência silente de seu cursor que pulsa como um coração na única expectativa de avançar, de ir em frente. Como um psicanalista pós-moderno, ele se coloca não às minhas costas, mas cara a cara comigo - aquela cara branca com um traço piscante, que não encerra a sessão a cada 50 minutos nem possui aquela coisa de "tempo lógico" lacaniano. Nele, meus pensamentos se desdobram soltos, leves (nem sempre), toldados apenas por um corretor ortográfico que não está muito bem adaptado à nossa língua, mas tudo bem, afinal nem os filhos da pátria são bem adaptados à nossa língua. Bem sei que muitos  voltam-se contra o Sr. e o acusam das maiores imposturas : são ímpios ignaros que não percebem que mesmo quando o Sr. não está nos seus melhores dias e não nos pode enviar suas epifanias, nos oferece uma tela azul, não como o céu da manhã – extremamente iluminado e ofuscante - mas como o crepúsculo de um dia ensolarado, mais condizente com o regozijo e a meditação sobre o estar vivo. 


Os ímpios não compreendem estas sutilezas, paciência!  Mas, voltando à minha singela homenagem, gostaria mais uma vez de lhe agradecer por algo que ninguém mais tem podido fazer por mim nos últimos tempos : Ao me registrar pacientemente e me permitir rever tudo o que digitei, parece até que o Sr. está me ouvindo ou me lendo, enquanto discorro o que vai em minha alma. O Sr. não emite opiniões nem me critica e muito menos fica impaciente enquanto vou desfiando meu rosário de palavras, mesmo que a segunda palavra diste mais de quarenta minutos da primeira. Ainda dentro de sua extrema generosidade, permite que eu apague tudo o que escrevi, embora às vezes o faça sem meu consentimento - o que é compreensível pois, se por um lado pode significar talvez um sinal sutil de desaprovação ao conteúdo, por outro pode significar uma intimidade crítica que detecta quando não me expressei com minhas melhores palavras. Mas o que mais me impressiona no Sr. é seu desprendimento de ceder seus filhos a serviço de outros entes : Outro dia, tal como Adão no Paraíso (inclusive a loja coincidentemente se localiza neste bairro) sucumbi à tentação e mordi uma maçã que, por sinal, já estava mordida. E o que me é oferecido como bônus ? Ele ! Seu filho maior num "pacote premium". Fiquei meio desconfiado, confesso, mas feliz por ter meu companheiro de volta. Por tudo isso e muito mais, só posso dizer : Obrigado Sr. Windows !

sábado, 31 de março de 2012

O FÍSICO – NOAH GORDON


“Quando as pessoas adoecem de si mesmas, a empatia e o amor são mais relevantes do que qualquer técnica de cura”



Num momento histórico em que parece que a vocação foi totalmente solapada pela máquina de moer carne do mercado de profissões; em que os pais parecem não inspirar mais os filhos com suas obras, escolhas  e sabedoria; em que o sucesso é medido exclusivamente pela riqueza material, muitas vezes em detrimento à qualidade ou relevância do que se faz para obtê-la; em que o mérito e esforço pessoal podem ser absolutamente ultrapassados ou anulados pela política ou compadrismo perverso; em que fazer rápido é mais desejável do que fazer bem feito; em que o valor da vida humana se relativiza de acordo com seu significado ideológico e não por simplesmente ser uma vida humana como qualquer outra; em que a medicina e a engenharia fundem máquinas, fármacos e técnicas para consertar corpos através de procedimentos precisos, mas que são cada vez mais incapazes de gastar algum tempo para conhecer seus pacientes com um pouco mais de profundidade, através de um interesse genuíno pelo ser que está diante de si; tempos em que o Dr. House (que tem ojeriza ao contato com pacientes) encanta muito mais do que os humanos Dr. Kildare ou Dr. Ben Case, de um passado nem tão distante, jamais sonharam... Enfim, neste momento em que vivemos , penso que livros como “O Físico” de Noah Gordon, além da satisfação lúdica que representam, são um excelente contraponto, um marco de reflexão sobre o que estamos fazendo com nossa civilização. 


Noah Gordon é um contador de histórias, daqueles que tenho valorizado neste espaço desde o início : É daquele tipo que quando descreve um andarilho cozinhando uma carne em banha de porco sobre uma fogueira, sentimos o cheiro, vemos seus fumos se desdobrando no ar , ouvimos a gordura chiar na frigideira e sentimos apetite, vontade de comer algo impensável se fosse descrito sem o brilhantismo de Gordon. Tenho lido seus livros ao longo dos anos e me saciado com sua imensa capacidade descritiva e do humanismo de suas personagens. Embora tenha estudado medicina por um semestre por insistência paterna, tornou-se jornalista e mais tarde escritor. Além de exímio contador de histórias, percebe-se em sua literatura a preferência por temas relacionados à curas, medicina e judaísmo, mas acima de tudo, a cura através do humanismo, da capacidade de entrega de um humano a outro ser.  Das obras que li, O Físico (que faz parte de uma trilogia que conta ainda com “Xamã” e “A Escolha da Dra. Cole”) se destaca francamente pela epopéia humanista de Rob Cole, um jovem inglês, em busca de seu sonho máximo : estudar na melhor escola de medicina do mundo na época (século XI) que se localizava na Pérsia (hoje Iraque) e comandada por ninguém menos que Avicena ( Ibn Sina), um dos maiores polímatas do Islã, versado em múltiplas áreas das ciências e filosofia (estudou e comentou obras greco-romanas, como Platão e Aristóteles), além de ter produzido vários tratados de medicina.  Penso que “O Físico” contém elementos de um grande romance : uma saga pessoal que envolve amor, drama, batalhas, sofrimento, busca e superação, além dos componentes históricos que pontuam a trama, jogando luzes sobre a Idade Média, a “Era de Ouro do Islã”, onde o Oriente era o grande pólo da ciência e da filosofia, enquanto o Ocidente ainda se debatia entre guerras, pestes, invasões e suas consequências – a miséria e a fome.


Rob Cole é um menino inglês, filho de família numerosa e paupérrima, que após a morte dos pais é adotado por um Barbeiro (nome dado aos práticos que percorriam os povoados e cidades da Europa com suas carroças, oferecendo curas, elixires, sangrias e toda sorte de procedimentos “protomedicinais”). Logo se estabelece uma relação de afeto entre os dois e não obstante o Barbeiro ser um verdadeiro “vendedor de óleo de cobra” e um beberrão , consegue transmitir muitos conhecimentos práticos ao menino, fazendo-o descobrir em si mesmo uma capacidade incomum de através do toque, pressentir quando a vida de uma pessoa estava se esvaindo. Rob torna-se apaixonado pela possibilidade de proporcionar cura aos males que afligem os enfermos que buscam no Barbeiro o alívio para seus sofrimentos e percebe que seu toque é um dom que tem algum poder curativo.


Neste ponto o que para alguns pode parecer um dom místico, a mim parece pura e simplesmente uma profunda empatia e a sensibilidade  de perceber e de transmitir conforto ao outro através da capacidade de amar e se entregar a um toque, quando os corpos se tocam, trocam energias e se equilibram.  É notório mesmo para qualquer “médico-engenheiro” , a capacidade de recuperação de um enfermo quando este se encontra amparado psíquica e afetivamente em comparação aos enfermos abandonados em um leito de hospital. Quanto ao “toque curativo”, qualquer pessoa que tenha tido a oportunidade de receber um abraço generoso, receptivo, caloroso e amoroso, sabe o bem estar físico decorrente deste simples gesto. É uma pena que tais abraços sejam tão raros, tão mesquinhamente economizados, tão reprimidos, tão negados como se um corpo só pudesse se entregar a outro se for por motivações sensuais. É uma pena que seja necessário pagar para que um desconhecido toque nossos corpos em clínicas de diversas especialidades, quando estes mesmos corpos se cruzam o tempo todo evitando se tocarem.


Não se trata da crença ( em minha opinião, ingênua) de que passes corporais, impostação de mãos e conversas curem doenças graves, tumores e má formações, mas de entender que qualquer procedimento médico representa apenas 50 % da possível cura, pois somente a resposta do organismo tratado é que poderá completar este processo e para tanto o SER que representa este organismo precisa mais do que técnica para querer se curar.


O nascimento da própria Psicanálise se deu   através da observação de médicos sensíveis o suficiente para perceberem que seus pacientes demandavam mais do que uma receita ou um exame clínico : precisavam ser ouvidos, precisavam se sentir acolhidos e muitas vezes a consulta era curativa por si mesma, sem a necessidade de outros procedimentos.


Voltando à história de Noah Gordon , Rob, após inúmeras aventuras pela Europa Medieval acompanhando o Barbeiro, fica sabendo da existência da Escola de Medicina de Avicena localizada na Pérsia e que só franqueava seu acesso a judeus. Seu desejo de aprender com o maior mestre da medicina da época e de poder curar as pessoas o faz sonhar com a possibilidade de cursar a escola, apesar dos evidentes e aparentemente intransponíveis empecilhos : ele era Inglês, cristão, pobre e vivendo a milhares de quilômetros de distância de seu sonho. Rob empreende então uma fabulosa aventura na busca deste sonho, na qual sua determinação irá ser testada muito além dos limites. Sua viagem rumo à Pérsia é marcada por todo o tipo de percalço, obrigando-o a se desdobrar para continuar vivo e firme em seu objetivo, ao mesmo tempo que conhece o amor, o acolhimento e a bondade daqueles com quem é obrigado a cruzar pelo caminho. Durante seu imponderável e longo percurso, assumiu uma identidade falsa como se fosse um aluno judeu e aprendeu todas as peculiaridades do Judaísmo, seus rituais, símbolos e significados para estar apto a ser admitido na escola, quando lá chegasse.


Aqui, Noah Gordon desfralda as velas de seu poder descritivo e nos leva a uma viagem fascinante por entre os costumes do povo judeu e do Oriente antigo e constrói uma personagem cujo amor e disponibilidade de ajudar o outro só é equiparado com sua força de superação na busca de um sonho praticamente impossível à maioria dos mortais.  Rob Cole não partiu para enfrentar o mundo desconhecido e hostil em busca de fortuna ou de fama, mas para buscar o conhecimento que lhe faltava para ser um bom “Physician”, ou seja, um bom médico. Não obstante tivesse “um dom”, sabia em seu íntimo que este só poderia ser realmente útil se associado ao conhecimento cujo acesso lhe cobraria um árduo preço.
Gordon costura bem a história e nos dá um final bastante satisfatório, sem estardalhaços, sem grandes apoteoses, coerente com o humanismo de sua personagem principal.  



"O FÍSICO" - NOAH GORDON - EDITORA ROCCO - 592 PÁGINAS



terça-feira, 20 de março de 2012

EU FUI VERMEER – A lenda do falsário que enganou os nazistas - FRANK WYNNE

"O QUE FAZ UMA PESSOA EXTREMAMENTE TALENTOSA QUERER SER OUTRA PESSOA ?"



No atual mundo do entretenimento, o que conta é o público, o consumo imediato pela massa ávida de diversão abrangendo vários tipos de arte.  Música, Literatura, Cinema, Teatro (bem menos) são consumidos e descartados rapidamente, enquanto vários talentos são absolutamente desprezados: Instrumentistas espetaculares, vozes esplendidas, escritores sensacionais vagam pelo mundo sem jamais saírem da obscuridade, enquanto artistas bem menos dotados alcançam fama e fortunas estratosféricas : o mercado é medido pelo público disposto a pagar pela arte em forma de diversão. Contudo, alguns tipos de arte têm um consumo mais restrito e não podem ser valorizados pelo público que os querem desfrutar : é o caso da pintura e da escultura, para citar dois exemplos mais comuns. Este tipo de arte requer pura e simplesmente contemplação e é sempre refém de um museu ou colecionador que detém a sua posse.



É muito difícil entender porque o mercado de arte da pintura tem um processo de valorização tão obscuro e complexo, capaz de precificar obras na casa das dezenas de milhões de dólares, quando seu autor viveu e morreu na mais negra penúria. Na verdade, poucos são os talentos da pintura que são agraciados pelo reconhecimento do mercado de arte e raramente isto se dá durante a vida do artista e mesmo quando ocorre, certamente valerá muito mais depois que o mesmo se for, sobretudo porque não poderá produzir nenhuma outra obra, tornando as existentes mais raras. Mas isto não é um vaticínio : alguns pintores conseguiram muito reconhecimento em vida, mas até que ponto uma obra é valorizada pela sua qualidade intrínseca e o quanto é valorizada pelo mito de seu autor ? Como esse mito é construído, como é alimentado ?
O que torna uma obra tão valorizada num momento em detrimento a outro quando foi produzida?  Rembrandt tinha o hábito de repintar suas telas, cobrindo pinturas antigas, por falta de dinheiro para comprar material, morreu na mais completa miséria – Em 2000, teve seu “Retrato de uma dama de 62 anos” arrebatado por US$ 28.700.000 ! Porque Van Gogh só conseguiu vender um único quadro durante toda sua vida, ainda assim para seu irmão, e alcançou em 1990 a espantosa soma de US$ 82.500.000 com seu “Retrato do Dr. Gachet” ?  




Mark Rothko não teve o mesmo destino dos velhos mestres, foi muito bem sucedido e aclamado em vida, mas o que dizer de sua obra “White Center” (abaixo) ter sido vendida por nada menos que US$ 72.800.000 ?


Por mais que Rothko tenha sido um intelectual, por mais que a escola moderna possa criar um milhão de teses e conceitos, por mais que eu mesmo aprecie as cores e a sensação que esta obra desperta, a pergunta que não cala em mim, é : O que há nesta obra que valha esta quantidade de dinheiro ? Qual o critério de avaliação ? Não é possível se pagar pela pintura pura e simples, visto que em termos de técnica não ultrapassa as habilidades de uma criança de seis anos. Pelo que então se paga ?
Outro exemplo : gosto muito da obra de Jackson Pollock, certamente bem mais elaborada do que as de Rothko, mas o que leva esta obra (abaixo) valer US$ 140.000.000 ?





A questão é : Se fosse pela qualidade intrínseca, pela perfeição ou imperfeição, pela personalidade da escolha das cores ou pelo talhe da pincelada, certamente Han Van Meegeren, nascido em 1889 em Deventer, teria suas obras avaliadas no mesmo nível de Johannes Vermeer, o grande mestre de mesma nacionalidade, nascido 250 anos antes. Porém, na época de Van Meegeren , a arte moderna já havia solapado todas as técnicas da antiga escola clássica, nas quais os holandeses tanto se destacavam, inclusive ele. Sua solução foi absolutamente brilhante : Já que com sua técnica não poderia ser um mestre no presente, resolveu tornar-se um mestre do passado - a reencarnação de Johannes Vermeer.




Quem teve o prazer de assistir ao filme “Moça com brinco de pérola” pode ter uma idéia bastante razoável de como foi a vida daquele que é considerado um dos grandes gênios da "Era Dourada" da escola holandesa – Johannes Vermeer . Uma vida recheada de dificuldades financeiras que eram parcamente atendidas por um mecenas, em troca de suas pinturas de cenas familiares. Vermeer preparava seu próprio material e suas tintas e pigmentos saiam de seu atelier a partir de matérias primas como o lápis-lazúli, cinábrio, chumbo branco, índigo, criando tonalidades que marcaram toda a sua obra. Era obcecado pela luz de tal forma, que impedia que as janelas de seu estúdio fossem limpas quando estava em meio a uma pintura, para não distorcer a iluminação que ele captara. 





Este livro é sobre obras primas e também pode ser considerado uma obra prima de seu autor, pois por mais talentoso que Frank Wynne seja, penso que será difícil escrever outra obra tão interessante e bem narrada sobre um personagem tão peculiar : A vida de Han Van Meegeren, o maior falsário de todos os tempos, que conseguiu enganar museus, marchands, e o poderoso Hermann Goering - marechal do Reich alemão, vendendo reproduções feitas por ele das telas de Vermeer com tamanha perfeição, que até hoje pairam dúvidas sobre a autenticidade de alguns trabalhos atribuídos à Vermeer. A descrição do trabalho de Meegeren na busca da perfeição de suas falsificações impressionam pelo detalhismo, pelo gênio na reprodução dos materiais existentes na época de Vermeer e nas técnicas desenvolvidas por ele para o envelhecimento preciso das telas. Em outras palavras, pode-se dizer que Meegeren não apenas tinha a mesma habilidade de Vermeer para a pintura, mas outras tantas que o velho mestre nem sonhava que existiam. Meegeren conhecia além de tudo, a alma dos especialistas, dos marchands, do "mercado do mito", que fê-lo fazer uma fortuna tão robusta que por melhor que desfrutasse sua vida - e ele o fez em grande estilo - não conseguiu dar cabo de todo dinheiro auferido com suas cópias. O livro conta em detalhes suas peripécias e sua ousadia maior - conseguiu vender a tela "Cristo com a Mulher Adúltera" para Goering pelo equivalente atual de US$ 7 milhões. 




Voltamos então à questão : O que se paga quando se adquire uma obra de arte ? Van Meegeren tinha os dotes para ser um grande artista, produzindo obras com sua própria assinatura, mas desde cedo entendeu que estaria condenado à miséria se o tentasse. O mercado do mito estabelece o preço através de critérios duvidosos como também são duvidosos a autoridade e os conhecimentos dos especialistas para atribuir autenticidade a uma obra. Penso que uma vez estabelecido o mito, entra a fartura e concentração de dinheiro do mundo nas mãos daqueles que, na absoluta impossibilidade de adquirir mais objetos que satisfaçam os mais sofisticados e bizarros desejos humanos, aspiram a utopia maior : EXCLUSIVIDADE, propriedade do que é único.




Com o fim da 2a. Guerra, Meegeren foi descoberto e acusado... de entregar o tesouro holandês para os nazistas ! Em outras palavras : foi difícil provar que não se tratava de um quadro original de Vermeer. Uma vez revelada a verdade - tratava-se de uma falsificação e não de traição, foi condenado a apenas um ano de prisão, pena que não chegou cumprir, pois morreu de ataque cardíaco dias antes de ser encarcerado, aos 58 anos. Desnecessário dizer que após a revelação das peripécias de Meegeren, e após sua morte, suas cópias e alguns trabalhos originais também tiveram seus preços bastante inflacionados.

"EU FUI VERMEER" - FRANK WYNNE - Companhia das Letras - 295 páginas.


Destaque para os apêndices do autor que esclarece bastante sobre as técnicas de autenticação atuais, as falsificações (conhecidas) de Meegeren e onde estão os Vermeers verdadeiros (supostamente).