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segunda-feira, 11 de março de 2013


FUGA DO CAMPO 14 – BLAINE HARDEN      

PORQUE PARECE QUE NUNCA APRENDEMOS NADA ?


VISUALIZAÇÃO POR SATÉLITE DOS CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO DA CORÉIA DO NORTE


FUGINDO DE MIM MESMO


Jamais pretendi fazer qualquer coisa próxima à crítica literária, primeiro porque não me sinto capacitado para tanto, segundo porque já existem inúmeros blogs e sites que se dedicam a resenhar e criticar livros e terceiro, e mais importante – os comentários que faço são sobre mim mesmo, através de obras de autores que de certa forma me tocaram e que causaram uma reação que clama ser expressa. Também nunca foi minha intenção declinar, a não ser incidentalmente, posições políticas de qualquer natureza, exceto minha especial predileção pela liberdade e repúdio por qualquer tipo de ditadura. O que clama ser expresso não é ideológico mas humano, demasiadamente humano : são as dores da reflexão sincera, sem a necessidade da certeza do aparato lógico-técnico do que é certo ou errado. Estou  farto de ideologias e hoje eu poderia dizer ao Cazuza: – Não ! Não quero uma ideologia pra viver ! Nosso grande drama não é a morte das ideologias, mas daquele "garoto que ia mudar o mundo" que deixou de acreditar no seu sonho e senso de justiça e passou a acreditar em alguma ideologia que lhe foi vendida, que lhe capturou o sentimento de mudança do peito e lhe imprimiu idéias erradas, sempre erradas. Quando morre a ideologia, e elas sempre morrem, o "garoto que ia mudar o mundo" fica perdido, não tem mais referencial interno, não confia mais em seus sentidos e nada mais resta senão frequentar as festas do "Grand Monde" e permanecer em cima do muro.  Não acho que a solução para esta decepção seja uma nova ideologia : Os hippies dos anos 60 e 70 são os principais atores de um mundo cuja ideologia é o mercado de ideologias, os oprimidos pelas ditaduras de antanho são os opressores atuais, ávidos do poder que antes combatiam. 
Aí eu pergunto... Você já conversou com um idoso ? Refiro-me a um idoso que não esteja ainda cumprindo um papel no "Grand Monde", que já abriu mão de sua participação no teatro social. Ouviu-o ? Ouviu-o de verdade ? Perguntou o que ele pensa de suas ideologias de juventude em comparação com sua visão de mundo atual, com real interesse em compreender sua resposta ? 
Eu vivo fazendo isso... e pelas respostas que ouço, vejo o quanto somos enganados em nossos anos mais produtivos. Deixamos para trás aquilo que era mais importante, mais valioso - uma mente aberta, sem malícia, ávida da vida e do mundo, capaz de extrair puro prazer da simplicidade - trocando tudo isso por uma ideologia e por heróis de papelão, que podem ser governantes, executivos, artistas ou qualquer outra coisa que nos pareça GRANDE o suficiente para nossos sonhos...
O problema é que nossos sonhos só cabem em nós mesmos, sejam eles do tamanho que forem. Por esta razão que repito : Não quero uma ideologia :   Quero minhas memórias de menino que nem sabia o que significava a palavra ideologia. 





Cheguei à conclusão que não se sabe com certeza o que é certo ou errado, apenas se sente e se não é possível sentir isso, então nada do que é pensado tem grande valor, além do retórico. O que acontece é que desde cedo somos instados a acreditar cada vez menos naquilo que sentimos e cada vez mais em alguma ideologia. Somos cooptados pela retórica daqueles que arrogam a si o poder de resolver os problemas da humanidade, desde a espiritualidade até a fome.




Foi por esta razão que ao ler FUGA DO CAMPO 14 , de Blaine Harden, dei um tempo e parei de postar minhas impressões. Precisava digerir vários "desconfortos" que se  agitavam em minha alma.  Fiquei me perguntando porque minha aparente e recente predileção por relatos de dor e sofrimento causados pela privação da liberdade, pelo cárcere algoz dos regimes totalitários, pelas tão repetidas histórias de genocídios e assassinatos em massa. Comecei a pensar porque a partir do século XX, quando os relatos tornaram-se mais e mais públicos a partir de filmes, livros e depoimentos, continuamos calados e inertes frente à eterna capacidade dos humanos em justificar seus delírios de poder. Penso que foi Benedetto Croce quem disse que a “História da Humanidade é a História da liberdade humana”, e o eminente historiador não está errado,  mas talvez o mais adequado seria “A História da Humanidade é a História da dominação de uns sobre os outros”, ou justamente a “História da Ameaça à liberdade humana”, presente em cada segundo de nossa história conhecida – a liberdade do cidadão comum está sempre sob a espada de Dâmocles, seja em tempos de guerra ou de paz, de fartura ou miséria. Talvez tanto Hobbes quanto Rosseau estejam errados : não somos essencialmente maus nem tampouco bons selvagens corrompidos pela sociedade, mas  essencialmente ingênuos, pois esperamos que as soluções venham sempre de fora, do topo de uma consciência que nos é superior. Dependemos eternamente dos grandes pais – ou os Deuses ou os Líderes e em muitos casos, Deuses representados por Líderes!
Vivemos trocando de "chefe" e mesmo quando achamos que não servimos a chefe nenhum, estamos a serviço de nossas crenças, muitas vezes uma verdadeira colcha de retalhos de fragmentos do que nos foi vendido ao longo da vida.




Lembrei-me das desculpas do Ocidente frente ao holocausto judeu – “Nós não sabíamos” – e os recentes massacres em Ruanda, Timor Leste, Darfur, Chechênia, Bósnia ,  sobre os quais o mundo inteiro sabia e se calou tão covarde e absurdamente como antes. Comecei a pensar que a desgraça humana, seus milhares de holocaustos cotidianos só servem para alimentar a indústria midiática : ganha-se dinheiro expondo para os humanos seus horrores, através de notícias, filmes, fotografias, livros, documentários. A espetacularização tão bem descrita por Debord para caracterizar a insanidade capitalista, torna irreal o que foi ato, o que custou sangue e carne, desespero e agonia, transformando a triste história da dominação humana, de uns sobre os outros, em meros folhetins midiáticos, novelas nas quais as vítimas não se levantam nem batem a poeira da roupa após a apresentação.   Se Debord tivesse prestado mais atenção à Gramsci, talvez ampliasse seus conceitos também à insanidade socialista : a espetacularização é uma arma de alienação, não da "burguesia", mas do poder - QUALQUER PODER ! 
Enquanto isso, o poder aboletado reescreve a história nos livros escolares oficiais, a seu bel prazer, “re-significando” o passado à luz da mentirosa revolução das massas, capitaneada por átomos sociais de muito pouca massa cinzenta, mas com o apetite de um buraco negro, devoradores de massas  humanas em troca do vazio retórico.




KIM -II- SUNG - O GRANDE LÍDER
FUNDADOR DA DINASTIA QUE FAZ DA
CORÉIA DO NORTE O QUINTAL DE SEU
PALÁCIO
MAO - O GRANDE TIMONEIRO















Para que serve o conhecimento, se somos incapazes de evitar aquilo que já condenamos ? O que justifica Cuba e seu regime opressor, seus 100 mil mortos políticos e os prisioneiros que foram esquecidos pelo mundo e o que justifica a existência atual de campos de concentração na Coréia do Norte, como o tal campo 14 do qual Shin Dong conseguiu fugir arrastando-se sobre  o cadáver de seu companheiro que lhe serviu de proteção contra a cerca de arame farpado. Isso aconteceu em 2005 e neste exato momento, milhares de norte-coreanos não desfrutam da mesma “sorte” que Shin Dong e continuam entregando pais, mães e irmãos aos guardas, acusando-os de qualquer deslize, real ou imaginário, apenas para receberem um punhado de arroz ou uma migalha qualquer da mesa de seus opressores.




Estamos absolutamente sensíveis ao que é dito, a ponto de achar mais grave uma piada de mal gosto do que um latrocínio, de demonizar qualquer opinião que não esteja inserida na palavra de ordem das massas e suas bandeiras políticas e a ponto de não permitir, em nome da liberdade, que as pessoas expressem livremente suas opiniões. A IDEOLOGIA TORNOU-SE MAIS IMPORTANTE QUE A REALIDADE ! 





Não vejo manifestações pela liberdade, mas pela imposição ou supressão de idéias. 
Vejo gente defendendo a ditadura de esquerda ou de direita, mas não vejo muita gente preocupada com a ditadura que sempre se segue a um processo de Wellfare State implantado por um plano de poder qualquer.


INTERROGATÓRIO NOS PORÕES NORTE-COREANOS

Assim como os nossos brilhantes jovens militantes brasileiros disseram na recente visita da blogueira Yoani Sánchez – “Os cubanos não reclamam!!!”, podemos dizer o mesmo dos norte-coreanos – não se vê nenhum norte coreano reclamando de nada... porque será? Só ouvimos falar, pela mídia, dos testes nucleares que o herdeiro da loucura familiar assistida pela corja de sub-comandantes que gozam de uma vida absolutamente superior a da população e para os quais bajular um moleque ungido pela dinastia é altamente vantajoso. Diga-se de passagem, nem os russos e ucranianos reclamaram nada ao longo de décadas e os crimes cometidos em nome do "Regime do Povo", ainda estão brotando dos arquivos recém abertos da extinta URSS, ainda que os da temível KGB jamais venham a público. 
O mesmo mundo que bajula Barack Obama o presidente da nação mais poderosa da terra, acusa e hostiliza a tal blogueira (por quem não tenho nenhuma simpatia em especial) de ser agente da CIA, como se Obama e CIA fossem coisas absolutamente distintas e o primeiro não fosse o comandante em chefe da segunda. Não querem dialogar com a blogueira, nem expor suas discordâncias, mas simplesmente impedi-la de falar, de dar entrevistas de expor suas opiniões – não importa se a serviço da CIA, de Fidel ou dela mesma.

MANIFESTAÇÕES LEGÍTIMAS E DEMOCRÁTICAS, NÃO FOSSE O FATO
DA BLOGUEIRA TER CANCELADO VÁRIAS ENTREVISTAS PORQUE
SIMPLESMENTE NÃO A DEIXAVAM FALAR.
O mesmo mundo que expulsa o diretor de cinema Lars Von Trier do festival de Cannes, porque ele tentou expressar que compreendia Hitler (sabe-se lá o que ele ia dizer e acabou não dizendo), é absolutamente conivente, ou no mínimo silente, em relação aos atualíssimos campos de concentração e extermínio da Coréia do Norte e com os filhotes da ditadura socialista que ainda assolam países pouco desenvolvidos, sem noção de história, petrificados pela poesia de um filho do idealismo alemão (mais um, como Hitler) que dizia ele mesmo não acreditar no que escrevia. 
Mais uma vez o ranço ideológico fazendo as vezes de fatos - não há nada de errado com as ações de justiça social e distribuição mais equitativa de renda, e com políticas promotoras de cidadania. O que sempre dá errado é a criação de um monstro estatal que se arbitra o poder supremo através da glorificação e do culto à personalidade, não importa qual a bandeira que empunhe.


PROVAVELMENTE SER O QUINTAL DA CHINA COMUNO-CAPITALISTA
 TEM SUAS VANTAGENS

Como podemos permitir que existam regimes como os da Coréia do Norte ? Como conseguimos ser esquizofrênicos a ponto de cindir a realidade entre o que pensamos e o que vivemos ? Como podemos ainda permitir e lustrar o ego de caudilhos, fazendo vistas grossas à sua retórica populista que ao mesmo tempo que estende a mão aos mais necessitados, cobra devoção e não tolera qualquer tipo de discordância ou oposição ?




O livro não é excepcional e jamais se tornará um clássico. Trata-se de um livro simples, uma espécie de relato jornalístico que o autor faz a partir de uma série de entrevistas realizadas com Shin Dong – hyuk, um sobrevivente que nasceu em cresceu num campo de concentração da Coréia do Norte, o campo 14, ao norte da capital Pyongyang, destinado aos prisioneiros considerados irredimíveis, até sua fuga espetacular em 2005, aos 23 anos.   
Shin Dong-hyuk nasceu por uma concessão dos guardas do campo de concentração que permitem o intercurso sexual entre prisioneiros desconhecidos, como um prêmio, sobretudo à delação de inimigos do regime norte-coreano ou daqueles que infringirem alguma das dez leis de conduta do campo 14, que se resumem em :

1 - Não tente fugir.
2 - É proibida a reunião de mais de dois prisioneiros.
3 - Não furte.
4 - Os guardas devem ser obedecidos de maneira incondicional.
5 - Qualquer pessoa que veja um fugitivo ou pessoa suspeita deve denunciá-lo prontamente.
6 - Os prisioneiros devem se vigiar uns aos outros e denunciar qualquer comportamento suspeito.
7 - Os prisioneiros devem mais que cumprir a tarefa que lhes é designada a cada dia.
8 - Fora do local de trabalho, não deve haver nenhuma convivência entre sexos por razões pessoais.
9 - Os prisioneiros devem se arrepender sinceramente de seus erros.
10 - Prisioneiros que violam as leis e regulamentos do campo serão fuzilados imediatamente.






DESENHOS DE SHIN DE SUAS MEMÓRIAS DO CAMPO 14
SHIN DONG 




















Shin aprendeu esta lição junto com a fala e seu instinto de sobrevivência foi tão instigado pelos maus-tratos e castigos, que tornou-se absolutamente natural denunciar sua própria mãe e irmão, entregando-os à morte, às quais teve que assistir e pelas quais não pôde lamentar, pois não sabia o que era compaixão ou culpa. Mas quando, aos 23 anos, Shin conseguiu fugir, com seu código de conduta bárbaro, teve que enfrentar um desafio ainda maior – a estranheza de um mundo em que se falava de amor, compaixão, culpa e responsabilidade, palavras para as quais não havia nele quaisquer referenciais, mas que também vive mergulhado em ambiguidades  onde o bem e o mal se misturam por vezes de maneira confusa. Contudo suas memórias o condenavam e rapidamente ele tomou consciência de seus atos, mesmo com o apoio de pessoas que se sensibilizaram com sua história, mesmo conhecendo uma pessoa que finalmente poderia amá-lo sem medo.  Como relato jornalístico, o livro é conciso e dá uma panorâmica geral sobre a Dinastia Kim que estrangula a vida dos norte-coreanos com mão de ferro, mas também dá uma visão de sua antítese - a Coréia do Sul, que aderiu a um governo liberal, ao estilo Ocidental, porém com uma competitividade incitada pelo mercado que torna este povo tão paranoico em relação à sua produtividade, que no final do expediente, após um dia intenso de trabalho... simplesmente não conseguem ir para casa.  

" Os sul-coreanos trabalham mais, dormem menos e se matam numa taxa maior que os cidadãos de qualquer outro país desenvolvido segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), um grupo que apoia o crescimento econômico sustentável em 29 países ricos " - pág. 190 



CORÉIA DO SUL - A MÃO DO MERCADO PODE SER INVISÍVEL
MAS PESA TANTO QUANTO A DE UM DITADOR
É absolutamente incrível a tendência do humano à servidão - não importa se a um déspota ou a uma imagem criada pelo mercado que nos diz que a busca da felicidade é uma obrigação e que esta felicidade está necessariamente vinculada ao que você pode adquirir. Parece que não conseguimos enxergar nada além de soluções cujo centro é desde sempre a Economia, reduzindo o existir humano à eterna luta de classes ou à eterna competição do "livre" mercado. Não há outras propostas consistentes e críveis , pois todas as que surgem são mercadizadas ou ideologizadas - basta ver no que se transformaram as propostas de sustentabilidade, ecologia, aquecimento global, energia limpa, etc.  Se este livro me impeliu a meses de reflexão, não há como não recomendá-lo, esperando que sirva para outras pessoas refletirem.
Shin Dong faz palestras pelo mundo, narrando o que viveu no campo 14 e sua difícil adaptação ao mundo externo ao campo... espero que se algum dia ele venha ao Brasil, não seja impedido de falar, por suspeita de ser anti-norte-coreano (ELE EFETIVAMENTE O É) , ou de estar a soldo dos malditos ianques imperialistas. 


PS - Continuo com muitas aflições pululando em minha alma, não mitigadas pela reflexão. 








FUGA DO CAMPO 14 - BLAINE HARDEN -  EDITORA INTRÍNSECA -  230 PÁGINAS.




domingo, 11 de março de 2012

CRÔNICA DE UM VENDEDOR DE SANGUE – YU HUA



"Nascemos com o incrível dom de conhecer a realidade, a despeito do que nos contam sobre ela. Não são os livros nem as versões oficiais que nos mostram como as coisas são, mas nossa própria inteligência, desde que aprendamos a confiar nela." - Eliseu Gonçalves


O século XX não foi bom para o povo chinês – guerras, revoluções e fome ceifaram milhões de vidas, tingindo de vermelho para sempre as lanternas que iluminam o futuro da China. Desde a revolução de 1911 que acabou com mais de 4 mil anos de dominação das dinastias, o povo chinês viveu toda a sorte de dificuldades na tentativa de se erguer como nação. Guerra civil, invasão japonesa em 1937 e a Revolução Comunista a partir de 1949 e Mao – um capítulo à parte na história da China que trouxe grandes esperanças antes de se transformar num verdadeiro terrorismo de estado a partir da segunda metade do século passado.


Admiro muito o povo chinês sobretudo pela sua capacidade de superação da adversidade, sua resistência à fome, ao desconforto e à falta de privacidade mínima. Conheci na atualidade vários chineses que vivem no Brasil, sem conhecer o  idioma, trabalhando vinte horas por dia e se aglutinando de dez a quinze pessoas num apartamento de 70 m2. Adotam um nome “brasileiro” e conseguem se comunicar apesar de toda a dificuldade. Vivem numa condição muito ruim, mesmo pelos nossos padrões terceiro-mundistas, e isto nos faz pensar que eles estão tentando fugir de algo bem pior. Outro dia por acaso, estava navegando na internet e encontrei uma notícia que me deixou chocado : que o destino ou paradeiro do rapaz que, no final dos anos 80, se postou na frente de uma fileira de tanques na praça da paz celestial, impedindo-os de prosseguir apenas com seu corpo, sem qualquer tipo de arma ou atitude agressiva,  continua sendo um mistério, depois de mais de vinte anos ! Era apenas um movimento estudantil, pacífico que se rebelava contra a tirania comunista e que foi covardemente massacrado por tanques e pelo exército. Há quem diga que o mesmo foi fuzilado, outros que foi preso e outros ainda que dizem que ele está vivo, bem e morando em Taiwan. A falta de informação confiável continua sendo uma arma poderosa do regime. Interessante pesquisar que na época, um eminente professor de relações internacionais da USP - a mesma universidade que combate a PM em seu campus e que repudia qualquer ação policial sob qualquer justificativa - defendeu a ação do governo chinês, como sendo "essencial" para a manutenção do controle social do país. A foto deste episódio está listada como uma das mais importantes do século XX.


A arte chinesa é absolutamente encantadora e a literatura certamente faz parte deste contexto. Yu Hua nasceu em Zhejiang, em 1960. É contista, ensaísta, e autor de romances. Em 2002, tornou-se o primeiro escritor chinês a receber o James Joyce Foundation Award. “Viver”, publicado em treze países, foi agraciado na Itália com o prêmio Grinzane Cavour, em 1998. Sucesso de crítica e público no mundo todo, ganhou versão cinematográfica dirigida por Zhang Yimou, premiada em Cannes e no Globo de Ouro. Filho de pai e mãe médicos, Hua passou sua infância em hospitais, onde assistia diariamente as enormes filas de camponeses que se formavam diante dos bancos de sangue para aumentarem sua escassa renda em pleno vigor da Revolução Cultural Maoísta. Foi nesta experiência que se inspirou para escrever “Crônica de um Vendedor de Sangue”, traduzido e publicado no Brasil pela Companhia das Letras no ano passado.
O livro acaba por ser um retrato de um povo, de uma época onde a fome, a escassez, a falta de trabalho e o despotismo do exército vermelho sob comando do Grande Timoneiro, despertavam o pior e o melhor do humano.


O romance conta a história de Xu Sanguan, um operário de uma fábrica de seda, cujo trabalho era empurrar um carrinho com casulos de bicho da seda para as operárias fiandeiras, durante todo o expediente.  Neste período, conhece dois camponeses que revelam uma atividade extra que praticam, totalmente estranha para Xu Sanguan : vendem sangue de tempos em tempos para o banco de sangue do condado, comandado pelo chefe de sangue Li, um funcionário público nojento e inescrupuloso que faz da doação de sangue um negócio para tirar vantagens pessoais. Para tanto, os dois revelam a Xu Sanguan, todos os macetes desta atividade, no intuito de receber o máximo possível, preservando suas vidas. Eles bebem várias tigelas de água antes da doação, para afinarem o sangue e terem mais para doar, o que lhes rendem o equivalente a seis meses de trabalho no campo. Depois da doação, vão ao restaurante Vitória comer um prato de fígado de porco frito e duas doses de vinho de arroz amarelo para se recomporem. Xu Sanguan aprende que esta atividade pode salvá-lo nos tempos difíceis e que o que ganhava com a doação era dinheiro de sangue e não dinheiro de suor, e que deveria ser gasto apenas com coisas muito importantes. Xu Sanguan conhece Xu Yulan,  uma moça da vizinhança que era conhecida por fritar roscas pela manhã, e decide se casar com ela, embora ela já estivesse comprometida com outro rapaz, He Xiaoyong, que lhe fazia a corte cobrindo seu pai de favores. Ainda assim, Xu Sanguan consegue seu intento e acaba constituindo com ela sua família, com três filhos homens.


A descrição da vida das pessoas daquele vilarejo é prosaica, revelando a simplicidade de suas vidas, seus parcos pertences, seus casebres cujas mobílias enchiam um triciclo. A vida de Xu Sanguan e Xu Yulan é marcada por desavenças e turras de ambos e se agrava quando Xu Sanguan desconfia que seu primeiro filho, Yile, não se parece nada com ele, mas com He Xiaoyong, o que mais tarde será confirmado : He Xiaoyong é o verdadeiro pai de Yile. Não obstante a infidelidade da esposa, a família continua em sua luta diária pela a sobrevivência e os acontecimentos vão fortalecendo as relações de Xu Sanguan com Yile, tornando-o seu filho predileto. Xu Sanguan acaba sendo obrigado a vender seu sangue inúmeras vezes para tentar salvar sua família da miséria e do desastre financeiro que parece não ter fim.


As coisas pioram ainda mais quando advém a Revolução Cultural, perseguindo qualquer pessoa que tivesse qualquer propriedade tornando-as  inimigas do povo, a justiça oficial e os magistrados foram defenestrados e substituídos pela justiça popular, onde qualquer pessoa do povo podia escrever suas acusações sobre qualquer outra pessoa, colá-las nas paredes e nos postes e exigir que fossem justiçadas por tribunais populares.  A família de Xu Sanguan é atingida duplamente : Xu Yulan é acusada de prostituição (por causa de seu primeiro filho com He Xiaoyong)   e obrigada a ficar de pé, diariamente, em praça pública com uma tabuleta escrita “Prostituta”, pendurada no pescoço à disposição de seus “juízes”. Além disso, o Grande Timoneiro exige que as famílias enviem suas crianças para trabalhar no campo, podendo ficar com apenas uma delas em casa. São estes momentos em que fazem aflorar o melhor do humano – Xu Sanguan e Xu Yulan se apoiam, se ajudam e se unem para salvar a vida de Yile, que acaba por ficar doente, após alguns anos da vida impiedosa dos campos. Apesar da dureza da vida das personagens e das misérias humanas expostas em todas as suas dimensões, e talvez por esta razão, “Crônica de um Vendedor de Sangue” é um livro sutil, cuja construção das relações se dá sem lampejos de revolta ou indignação, mas como fruto da necessidade imperiosa de apoiar um ao outro pelo simples prêmio de continuar vivendo. Um pote de arroz se transforma no maior bem que uma família pode almejar e a capacidade de superar as crises pessoais em favor da vida, a maior força que um simples camponês pode arrancar não da terra crestada, mas de suas próprias vísceras.


Esta época retratada por Yu Hua, final dos anos 50, foi o “Grande Salto Adiante” de Mao e cujo legado deixou nada menos do que 30 milhões de mortos na China.
Na atualidade, a China assumiu uma posição chave na economia mundial, através de seu processo de industrialização que barateou a fabricação de bens de consumo enormemente. Confesso que temo que o século XXI também não seja bom para a China, com uma diferença: não é só Iphones e Ipads baratinhos que a China tem exportado. Muitos países parecem encantados com a possibilidade de uma economia capitalista ou como  gostam de chamar de “Capitalismo de Estado”, mas com um regime autoritário comunista, de controle e intervenção na vida privada pelo bem do povo, controle da mídia e da internet, sob a égide de proteger a verdade e a liberdade, câmeras para todos os lados que só servem para fabricar filmes de horror em tempo real e leis de restrição que não diminuem em nada a violência e a degradação da qualidade de vida das pessoas. 


O que as pessoas menos afoitas, menos hipnotizadas pela ganância e pelo consumismo podem observar na China é que sua economia se torna cada vez mais robusta, mas que isto não tem se traduzido em qualidade de vida para a maioria de seu povo – o número de suicídios de jovens no topo de fábricas de alta produtividade revelam isso, assim como as cidades fantasmas construídas anualmente, que tornam o PIB chinês um fenômeno mundial, mas que estão abandonadas ao tempo, por falta de compradores. A classe emergente chinesa abrange um Brasil : quase 300 milhões de pessoas, porém existem mais de um bilhão de pessoas que vivem com muita dificuldade e a liberdade de pensamento e expressão não estão entre os itens produzidos pela pujante economia chinesa.




"CRÔNICA DE UM VENDEDOR DE SANGUE" - YU HUA - COMPANHIA DAS LETRAS -  270 PÁGINAS.


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

SÓCRATES E A ARTE DE VIVER


“Uma vida que não é constantemente examinada, é indigna de ser vivida”



Hoje este Blog está fazendo um mês de vida e em comemoração, resolvi prestar uma homenagem àquele a quem considero o maior pensador de todos os tempos, sobretudo porque viveu e morreu rigorosamente de acordo com seus mais profundos ensinamentos que remontam quase 2500 anos : Sócrates.
Não bastasse a genialidade e a atualidade de seus pensamentos, continua absolutamente notável que Sócrates não tenha escrito uma linha sequer durante toda sua existência, transmitindo suas idéias e métodos de forma oral para seus discípulos. Conhecemo-lo a partir da obra de Platão, sobretudo pelos “Diálogos”, em que Sócrates figura praticamente como uma personagem sua, Xenofonte que o glorifica e Aristófanes que o combate e satiriza.

O livro ao qual me refiro neste espaço não dispensa absolutamente a leitura dos diálogos de Platão, da Obra de Xenofonte – “Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates” ou o excelente “O Julgamento de Sócrates” de  I. F. Stone, que dão uma noção bastante clara da dimensão do ateniense, mas considero esta pequena obra de J. C. Ismael – “Sócrates e a Arte de Viver – Um Guia para a Filosofia no Cotidiano”, uma síntese espetacular e absolutamente aplicável no dia-a-dia das pessoas em pleno século XXI.

Não se trata de uma receita – a leitura destas lições deixará isto bem claro - pois tal receita não existe. Se existisse, o maior fundamento do pensamento socrático ruiria. Contudo, cada um destes dez pontos que selecionei da obra, fez-me refletir muitas vezes e tais reflexões me socorreram em muitos momentos em que havia “me esquecido” que era uma tolice levar-me tão a sério ou temer o que quer que fosse.   


Sócrates mostrou que a busca da verdade - e não necessariamente o seu encontro- não passa pelo cosmo ou pela natureza, mas pelo território sagrado da alma de cada pessoa disposta ao difícil enfrentamento da tarefa de transformar-se nela mesma.

AS DEZ LIÇÕES DO SOCRATISMO -

  1. Cuide da Alma – Cuidar da alma, missão suprema e indelegável do homem, é cuidar de si. O cuidado de si implica estar em confluência com o mundo, mas ao mesmo tempo, protegido das tentações que perturbam a intimidade, buscando-se na solução serena, e não na opinião dos outros, a resposta para as dúvidas e a libertação das incertezas. Preocupar-se com a alma sem descuidar-se do corpo, mantendo-o saudável e ágil ; é afastá-lo do perigo dos prazeres mundanos, fáceis e efêmeros que embotam os sentidos. Sendo a vida uma experiência intransferível, só os covardes e os fracos delegam a outros, a condução dos seus atos. A descoberta de si não se realiza num único, mas em contínuos exames, uns mais, outros menos reveladores – nenhum desprezível. Esses exames significam perguntar-se principalmente, se quem o faz está vivendo a vida que deseja, se sua vontade prevalece sobre a dos outros, se seus objetivos estão sendo alcançados, se seus amigos são verdadeiros. Porque quem não examina sua vida com persistência e coragem, modificando-lhe os rumos quando causam mais sofrimento que alegria, está condenado a extinguir-se sem nada a acrescentar à fatalidade da decadência biológica.
  2. Tome conta de sua vida – Tomar conta da própria vida não é uma tarefa fácil : exige eterna vigilância sobre a tentação de delegá-la a outros, de se julgar indigno de ser merecedor das próprias conquistas, enfim, de se diminuir perante si mesmo. A arte de viver passa necessariamente pela incansável missão de ver a vida como uma dádiva preciosa demais para ser descuidada, abandonada aos caprichos do acaso, desprezando a necessidade de aperfeiçoá-la através do estudo e da meditação.  Tomar conta da vida exige também atenção para que a vida do próximo não tenha importância desmedida, o que pode levar ao desinteresse pela própria.
  3. A liturgia da amizade – Amigos verdadeiros cultivam ideais elevados e lutam contra o antagonismo que brota naturalmente da convivência prolongada, lembrando que ela faz parte da natureza humana. Entre amigos, o único interesse que deve prevalecer é a alegria da convivência, sem disputas de qualquer natureza, não permitindo que a inveja e a tolerância cínica, maculem a pureza da relação.
  4. A natureza do amor – O amor é a experiência que mais aproxima o humano do divino. Porém, é preciso examiná-la – eis aí um aparente paradoxo – sem paixão, mas com a objetividade que parece prejudicar o seu verdadeiro entendimento, necessário para fugir de uma retórica vazia que nada define. Ao desejar o amor do outro, deve conhecer-se profundamente e não pretender privá-lo de nada que o impeça de ser ele mesmo, orientando-o, caso esse conhecimento lhe falte, a buscá-lo com determinação. Para que a relação entre os amantes seja longa e verdadeira, eles devem compartilhar com o mesmo delírio a essência traduzida na admiração mútua de seus corpos e na consciência das nobres qualidades das suas almas, alimentando-as na parte virtuosa e derrotando a viciosa.
  5. O que é ser livre – Na busca da liberdade o homem só abandona a ilusão de tê-la encontrado quando se convence de que sem conquistar a si mesmo não a alcançará; e, quando exercer o autodomínio com a mesma naturalidade com que respira, poderá dizer que é verdadeiramente livre e sábio, e não lhe ocorrerá ensinar  a liberdade a quem nunca a possuiu, ou conformou-se em tê-la perdido. A liberdade só é autêntica quando não depende de nada exterior, mas do conhecimento que precisa existir das suas limitações e da autonomia em relação a qualquer influência que possa desviá-las do aperfeiçoamento interior.
  6. Quando transgredir é salvar-se  - Obedecer não é submeter-se cegamente, mas estar em harmonia com a liberdade e vontade interior, lutando com todas as forças para que não sejam usurpadas. Viver bem significa satisfazer-se com as próprias convicções, porém não as considerando imutáveis ou definitivas : sem a prática do exercício da dúvida, nenhum modo de viver é autêntico. O transgressor não necessita justificar seus atos porque, desconhecendo o sentimento de culpa, pratica a mais elevada forma de liberdade – a que brota da fonte principal do direito positivo, que  por sua natureza está além do arbítrio dos homens. Portanto, aquele que transgride o que o impede de viver bem, está no caminho correto da salvação de si mesmo.
  7. O indivíduo e o cidadão – O indivíduo e o cidadão desempenham papéis distintos na sociedade. Desde que nasce, a criança raramente é educada para ser ela mesma, mas mero representante da cidadania, ou seja, alguém cuja vida é pautada pelas convenções da sociedade em que vive. O viver bem consiste pois, no auto-conhecimento que permite em primeiro lugar, discriminar precisamente os dois papéis e no exercício cotidiano de ambos, sabendo-se o que pertence a um ou a outro.
  8. Não se leve a sério – Não se levar a sério significa questionar constantemente os próprios valores, trocando-os por outros sempre que isso possa enriquecer o conhecimento; mas significa principalmente encarar a vida com humor, transmitindo-o as outros que o cercam como antídoto para os inevitáveis sofrimentos do cotidiano. Sabendo que a verdade  última jamais será alcançada, e que levar-se a sério equivale, entre todas as coisas, a ter certeza de ter encontrado tal verdade.
  9. Tenha somente o necessário -  O homem que se conhece verdadeiramente, mediante o exame e a prática da virtude, está livre da tentação de possuir bens materiais além dos estritamente necessários para a vida. Contentar-se com o que possui está entre os mandamentos do viver bem, e, diante das múltiplas ofertas ao seu dispor, alegrar-se por não precisar de nenhuma delas : as coisas indispensáveis são muito poucas.
  10.  Viva a arte de morrer – A vida pode parecer curta para a preparação da morte, mas não o é para aquele que se empenha em viver bem, em praticar a virtude e principalmente em se ocupar da filosofia – porque se ela ensina a viver, ensina também a morrer. A mais bela das mortes é aquela que pode ser chamada de separação heroica da vida, mas só conhece a alegria dessa experiência quem viveu com inquietação e curiosidade. Preparar-se para a morte é o contrário de sua negação : é transformá-la numa companhia, tendo-a sempre presente na vida diária, como se fosse um sagrado aprendizado cujo ápice talvez seja submergir num sono eterno, sem nenhum sonho a perturbá-lo.



A morte de Sócrates é um episódio particularmente importante, pois ele teve todas as chances possíveis para safar-se da sentença que lhe foi atribuída por ser contra a democracia ateniense, atacar os deuses impostos pelo Estado e corromper os jovens. Porém, ele não aceitou quaisquer saídas que o fizessem abjurar de suas idéias, aceitando a morte com a placidez com que sempre a encarou em vida.







SÓCRATES E A ARTE DE VIVER - J. C. ISMAEL - AGORA EDITORA - 2004 - 160 PÁGINAS

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O FIM DA INFÂNCIA - A SUPREMACIA DO POSSÍVEL

“O Ministério da Saúde adverte : Liberdade em excesso pode fazer mal à felicidade”



Sempre apreciei muito o gênero de ficção científica e sobretudo em minha adolescência, dediquei grande parte de minhas leituras a Isaac  Asimov e Artur C. Clarke, os grande pais do gênero e criadores de obras maravilhosas como 2001 – Uma Odisseia no Espaço – de Clarke e Eu, Robô – de Asimov, que embalaram a minha geração e foram magistralmente adaptadas para o cinema. Um pouco mais tarde entra em cena Philip K. Dick com seu excepcional Blade Runner, também adaptado para o cinema,  marcando a transição da ficção científica para o cyberpunk, que associa todas as conquistas da informática e da eletrônica às inquietações  de uma nova geração que tem os mesmos dramas históricos e filosóficos das anteriores. William Gibson, Bruce Sterling e John Shirley são os pais desta nova ficção - Neuromancer, Monalisa Overdrive, Count Zero, etc. Gosto de todos eles mas, em minha opinião, Artur C. Clarke está no topo da pirâmide. Foi por esta razão que me surpreendi quando recentemente tive em minhas mãos  o romance “O Fim da Infância” de sua autoria, pois não o conhecia nem de passagem.



O Fim da Infância foi escrito o início da década de 50 e, exceção feita à tecnologia que evoluiu bastante nesses mais de sessenta anos, permanece bastante atual do ponto de vista do drama humano : a luta pela felicidade suprema em oposição à luta pela liberdade suprema.
Isto me faz pensar sobre a predileção que os humanos têm pelo “supremo”, pelo superlativo absoluto, pois nada parece ser o bastante se não atingir a supremacia, ou pelo menos se encaminhar consistentemente para ela. O grande problema, ou o “problema supremo”, como tanto agrada aos humanos, é que "supremo" é apenas uma meta e é inimiga mortal do equilíbrio e portanto, quanto mais próximo do supremo em algo, mais distante do supremo em outro algo que se lhe opõe . Isto não parece um problema, se os “algos” aos quais me refiro não forem igualmente importantes ou se não forem opositores entre si, o que parece ser justamente  caso da felicidade X liberdade. É claro que as definições de felicidade e liberdade são muito amplas, mas parece haver uma relação intrincada entre estes atributos que se colocam como os maiores anseios da humanidade em todos os tempos. O modelo contemporâneo de felicidade é muito semelhante ao retratado no livro de Clarke : acesso a bens materiais, lazer e prazer imediato.  Exceto se você for um asceta ou um monge budista, na maioria das vezes o aumento do nível de um ocorre em detrimento ao nível do outro : a cada objeto que possuímos, a cada relacionamento conquistado, a cada degrau de status alcançado, um pouco de nossa liberdade se esvai.



No romance de Clarke, a humanidade, às portas do século XXI,  está à beira do caos : miséria, violência, corrupção desmedida estão levando a civilização à autodestruição, quando se descobre que não estamos sozinhos e que existe vida inteligente em outros recônditos do Universo. Neste contexto, a Terra recebe a visita de naves espaciais oriundas de uma civilização extremamente mais avançada, que pairam sobre as principais cidades do planeta, sem contudo fazer contato de imediato. Quando resolvem se comunicar, os extraterrestres revelam seu objetivo de ajudar a civilização humana a resolver todos os  problemas que a estão levando à destruição. Contudo, os visitantes não se mostram fisicamente para os humanos, mantendo contato e emanando decisões através de um único humano escolhido para ser o Secretário e que mantém reuniões periódicas com o Supervisor da Raça Humana em uma das espaçonaves, que jamais aterrissam. O Secretário também não  pode ver o Supervisor, apenas fala com ele numa sala especial, onde recebe instruções e dá informações, que oculta a aparência do alienígena, mas permite uma conversa direta entre ambos, sem a mediação de aparelhos.



O que se segue a esta intervenção são décadas de paz absoluta e prosperidade na Terra, onde as guerras são eliminadas, a miséria e a violência são substituídas por abundância e possibilidades ilimitadas de lazer. Durante este período idílico, os alienígenas são chamados pelos humanos de “Senhores Supremos”, pois possuem uma tecnologia e um poder impensáveis para a humanidade, que apenas pode se beneficiar deles. Desnecessário dizer que, não obstante a Era Dourada em que a humanidade está vivendo, surge um grupo de descontentes com a interferência alienígena, alegando a perda da liberdade em troca de simulacros de prosperidade e felicidade e que na verdade, os humanos haviam se tornado escravos dos alienígenas. Instala-se então uma espécie de Talibã anti-alienígena, que lutará, em vão, para que a Terra saia do jugo dos Senhores Supremos.



É neste ponto que a história de Clarke deixa de ser ficção e passa a ser fiel ao “espírito humano”: O humano é incapaz de permanecer em paz por grandes períodos de tempo, assim como é incapaz de se manter estável , equilibrado e feliz. O humano parece preferir a “liberdade vazia” (aquela que segundo Max Stirmer não dá nada ao homem) do que manter-se ligado indefinidamente a algo que não lhe dê a sensação de estar no controle da situação. Refiro-me à sensação porque é exatamente disto que se trata : apenas uma sensação, uma ilusão de poder controlar seu destino, embora este esteja de fato à mercê de um sem número de variáveis que ele sequer conhece. Mesmo quando ligado a estruturas que o ajudam e protegem (como a família, a sociedade, o trabalho, o direito, etc) o humano se transforma sempre numa espécie de sabotador, porque em algum momento não se sentirá plenamente satisfeito. Para o bem da nossa civilização, na maioria dos casos, a reclamação contumaz e os pequenos desvios de conduta dão conta de manter esta insatisfação constante sob controle, evitando males maiores. Igualmente para o bem da nossa civilização, alguns (e apenas alguns) vão além e acabam por promover uma ruptura, um avanço, nem sempre positivo, mas que servirá de guia para os “reclamões”  virem logo atrás, muitas vezes contra a vontade – parece que é mais ou menos  assim que temos construído nossa evolução.



Voltando à história, Clarke acerta em imaginar uma ilha, chamada de Nova Atena, como uma experiência dentro da trama, que só é possível em grupos de no máximo 100.000 pessoas de cada vez, já apontando para o problema que constitui os grandes ajuntamentos humanos e o caos decorrente na vida das grandes metrópoles.   

O final do livro pode ser interessante para alguns, sobretudo aos adeptos da Nova Era, mas confesso que não o julgo como o ponto forte do livro. Enfim, é um livro de ficção ao bom estilo de Artur C. Clarke e foi muito bom tê-lo encontrado, mesmo numa época de minha vida em que o gênero já não me atrai tanto.






"O FIM DA INFÂNCIA" - ARTUR C. CLARKE - EDITORA ALEPH - 319 PÁGINAS
Destaque para esta edição da Aleph, que traz uma revisão feita por Clarke no final dos anos 80 (o livro foi escrito em 1953) do primeiro capítulo, reescrevendo-o. Contudo foi mantido o texto original, por decisão do próprio autor.