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segunda-feira, 14 de maio de 2012

PARTÍCULAS ELEMENTARES – MICHEL HOUELLEBECQ

"Nós, em geral, sabemos onde estamos em relação à realidade e não queremos saber mais nada sobre ela."




No início deste século, fui surpreendido por um autor francês do qual nunca havia ouvido falar: Michel Houellebecq.  Partículas Elementares foi o primeiro livro que li deste autor e fiquei absolutamente hipnotizado por sua narrativa e pela sua habilidade em tratar de assuntos   complexos com a mesma desenvoltura com que trata dos simples. Ao mesmo tempo em que discorre com fluidez teses científicas, denotando uma cultura acima da média neste campo, narra intercursos sexuais com a máxima riqueza de detalhes, que pode parecer desnecessário, mas confesso que não vejo uma linha deste livro que não devesse estar onde está.


MICHEL HOUELLEBECQ

Houellebecq é um autor polêmico que alinha sua mira afiada sobre o declínio da civilização ocidental na pós-modernidade, quando os humanos começam a perceber que a substituição de Deus e da religião pela ciência e pela racionalidade não conseguiu realizar nem a promessa de descobrir o sentido da vida, nem tampouco a de descobrir a fórmula da felicidade. Com exceção de “O Mapa e o Território”, que acabou de ser lançado no Brasil, li toda a sua obra traduzida para o português : Extensão do Domínio da Luta; Plataforma; A Possibilidade de Uma Ilha; Partículas Elementares. Em todos eles percebo no autor os traços desta decepção pós-moderna, de uma melancolia que, como diria Emil Cioran, é bem mais branda que a tristeza, pois carece de um objeto externo específico, porém é mais duradoura, pela falta mesma de objeto específico. A melancolia é um processo solitário, interno, que só pode deixar-se entrever nas atitudes e na escrita de quem a possui. Vejo na obra de Houellebecq, um eixo tripartite que trespassa seus romances de forma inequívoca : 1) A decepção com a pós-modernidade, 2) A decepção com o hedonismo, sobretudo sexual e 3) A esperança de uma reforma do humano através da engenharia genética e das técnicas de clonagem.


Sua escrita chega a ser brutal em alguns momentos e alguns críticos execram a sexualidade explícita e exacerbada de parte de suas tramas, mas penso que este tipo de análise é absolutamente superficial, com laivos da pandemia do Politicamente Correto que se espalha pelo globo terrestre nas últimas décadas : Não há obscenidade maior, pornografia perversa mais elaborada do que aceitarmos placidamente que um comediante saia algemado de uma casa de espetáculos porque contou uma “piada preconceituosa” e um assassino confesso saia pela porta da frente de uma delegacia, com direito à entrevista na televisão para que ele dê sua “visão de mundo” e sua versão dos acontecimentos que o levou a matar uma pessoa para roubar. 


Vivemos em tempos em que os sentidos são cada vez mais transitórios com scripts ordinários como os velhos pulp - fiction dos anos 50, encenando num teatro de marionetes uma peça de mal gosto, sob os cordames do Mercado e pelas mãos de um titereteiro pusilânime chamado Estado.

  
Partículas Elementares conta a história de dois meio-irmãos por parte de uma mãe hippie, Michel e Bruno que se encontram apenas na adolescência e empreendem buscas pessoais em direções bastante distintas do cenário da vida humana : o primeiro é biólogo, gênio em matemática, pesquisador, racional e determinado, que vive uma vida pessoal prosaica, onde sua libido não consegue encontrar forma de expressão senão pela sublimação intelectual.  Já Bruno, professor de literatura, busca  encontrar no prazer sexual o Graal que irá perseguir em aventuras cada vez mais inconseqüentes.
Enquanto Michel, que era obcecado pela  idéia de reprodução humana sem sexo e por clonagem celular (sua busca pelas Partículas Elementares da vida), resolve se demitir do instituto de pesquisa em que trabalhava para retomar um antigo projeto genético abandonado logo no início de sua carreira, Bruno tem  uma crise depressiva após uma tentativa frustrada de sedução de uma de suas alunas e acaba se internando em uma clínica para tratamento psiquiátrico. Os irmãos se encontram em vários momentos e embora estejam ambos passando por crises pessoais intensas, o diálogo entre eles é quase surreal, tamanha a distância aparente de suas visões da vida e suas buscas pessoais.

É interessante observar que no desenrolar da trama, estas duas personagens, com suas respectivas libidos apontadas em direções opostas, caminham rumo ao mesmo destino : a decepção e a impossibilidade de redenção da própria vida. 


Michel reencontra Annabelle, uma antiga paixão pela qual só havia desenvolvido um relacionamento platônico e começa um esboço de relacionamento amoroso, frente sua total inadequação ao contato físico e à expressão de seus sentimentos. Ao mesmo tempo, resolve voltar à Irlanda, onde desenvolvera seu projeto de clonagem de células humanas que acabara por abandonar prematuramente. Bruno resolve abandonar sua mulher, por quem já não conseguia mais sentir atração sexual, e se aventurar num acampamento de nudismo em busca de experiências sexuais que o excitassem. Neste acampamento, após inúmeras frustrações, conhece Christiane, com quem acaba por ter um tórrido romance que se estende para a vida além do acampamento. Christiane conduz Bruno à sua vida de devassidão sexual, em clubes de swing e sexo grupal, trazendo todo o estímulo que ele tanto buscava. 


Ao mesmo tempo, Michel, de volta à Irlanda, tem a notícia de que seu trabalho não fora interrompido, mas ao contrário, frutificara, pois outros pesquisadores haviam confirmado seus cálculos que abriam novos caminhos para a humanidade, não apenas da reprodução sem a necessidade do intercurso sexual, mas a possibilidade de se estender para várias partes do corpo a presença dos receptores responsáveis pelo prazer sexual (corpúsculos de Krause), que normalmente se encontram mais concentrados apenas em pontos específicos da genitália feminina e masculina.

CORPÚSCULO DE KRAUSE
Partículas Elementares ganhou em 2006 uma versão alemã para o cinema que merece ser vista, mesmo após ler o livro, pois além de uma adaptação magistral, conta com um elenco excelente que parece ter saído diretamente da imaginação de Houellebecq.



O final do livro é surpreendente e funde,a meu ver de maneira brilhante, a tragédia e a esperança, que acabam de certa forma aparecendo em outras obras do autor.



"PARTÍCULAS ELEMENTARES" - MICHEL HOUELLEBECQ - EDITORA SULINA - 340 PÁGINAS.