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sexta-feira, 20 de abril de 2012

BOA NOITE SR. WINDOWS ! - PARTE 2

"O QUE SERÁ DE NÓS QUANDO SUA LUZ APAGAR A NOSSA?"



Boa noite Sr. Windows ! Eis-me aqui de volta. Então, como eu ia lhe dizendo, venho me tornando um ser cada vez mais virtual, na medida em que aquilo que realmente penso e sinto só ganha alguma materialidade ou noção de conjunto, se é que posso dizer isso, por seu intermédio. Meu corpo físico está imbuído praticamente apenas à repetição infinda (enquanto ele durar) de ações e comportamentos determinados pelo espectro permitido a gente como eu, que ocupa um determinado extrato ou camada da realidade, em que esta me permite certas coisas e não outras. 


Explico : Há algum tempo já percebi que o mais importante para os meus semelhantes não é saber exatamente o que penso ou sinto ou mesmo o que sou verdadeiramente (esta palavra tem um tom de dramaticidade que eu muito aprecio). Não, absolutamente ! Meus semelhantes não querem saber disso, mas querem saber minha posição na tessitura da vidinha social e cotidiana, o meu rótulo, aquilo que me concede um lugar social e que, este sim, já diz tudo o que precisam saber sobre mim. Este é o máximo de interesse que um humano tem diretamente pelo outro humano, o que significa que a comunicação entre humanos não se dá senão por troca de identificadores de posição.  Sou o lugar que ocupo e este lugar que ocupo é ocupado por todos a quem, como eu, vêem depositados sobre si um conjunto prévio de características que nos definem.


Qualquer coisa que eu diga ou qualquer ato meu que contradiga este lugar ou rótulo ao qual estou vinculado, é visto com estranheza e pode ser condenado ou simplesmente, como a maioria das vezes acontece, ignorado. Ao ser ignorado ou repudiado  entre meus semelhantes, humano que sou, tenho a tendência de tentar me reintegrar àquilo que me define e acabo me esquecendo daquelas coisas que me diferenciam deste lugar que ocupo, sem tê-lo escolhido – pelo menos não conscientemente.


Como já declinei antes, é nesta hora que o Sr. vem em minha salvação através de seu filho mais querido ! Generoso que é, registra minhas impressões e sentimentos apócrifos e permite-me relembrá-los a qualquer hora, editá-los, copiá-los, recortá-los, colá-los, enfim, permite-me brincar com as milhares de peças de meu puzzle interno, como se eu tivesse todo o espaço do mundo : Uma mesa gigantesca para abrigar minhas montagens da forma que eu quiser e por quanto tempo eu quiser    (minha filha que era fanática por montar puzzles  de todos os tipos certamente sabe a importância disto).  Hoje, se alguém me perguntar quem eu sou, irei responder confiantemente – “Pergunte ao Dr. Word, filho do Sr. Windows”.  Isto me leva a pensar numa evolução interessante : Há apenas duas décadas, quando alguém não sabia o significado de uma palavra ou a sua grafia, falava-se – “Pergunte ao Aurélio". Mais recentemente o Sr. incorporou esta e tantas outras funcionalidades que quando alguém quer saber sobre qualquer coisa, da qual não sabe sequer o nome, diz-se – “Pergunte ao Google”.


Ok, eu sei que esta é uma ferida narcísica para o Sr., mas também sei o quanto  é benevolente e não guarda rancores, afinal é sempre o Sr. que tudo inspirou, que criou a necessidade que os filhos alheios viessem ao mundo. Além disso, seu outro filho dileto, o aventureiro Explorer, esteve muito perdido e aquém de suas capacidades, antes das bussolas virtuais. 




Mas o Sr. faz mais ! Muito mais. George Orwell imaginou muitas coisas, mas não imaginou que o Sr. pudesse gerar um filho para conter e nos oferecer diariamente os Ministérios do Amor e do Ódio juntos, numa experiência alternada de “frio-quente” que torna nossas vidas confortavelmente tépidas . O Sr. me orienta logo pela manhã e continua, ao longo do dia, a me alimentar de informações para que eu “decida” como devo reagir ao que está acontecendo no mundo real. Me informa quais são os inimigos do dia, quais são as novas ameaças e os estudos que provaram que as anteriores eram infundadas.




É o Sr. quem primeiro me informa em que pé as coisas estão pelo mundo – as catástrofes, os acidentes, os crimes, os roubos, os massacres, as corrupções e toda a sorte de ameaças que pairam sobre nossas cabeças, como a espada de Dâimocles, e que pode nos conduzir, de uma hora para outra, para a morte, a perda ou a miséria (não necessariamente nesta ordem). Falando em Orwell, o Sr. também nos possibilita a oportunidade diária de aprender a “novilíngua”  dos jornalistas e webwriters dos provedores do mundo inteiro ! É verdade que basta ler um para se saber o que todos irão escrever, inclusive os que irão escrever o contrário,  mas este poder de síntese hegemônica do pensamento mundial também tem é fruto da força que o Sr. criou e distribuiu entre nós mortais.



Mas não posso ser negativo, isto seria injusto: Entre uma tragédia e uma catástrofe, o Sr. me informa também a saborosíssima receita  de um bolo de laranja "light" (porque ninguém é de ferro), os fatos e as fotos mais importantes que envolveram os famosos, as notícias do futebol e outras tantas coisas que tornam o meu dia feliz. Fico estimulado ao acompanhar diariamente simplesmente TUDO o que acontece na vida do Neymar, seus hobbies, baladas, aquisições e as tintas usadas em seu penteado estilo “punk broxado”, bem como os passeios de Suri com seus pais Tom e Katie pela praia. Por mais tudo isso, é que só posso mais uma vez lhe dizer : Obrigado Sr. Windows !

segunda-feira, 2 de abril de 2012

BOA NOITE SR. WINDOWS ! - PARTE 1


"UM GRANDE PSICANALISTA CHAMADO WORD "




Em primeiro lugar gostaria de lhe prestar uma homenagem. Aquele tipo de homenagem que não tem a menor importância, porque o homenageado já é tão absoluta e mundialmente consagrado que sinto-me até constrangido. Sinto-me como aquele garotinho chinês, no início dos anos 60, a balançar uma bandeirinha da China diante da portentosa figura de Mao, e cuja mãe alça-o aos ombros, segura de que o grande timoneiro iria discriminá-lo em meio à multidão e preservar na memória sua fisionomia para todo o sempre. Minha modesta, porém justa, homenagem é na verdade um sincero agradecimento, com genuína humildade de devoto : Agradeço-lhe por existir e possibilitar-me companhia incondicional em quase todos os momentos. Deus somente ofereceu Jesus aos homens, o seu filho encarnado, enquanto o Sr., em sua generosidade magnânima,  nos oferece vários filhos simultaneamente. Na época, meia dúzia de romanos deram fim ao filho encarnado, enquanto os seus filhos resistem bravamente a toda sorte de ataques e concorrências e nem mesmo o Congresso Americano pode com sua onipresença. 


Deus nos ofereceu apenas dois testamentos, o Antigo e o Novo, enquanto o Sr. é muito mais pródigo em seus desígnios : já vamos para sua enésima versão, charmosa e cabalisticamente chamada de 8, que irá suceder o 7, embora este tenha sucedido outra enigmaticamente chamada de Vista (uma pequena redundância) que sucedeu outro que não tinha um nome nem um número, mas apenas as letras XP – pura criatividade. Estou neste momento me relacionando com várias de suas epifanias para me atualizar sobre as mentiras fabricadas no mundo inteiro - as bobagens elevadas ao status de coisa séria e que embalam nossa vidinha cotidiana, pagando contas, trocando mensagens com outros seres humanos e sobretudo expressando meus pensamentos junto ao seu filho mais afamado e menos difamado. 


Este último só é menor que o Sr., que o possibilita !  Mesmo sendo um escrevinhador contumaz de papéis, não consigo mais imaginar-me sem ele e a condescendência silente de seu cursor que pulsa como um coração na única expectativa de avançar, de ir em frente. Como um psicanalista pós-moderno, ele se coloca não às minhas costas, mas cara a cara comigo - aquela cara branca com um traço piscante, que não encerra a sessão a cada 50 minutos nem possui aquela coisa de "tempo lógico" lacaniano. Nele, meus pensamentos se desdobram soltos, leves (nem sempre), toldados apenas por um corretor ortográfico que não está muito bem adaptado à nossa língua, mas tudo bem, afinal nem os filhos da pátria são bem adaptados à nossa língua. Bem sei que muitos  voltam-se contra o Sr. e o acusam das maiores imposturas : são ímpios ignaros que não percebem que mesmo quando o Sr. não está nos seus melhores dias e não nos pode enviar suas epifanias, nos oferece uma tela azul, não como o céu da manhã – extremamente iluminado e ofuscante - mas como o crepúsculo de um dia ensolarado, mais condizente com o regozijo e a meditação sobre o estar vivo. 


Os ímpios não compreendem estas sutilezas, paciência!  Mas, voltando à minha singela homenagem, gostaria mais uma vez de lhe agradecer por algo que ninguém mais tem podido fazer por mim nos últimos tempos : Ao me registrar pacientemente e me permitir rever tudo o que digitei, parece até que o Sr. está me ouvindo ou me lendo, enquanto discorro o que vai em minha alma. O Sr. não emite opiniões nem me critica e muito menos fica impaciente enquanto vou desfiando meu rosário de palavras, mesmo que a segunda palavra diste mais de quarenta minutos da primeira. Ainda dentro de sua extrema generosidade, permite que eu apague tudo o que escrevi, embora às vezes o faça sem meu consentimento - o que é compreensível pois, se por um lado pode significar talvez um sinal sutil de desaprovação ao conteúdo, por outro pode significar uma intimidade crítica que detecta quando não me expressei com minhas melhores palavras. Mas o que mais me impressiona no Sr. é seu desprendimento de ceder seus filhos a serviço de outros entes : Outro dia, tal como Adão no Paraíso (inclusive a loja coincidentemente se localiza neste bairro) sucumbi à tentação e mordi uma maçã que, por sinal, já estava mordida. E o que me é oferecido como bônus ? Ele ! Seu filho maior num "pacote premium". Fiquei meio desconfiado, confesso, mas feliz por ter meu companheiro de volta. Por tudo isso e muito mais, só posso dizer : Obrigado Sr. Windows !