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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

ESTADO DE MEDO – O HORROR NOSSO DE CADA DIA






Já comentei sobre os grandes contadores de histórias e o quanto eles são importantes, sobretudo para os leitores amantes. Talvez Shakespeare tenha sido o autor cujos textos mais foram adaptados para teatro, cinema e mini-séries ao longo dos séculos, com versões e releituras no mundo inteiro, como no último filme que vi sobre Hamlet, totalmente adaptado aos dias atuais. Tolstoi, Dostoiévski, Balzac, Wilde, Zola, Hemingway, Capote e uma infinidade de autores de grandes clássicos tem suas melhores histórias, verdadeiros clássicos, reproduzidas em inúmeros formatos. São autores que em seu tempo contaram como ninguém, histórias que envolviam a essência do humano e justamente pela universalidade e atemporalidade dessa essência, são recontadas até os dias de hoje e talvez nunca deixem de ser contadas enquanto houver humanos sobre a Terra.
Resolvi dedicar este post a um escritor contemporâneo, que certamente é mais conhecido mundialmente por sua obra do que por sua personalidade, e que  em minha opinião, arrastou multidões às livrarias e salas de cinema pela qualidade de suas histórias : Michael Crichton. Médico formado em Harvard, Crichton sempre se dedicou à literatura e a roteiros cinematográficos - é dele a série Plantão Médico, que tanto sucesso fez antes do Dr. House e que catapultou George Clooney no panteão de estrelas de Hollywood.



Suas obras mais conhecidas são, sem dúvida: Jurassic Park, O Grande Roubo do Trem,  Sol Nascente, Revelação, Linha do Tempo , todos eles adaptados para o cinema com grande sucesso. O que distingue Crichton de outros autores, é a versatilidade de transitar sobre os mais diversos assuntos, todos ligados à questões atuais, mesclando uma pesquisa extremamente bem feita com sua capacidade imaginativa, que combinados, geram um romance lúdico e didático – o que não é muito comum.  Penso que se pode gostar ou não de seus romances, mas dificilmente se sai de um deles sem ter aprendido algo sobre um tema relevante ou no mínimo ficar instigado a conhecer mais sobre o mesmo. Li todos os seus romances publicados no Brasil e o classifico como um ótimo contador de histórias.






Como qualquer autor, Crichton produziu obras que obtiveram menor repercussão, mas nem por isso deixam de ser extremamente interessantes e  provocativas : “Estado de Medo”, publicada 4 anos antes de sua morte (2008 aos 66 anos), é uma destas obras e pela abordagem que faz, é compreensível não ter recebido muito destaque. O tema central do livro é a Indústria do Ambientalismo Radical, e de como a ciência, mais do que nunca, está a serviço de interesses políticos, que servem de filtro na seleção das verdades científicas que serão apresentadas ao grande público. A partir do fantasma do Aquecimento Global, Crichton desenvolve uma trama envolvente que traz a público dados reais (eu verifiquei estes dados nos sites oficiais da NASA e vários outros que contém arquivos de medições de temperatura de várias partes do globo, nos últimos 100 anos e eles são verdadeiros segundo estas fontes) e que coloca em causa, dois aspectos importantes desta questão :

1) É verdade que a Terra está aquecendo ? Os dados GLOBAIS corroboram esta tese ao longo de uma série histórica relevante  ?

 2) Qual o papel da ação humana neste cenário ? Sendo este cenário verdadeiro, é possível ser evitado ou faz parte de ciclos terrestres que independem da vontade humana ?

Apenas como exemplo, na pesquisa do autor, para as primeiras questões colocadas, podemos verificar que a Terra está aquecendo em algumas regiões e esfriando em outras, na média está esfriando. A segunda questão é mais surpreendente : um dos fatores que mais contribuem para o aquecimento da atmosfera, de longe, são as chamadas “ilhas de calor ”, produzidas pelos aglomerados de pessoas vivendo de forma concentrada em cidades cada vez mais apertadas, com maiores áreas de construção : sim, o bom e velho “calor humano”, aquece também a atmosfera! Os combustíveis fósseis e seus derivados (inclusive as sacolinhas plásticas), são responsáveis por uma parte infinitesimal do processo de aquecimento atmosférico. A quantidade de gente é o maior problema : quanto mais gente, mais plantações, mais vacas (que produzem 25% do metano na atmosfera do planeta), mais consumo, mais dejetos. Daí vem a pergunta : Se o problema maior é a quantidade crescente e a concentração de pessoas, porque não existem políticas e metas para redução da natalidade, através da educação e conscientização em escala global, bem como uma melhor distribuição regional e consumo mais equilibrado? Por que mal se fala nisso, ao passo que os combustíveis e os plásticos são manchetes diárias? A quantidade de entidades, ONGs, autarquias, ministérios, empresas que se dedicam à sustentabilidade são elas próprias consumidoras de recursos preciosos, geradoras de dejetos e inúteis por sua própria natureza.  : não possuem força para frear países como China e Estados Unidos, mesmo naquilo que alegam ser os vilões ambientais.


O livro mostra como os temas são escolhidos politicamente para depois serem “comprovados” por cientistas através do controle de verbas para pesquisa. Em resumo, a ciência deixa de ser um instrumento de busca da verdade para ser um “aval crível” para uma afirmação política, com interesses exclusivamente econômicos e de controle das massas através da constante MEDO :  O humano vive sob constante ameaça, 24 horas por dia e, amedrontado por sua vulnerabilidade, necessita e anseia por um governo que o proteja, que tome decisões por ele. Por outro lado, indústrias altamente poluidoras continuam sua trajetória, sob a égide do crescimento econômico contínuo. Nunca se vê um país que, sensibilizado pela “crise ambiental” promova um Programa de Desaceleração do Crescimento – talvez o único remédio eficaz para preservar o meio ambiente por um pouco mais de tempo.  Digo “um pouco mais de tempo”, pois é uma infantilidade pensar que a Terra foi criada para satisfazer as necessidades humanas – os grandes terremotos e tsunamis, as erupções vulcânicas e as eras glaciais já provaram isto muito antes do homem imaginar o que era combustível. Enfim, o alerta que o livro lança e faz refletir, não se esgota no ambientalismo mas no mal uso da ciência, cujo critério único deveria ser a busca da verdade. 




"ESTADO DE MEDO" - Michael Crichton - Editora Rocco - 623 páginas. 

Destaque para os comentários do autor no final do livro e das fontes de referência que consultou em sua pesquisa.




















terça-feira, 31 de janeiro de 2012

FIRMIN – SOBRE RATOS E HOMENS



"Um rato culto é um rato solitário" - Firmin




Já comentei sobre o processo de encantamento que tive com os livros e a leitura e penso que muita gente compartilha um histórico semelhante. Contudo, não posso deixar de lado o fato de que tive a sorte de encontrar os “livros certos” que me ajudaram a encontrar um prazer indescritível neste hábito, porque foram livros inspiradores – livros escritos por quem gosta de contar uma boa história. Os “livros certos” são aqueles que fazem você querer mais, se aventurar por outros livros, embora não seja possível amar a todos da mesma maneira. Certa vez tive uma experiência incrível com o excelente “Como a Mente Funciona” do neuropsicólogo norte-americano  Steven Pinker : por causa dele, de suas citações caprichadas e suas fartas exegeses, li mais 22 livros que eram de alguma forma mencionados em seu texto. É claro que alguns desses 22 livros, mas não todos, me levaram a outros tantos e, para resumir, até hoje não consegui esgotar as referências importantes da bibliografia utilizada por Pinker. Nenhum destes livros, como já deve ter ficado claro, se trata de um romance, mas pode-se contar excelentes histórias a partir da ciência – quem teve o prazer de conhecer a obra de Carl Sagan e sua série “Cosmos” sabe bem do que estou falando. 
       
A  literatura universal dispõe de clássicos considerados indispensáveis para quem quer ter um mínimo de cultura, mas nem todos eles são de fato bons do ponto de vista do leitor amante, aquele para quem a cultura advinda dos livros é secundária ao prazer de lê-los. O leitor amante não deixa de ler, independente do quão atarefada seja sua vida – a história de José Mindlin comprova isso – e até por isso, lê ainda mais, sempre que consegue um momento. O leitor amante não lê porque é preciso, mas porque ele precisa.

Descobri grandes contadores de histórias, quase todos famosos, mas surpreendi-me enormemente quando tive em minhas mãos a obra “Firmin” de Sam Savage. Não conhecia este autor, nascido na Carolina do Sul – EUA e que publicou Firmin, seu primeiro romance, fora dos grandes círculos editoriais e talvez por este motivo, tenha demorado um pouco mais para se tornar um sucesso absoluto sobretudo entre os leitores amantes. Quando olhei sua capa e o folheei, pensei que se tratava de um romance infantil. Contudo na primeira página, já me dirigi ao caixa da livraria ! Ela começa exatamente falando das primeiras linhas dos livros, das aberturas espetaculares com as quais um autor agrilhoa seu leitor por toda a história. Savage cita algumas, realmente espetaculares, e já ganha o leitor amante de saída : “Lolita, luz da minha vida, fogo de minhas entranhas” – de Nabokov ; “Todas as famílias felizes se parecem, mas cada família infeliz é infeliz à sua maneira” de Tolstoi, ou ainda, a preferida dele – “Esta é a história mais triste que já ouvi” – que abre a obra “O bom soldado” de Ford Madox Ford. Tenho que concordar que das três aberturas escolhidas por ele, a de Ford Madox Ford é a mais instigadora, tanto que fui atrás da obra, li-a e não me decepcionei : é excelente.

                                                                       



Mas continuando a narrativa de Savage, descobrimos nas páginas seguintes que ele fala como Firmin, um rato que nasceu sobre as folhas picadas do Finnegans Wake de James Joyce e mora no forro de uma velha livraria e que se torna um leitor voraz, literalmente, pois além de ler avidamente o tesouro que a livraria abriga, ele também o come. A história de como sua mãe prenha conseguiu se refugiar na livraria para ter sua ninhada e sua luta diária em busca de alimentos é belíssima, cheia do drama que aproxima a espécie humana de todas as demais. 




Erudito, sonhador, esnobe, voyeur, mentiroso, enfim um rato que bem poderia ser  um Oscar Wilde se fosse humano, Firmin nos leva para seu mundo e seus devaneios com “sua” Ginger Rogers, que assistia diariamente num cinema próximo, em seus musicais com Fred Astaire. Firmin acompanha o dia-a-dia da livraria que habita observando do mezanino, o livreiro, um escritor fracassado, que se torna seu herói, por não mais se identificar com seu próprio mundo, pois no mundo dos ratos, um rato culto é um rato solitário. A humanização de Firmin é construída brilhantemente por Savage e esta mistura de rato e homem nos arrasta para momentos de alegoria, tristeza ou de humor deliciosos pelo paralelismo evidente com nossas próprias vidas. É um livro que um leitor amante devora, no sentido figurado - exceto para Firmin - numa sentada e que pode ser um ótimo começo para quem quer se apaixonar por livros. 


"FIRMIN"- Sam Savage - Editora Planeta - 2008 - 244 págs.

Destaque para as ilustrações de Fernando Krahn que tornam o livro ainda melhor.